Médico


MÉDICOS EM CONTEXTO TAURINO. A CIRURGIA TAURINA.

Luís Ramos
Cirurgião Geral do Hospital Vila Franca de Xira
Cirurgião Responsável pela Enfermaria da Praça de Touros “Palha Blanco”
Professor Auxiliar Convidado da NMS|FCM da Universidade Nova de Lisboa

A singularidade do touro enquanto animal bravo é também corroborada enquanto agente de trauma único, uma vez que, atualmente, no mundo ocidental e numa sociedade esmagadoramente urbana, em que pouco se contacta com a natureza no seu estado puro e selvagem, este é o único animal ao qual é permitido “invadir” o espaço humano, quer em festejos populares nas ruas, quer em espetáculos culturais formais como as corridas de touros.

O “preço” deste convívio entre o homem e a natureza é muitas vezes apresentado sob a forma de lesões traumáticas graves.


A Cirurgia Geral é a especialidade médica que se dedica ao tratamento do doente politraumatizado em qualquer contexto, resultante de uma qualquer atividade humana.

A Cirurgia Taurina representa a vertente do tratamento do doente/vítima de uma lesão provocada por um touro ou rês bovina brava, quer seja no manejo do gado bravo no campo, quer seja numa largada ou espera de touros nas ruas das aldeias, vilas e cidades taurinas, quer seja ainda numa corrida de touros em Praça destinada a esse fim.

A especificidade da Cirurgia Taurina resulta de noções e procedimentos que os médicos têm de saber e ter para conseguirem tratar de forma científica, atual e correta as lesões decorrentes deste tipo de acidentes.

A necessidade de uniformização de tratar ferimentos resultantes do trauma infligido pelo touro, levou a que no século XX se criasse uma sociedade científica dedicado ao tema: A SOCIEDADE INTERNACIONAL DE CIRURGIA TAURINA. Esta Sociedade reúne clínicos de diversos países onde existe tauromaquia: Espanha, França, Portugal, México, Peru, Venezuela, Colômbia e Equador.


Ainda hoje este tratamento reveste-se de particularidades únicas:


- As lesões infligidas por um touro são de elevada cinética, justificando-se a designação de politraumatizado (até prova em contrário) neste contexto de acidentes, tal como de forma similar designamos por exemplo, os doentes/vítimas de acidentes de viação.


- As lesões efetuadas por este animal são dependentes do tipo de atividade e festejo que se esteja a celebrar, uma vez que o peso, idade e integridade da córnea influenciam o tipo de lesões que as vítimas podem sofrer.

Enquanto numa corrida de touros em Portugal, habitualmente com forcados, os touros têm uma proteção da sua córnea (ditas embolas) os tipos de lesões daí decorrentes são maioritariamente traumatismos fechados sem perfuração ou penetração a cavidades. Nos festejos em que os animais são soltos ou lidados com hastes íntegras (como existem na natureza) sem qualquer tipo de proteção, as lesões daí decorrentes são habitualmente perfurantes e penetrantes, para além da potencialidade de traumatismos fechados associados. Encerram no fundo a máxima gravidade das lesões provocadas por este animal.

- Estas lesões têm características que curiosamente são comparáveis mais com as provocadas por uma arma de fogo do que propriamente com as de uma arma branca, uma vez que, apresentam uma queimadura da porta de entrada da cornada e têm uma destruição muito maior e mais extensa do que faria supor a dimensão do orifício de entrada.


- Para além disso, devido aos derrotes do touro e consequente alteração do centro de gravidade da pessoa colhida, uma única cornada tem habitualmente múltiplas trajetórias intracorpóreas associadas.


- A gravidade das mesmas, leva a que, segundo as boas práticas da chamada Cirurgia Taurina, sejam mandatoriamente exploradas em ambiente de Bloco Operatório por uma equipa cirúrgica que conheça estas particularidades.


- Por fim a ocorrência destas lesões em ambiente de Praça de Touros permite que a equipa médica no local (que é uma obrigatoriedade legal para a permissão da realização do espetáculo taurino) tenha a oportunidade única em trauma, de observar o acidente em causa e a cinemática do mesmo, o que permite antever muitas das potenciais lesões e antecipar estratégias de abordagem e tratamento das mesmas.

Em qualquer caso, seja qual for o tipo de festejo taurino, a disponibilidade de pessoal médico qualificado e preparado para abordar os traumatismos provocados por toiro bravo, é uma condição essencial, que pode decidir entre a recuperação e a vida, ou a incapacitação e a própria morte de pessoas, de todo indesejável e hoje em dia quase sempre possível de evitar desde que o apoio médico não seja, nunca, dispensado pela organização desses festejos.



REGISTOS BIBLIOGRAFICOS


Ângelo, David Serrano Faustino (2010), "Assistência Médica de Acidentes Tauromáquicos em Praças Portuguesas: Um Contributo para a sua Compreensão", Covilhã, Dissertação de Mestrado em Medicina, Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior