Ganadeiro


GANADEROS – CRIADORES DE BRAVURA, PROMOTORES DO AMBIENTE E DA BIODIVERSIDADE

Joaquim Grave
Médico Veterinário / Ganadeiro

O campo bravo


Os ganaderos são os homens que criam o toiro bravo, a matéria prima do espectáculo da corrida de toiros. Os toiros pertencem à Raça Brava, uma raça autóctone e um desconhecido património cultural e ecológico. Esta raça contribui para o desenvolvimento rural através de uma ganadaria sustentável e emprego verde. O toiro bravo é, desta maneira, um exemplo perante o desafio ambiental e as alterações climáticas. As mais de oitenta ganadarias existentes em Portugal ocupam mais de 50 mil hectares no centro e sul do país. Na Europa existem mais de 1000 explorações ganaderas desta raça, que contam com um efectivo de 222.888 animais inscritos nos vários livros genealógicos.


Toiro bravo: guardião da biodiversidade


O espaço que esta raça ocupa estende-se por amplas áreas de solos pobres, favoravelmente aproveitados em virtude da extrema rusticidade destes animais. O sistema de cria do toiro bravo dispõe de maior extensificação que outras raças bovinas, uma vez que lhe são dispensados 2 hectares por cabeça, o que supõe um menor impacto sobre o seu habitat do que o de outras espécies animais como o porco ou a ovelha.

O facto de viverem em grandes espaços, autênticas reservas ecológicas, os toiros convivem com – e protegem – espécies em vias de extinção como o lince, a águia imperial, a cegonha preta, o abutre preto. De facto, nos montados onde pastam as ganadarias desenvolvem-se programas de conservação de espécies protegidas. Além disso, são pontos de paragem de aves migratórias como por exemplo o grou. A criação do toiro bravo é, assim, uma verdadeira aliada da defesa de uma sempre desejada biodiversidade.


Luta contra as alterações climáticas


As ganadarias de toiros bravos associam-se na luta contra as alterações climáticas porque os montados onde se situam cativam o dióxido de carbono e são fontes produtoras de oxigénio.


Barreira contra os incêndios


A cria de toiros bravos supõe uma barreira contra os incêndios porque a constante vigilância do gado e as características dos parques das explorações dificultam a deflagração e propagação dos mesmos e também evitam o furto, limitando o acesso do maior depredador: o Homem.


A selecção do toiro bravo


Todo aquele que aspira a ser ganadero deve ter as ideias bem claras sobre duas coisas: primeiro, que tipo de toiro quer criar e, sobretudo, que tipo de comportamento espera que tenha na arena; depois, necessita de um perfeito conhecimento das características morfológicas e psicológicas do encaste ou procedência da sua ganadaria. Bem definidas estas noções, poderá traçar uma linha de conduta, leia-se de selecção, que lhe permitirá melhorar essas mesmas características e conseguir um dia criar o «seu» toiro. Só assim saberá que caracteres devem merecer prioridade na sua selecção, uma vez que esta não deve ser igual entre ganaderos, já que os seus toiros também não são iguais.

O toiro de lide é talvez o animal mais difícil de seleccionar e converte a profissão de ganadero de reses bravas numa das mais apaixonantes, na qual cada um tenta modelar o toiro que tem em mente, o que quase nunca chega a conseguir. Para ser ganadero consciencioso é indispensável estudar o toiro. E o toiro é uma incógnita que não se desvenda por uma fórmula matemática ou por quantificação de parâmetros medíveis, mas sim à força de conviver com ele, à força de observações meticulosas e persistentes.

Um bom ganadero deve ter noções agronómicas e zootécnicas básicas para gerir com acerto uma exploração. Ser ganadero é muito mais do que juntar o toiro bravo com a vaca brava e esperar que nasça um bezerro bravo.

Ninguém até hoje desvendou por completo o mistério da bravura. Houve, no entanto, alguns que conseguiram resultados excelentes. O ganadero deve sê-lo, em primeiro lugar por afición. Deve criar toiros antes de mais nada para si próprio.

A singularidade do toiro bravo, a envergadura e poder da sua individualidade escapam aos normais processos de apreciação zootécnica e exigem uma nova medida. Mesmo os que não apreciam o espectáculo de uma corrida de toiros e os que são apenas curiosos, deveriam parar um pouco e pensar no sentido de entenderem este autêntico milagre zootécnico.

Toda a ética da corrida repousa sobre uma única ideia, a bravura do toiro. A bravura é o único pretexto da corrida e a sua maior glória. Isto leva-nos a perguntar “quem é o toiro?” “o que é o toiro?” Um filósofo francês, Francis Wolff, define de forma brilhante que o toiro bravo não é nem um animal doméstico, nem um animal selvagem, mas sim um ser essencialmente bravo. Ele põe o valor intrínseco do seu combate acima da sua própria dor. Esta resposta não é de todo redundante, uma vez que a bravura em si mesma é ambígua e a sua ambiguidade revela toda a riqueza da corrida.

É este património genético, cultural e ecológico que os ganaderos devem cuidar numa selecção rigorosa para que o toiro bravo não desapareça enquanto espécie bovina de características únicas e singulares.



Neste momento (2020) estão no ativo os seguintes ganadeiros:



REGISTOS BIBLIOGRÁFICOS


Almeida, Maria Antónia Pires de (2002), “Ganadeiro”, Conceição Andrade Martins, Nuno Gonçalo Monteiro (orgs.), A Agricultura: Dicionário das Ocupações, Nuno Luís Madureira (coord.), História do Trabalho e das Ocupações, vol. III, Oeiras, Celta Editora, pp. 190-194


REGISTOS VIDEOGRÁFICOS


https://archive.org/details/papafina/Patrim%C3%B3nio+Imaterial+e+Cultural/O+Toiro+de+Lide/ganadeiro.mp4