Mapa da Presença da Tauromaquia em Portugal


TRAÇADO NACIONAL DA TAUROMAQUIA

Luís Pereira
Antropólogo

Olhar Introdutório


A Declaração Universal sobre Diversidade Cultural da UNESCO, adotada pela 31.ª reunião da conferência geral da UNESCO, em Paris, a 2 de Novembro de 2001, refere no Artigo 1.º – A diversidade cultural, património comum da humanidade:


A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. Essa diversidade manifesta-se na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. Fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade, a diversidade cultural é, para o género humano, tão necessária como a diversidade biológica para a natureza. Nesse sentido, constitui o património comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em benefício das gerações presentes e futuras.


O Toiro ou Touro, conforme entenderem e quiserem, incorpora uma forte carga simbólica e também uma visão mista e mística, que faz da tauromaquia uma "peça" obrigatória da diversidade cultural, tanto na perspectiva das representações das festividades cíclicas, como dos espetáculos artísticos ou incorporando outros ramos das atividades culturais (pintura, escultura, fotografia, dança, etc.). Na literatura portuguesa existem inúmeras referências a eventos taurinos desde o século XII, quase todos de iniciativa régia. A título de exemplo cita-se:


No casamento de D. Beatriz, filha de D. Fernando, com o rei de Castela (1383), "depois de comer justaram e tornearam e lidaram touros". … Em 1450, nas festas do casamento de D. Leonor com Frederico III da Alemanha, houve igualmente tourada em Lisboa. Segundo narra o embaixador alemão Nicolaus Lanckmann V. Valkenstein, "ao meio dia [depois das danças] mandou o rei correr seis touros bravos, e ante todo o povo vieram mouros de ambos os sexos com danças e tangeres. E pegaram dois touros vivos, que mataram e esquartejaram e distribuíram segundo o seu costume". … Também em 1455, quando passou por Évora Dª. Joana, irmã de D. Afonso V, que ia casar com o rei de Castela, foram corridos touros que importavam em 35 a 36.000 reais brancos (Marques, 1974).


Assim, não é de estranhar que a grande obra universal da literatura portuguesa “Os Lusíadas” encerre várias alusões aos touros. Encontramos (re)cantos taurinos no Canto I: 88, Canto III: 39, Canto III: 47, Canto III: 66, Canto VI: 84, Canto X: 34, Canto X: 43, Canto X: 147.

Ao longo dos séculos as "tauromaquias" sofreram alterações, quanto aos locais e às formas como se foram representando. Mas, apesar do passado nos ajudar a interpretar o presente, é deste último que se pretende escrever. Assim, neste texto será abordada a distribuição geográfica da atividade tauromáquica em geral e dos dois grandes grupos em que foi dividida, o que justifica que se tenha escrito "tauromaquias". Especificando, elaborou-se um Índice de Atividade Tauromáquica (IAT), a partir da realização de dois tipos de espetáculos. Por um lado, os espetáculos promovidos por profissionais e que se enquadram no âmbito do Regulamento dos Espetáculos Tauromáquicos (RET), aprovado pelo Decreto-Lei nº 89/2014, de 11 de Junho, e por outo lado, os espetáculos de cariz popular e informal, promovidos por aficionados à "Festa". O trabalho foi feito tendo por base a divisão do território em NUT (Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos) de nível 3, a que correspondem as vinte e uma Comunidades Intermunicipais e as Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto, de acordo com as unidades administrativas resultantes da entrada em vigor da Lei n.º 75/2013 de 12 de setembro.

Importa desde já referir que, apesar deste texto se centrar no território continental, a atividade tauromáquica na Região Autónoma da Madeira e a Região Autónoma dos Açores também foi minimamente analisada. Quanto à Região Autónoma da Madeira é fácil descrevê-la, ou seja, não tem qualquer expressão. Já quanto à Região Autónoma dos Açores, a imagem inverte-se. Empiricamente, e também segundo elementos recolhidos em publicações da especialidade na Internet, consegue-se concluir que na Ilha Terceira a atividade tauromáquica é fortíssima, constituindo "a coisa" a que o Etnólogo Marcel Mauss, na sua obra "Ensaio sobre a Dádiva", denominou como "fenómeno social total". O "touro à corda" é uma variedade taurina que tem implicações na cultura, na religião, na política e na economia da sociedade terceirense.

Na Ilha Terceira as toiradas à corda são coisas sérias. São, na verdade, o “fenómeno social total” da sociedade terceirense. Pelos toiros se é da Terceira, com os toiros se cresce, a uma ganadaria se adere como símbolo de pertença, nos toiros se arranja namoro e casamento, nos toiros as pessoas se divertem. Tudo parece passar pelos toiros e por isso tudo pára para deixá-los correr (Capucha, 1995).

Sendo uma questão despicienda para este texto, para que não fique a omissão e a confusão, refere-se que a "Tourada à Corda" não se enquadra no âmbito RET, mas obedece a regras, algumas positivadas em lei.


A Visão do Espaço Entrelinhas


Neste texto pretende-se transmitir o resultado dos dados recolhidos e as conclusões retiradas. Para tal, quanto aos espetáculos do RET recorreu-se ao relatório da entidade que superentende a atividade, a Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC). Relativamente aos espetáculos de cariz popular, coligiu-se informação do precioso blog "Festa Brava no Ribatejo", da responsabilidade de Luis Sacôto (http://festabravanoribatejo.blogspot.pt/), e a outra informação constante da internet. Quanto à "Capeia Arraiana", obteve-se informação no blog "Capeia Arraiana", da responsabilidade de José Carlos Lages e Paulo Leitão Batista (http://capeiaarraiana.pt/), e no tocante às "Chegas de Bois" colheu-se informação no site da Câmara Municipal de Montalegre.

Os mapas que se apresentam como Imagem I, II e III, representam o resultado do somatório do número de espetáculos realizados no ano de 2014 com a presença do touro, e que foram ponderados em função do número de habitantes de cada NUT de nível 3. Os resultados obtidos, 221 (duzentos e vinte e um) espetáculos no âmbito do RET e 736 (setecentos e trinta e seis) de cariz popular, determinaram a divisão do território, quanto à atividade tauromáquica, em 5 subgrupos, expressos pelas cores constantes das legendas dos mapas, a saber: sem expressão (quando inexistente ou com um único espetáculo); fraco; inferior à média; superior à média; forte.

O mapa apresentado como Imagem I ilustra o índice de atividade tauromáquica no âmbito do RET. O mapa apresentado como Imagem II ilustra o índice do conjunto de eventos tauromáquicos de iniciativa informal ou de cariz popular. Por último, o mapa apresentado como Imagem III ilustra o índice de atividade tauromáquica resultante do somatório dos dois tipos de representações tauromáquicas.


• Espetáculos Tauromáquicos no Âmbito do RET

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Imagem I - Espetáculos Tauromáquicos no Âmbito do RET em 2014. Elaboração Luís Pereira e David Cruz (2018).

Observado o índice e tendo em conta a classificação atribuída, verifica-se (cfr. Imagem I):

→ Que as NUT denominadas Área Metropolitana de Lisboa e Alentejo Central (que grosso modo correspondem aos distritos de Lisboa, Évora e Setúbal), apresentam os maiores índices de atividade tauromáquica. Estas duas NUT com 72 (setenta e dois) espetáculos realizados, respetivamente, 40 (quarenta) e 32 (trinta e dois), representam cerca de 33% dos espetáculos;

→ Que as NUT confinantes a Norte (Lezíria do Tejo, Alto Alentejo e Oeste), apresentam resultados superiores à média. Com 67 (sessenta e sete) espetáculos realizados, respetivamente 24 (vinte e quatro), 22 (vinte e dois) e 21 (vinte e um), que representam cerca de 30% da atividade;

→ Que o Algarve, onde se realizaram 24 (vinte e quatro espetáculos), apresenta um índice também superior à média, que representa cerca de 11% da atividade;

→ Que as NUT mais a Sul (Baixo Alentejo e Alentejo Litoral) registam um índice de atividade inferior à média. Com 22 (vinde e dois) espetáculos realizados, respetivamente, 16 (dezasseis) e 6 (seis), representando cerca de 10% da atividade. De referir que as NUT que confinam a Sul com as NUT de maior índice de atividade, apresentam menor atividade que as NUT que confinam a Norte (Alto Alentejo, Lezíria do Tejo e Oeste),

→ Que em 4 NUT, a saber, Alto Tâmega, Ave, Cávado e Douro, a atividade tauromáquica é classificada como "sem expressão";

→ Que nas restantes NUT a atividade tauromáquica é classificada como "fraca". Nestas NUT, situadas essencialmente no Norte do país e que formam um conjunto de 11 (onze) realizaram-se 36 (trinta e seis) espetáculos, o que representa cerca de 16% dos espetáculos tauromáquicos realizados em Portugal Continental.


• Espetáculos Tauromáquicos de Cariz Popular

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Imagem II - Espetáculos Tauromáquicos de Cariz Popular em 2014. Elaboração Luís Pereira e David Cruz (2018).

Neste âmbito, verifica-se:

→ Que as NUT denominadas Área Metropolitana de Lisboa, Lezíria do Tejo e Alentejo Central (que grosso modo correspondem aos distritos de Lisboa, Évora, Santarém e Setúbal) apresentam os maiores índices de atividade tauromáquica. Nestas três NUT realizaram-se 441 (quatrocentos e quarenta e um) espetáculos, respetivamente, 160 (cento e sessenta), 147 (cento e quarenta e sete) e 134 (cento e trinta e quatro), o que representa cerca de 60% dos espetáculos;

→ Que as NUT confinantes a Norte (Alto Alentejo e Oeste) e a Sul (Baixo Alentejo), apresentam resultados superiores à média. Com 209 (duzentos e nove) espetáculos realizados, respetivamente 92 (noventa e dois), 56 (cinquenta e seis) e 61 (sessenta e um), que representam cerca de 28% da atividade;

→ Que a Sul a NUT Alentejo Litoral apresenta uma classificação de "fraco" e a NUT Algarve tem a classificação "sem expressão;

→ Que no Norte do país, excetuada a NUT Beiras e Serra da Estrela, classificada "inferior à média", as restantes NUT têm classificação "fraco" ou "sem expressão".


• Índice da Atividade Tauromáquica (Total)

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Imagem III - Índice da Atividade Tauromáquica em 2014. Elaboração Luís Pereira e David Cruz (2018).

No cômputo dos dois tipos de espetáculos em que dividimos a Tauromaquia, verifica-se:

→ Que as NUT denominadas Área Metropolitana de Lisboa, Lezíria do Tejo e Alentejo Central apresentam os maiores índices de atividade tauromáquica;

→ Que as NUT confinantes a Norte (Alto Alentejo e Oeste) e a Sul (Baixo Alentejo), apresentam classificação "superior à média";

→ Que a Sul, a NUT Alentejo Litoral apresenta uma classificação de "inferior à média" e a NUT Algarve tem classificação "fraco";

→ Que no Norte do país, excetuada a NUT Beiras e Serra da Estrela, classificada "inferior à média", as restantes NUT têm classificação "fraco" ou "sem expressão".


A Observação Analítica


Nesta observação detalhamos os aspetos relevantes, nomeadamente, o facto de um dos tipos de espetáculos ter notoriamente maior "peso" que outro. Tomando em conta a divisão da Tauromaquia em dois tipos e também a classificação utilizada, é adequado abordar somente as NUT de Portugal Continental onde a Tauromaquia foi classificada acima de "fraco".

No entanto, é obrigatória a referência a dois acontecimentos ímpares na tauromaquia popular no continente que se desenrolaram em NUT consideradas de "fraco", no caso do Alto Tâmega e "sem expressão", no caso do Alto Minho. Referimo-nos às "Chegas de Bois", em Montalegre e à "Vaca das Cordas" em Ponte de Lima. Socorremo-nos de duas citações para ilustrar o valioso património cultural que rodeia estes acontecimentos, respetivamente:


"Nas regiões comunitárias o touro costuma pertencer à comunidade e, às vezes, os habitantes de aldeias vizinhas costumam deitar os touros à luta, o que pode ocasionar grandes prejuízos, mas também é um motivo de grande festa e alegria para aqueles cujo touro ficou vitorioso. Na serra de Montemuro, fazem lutas com vacas, que também são muito apreciadas" (Dias, 1990, Vol. 2);

"Por um uso antiquíssimo, que se perde na escuridão dos séculos e que nunca foi interrompido até 1884, fez-se sempre, anualmente, em Ponte do Lima, a corrida da vaca das cordas, na tarde da véspera de Corpus-Christi. De tal função foram constantemente ministros os moleiros do concelho, que tinham a obrigação de pegarem às cordas e executarem a corrida, sob a condenação de 200 reis pagos na Cadeia por aquele que não comparecesse ou furtasse a tal mister, segundo o Código das posturas Municipais de 1646, cap.56; e de 480 reis, segundo o de 1720, cap.55" (Lemos, 1998).


Relativamente à tauromaquia popular é obrigatória a referência à variedade abordada na introdução como um "facto social total", a "Tourada à Corda". Esta variedade taurina regista atividade na Ilha da Graciosa, com 14 (catorze) touradas, na Ilha de São Jorge, com 19 (dezanove), mas é na Ilha Terceira que atinge o expoente máximo da Tauromaquia em Portugal. Em 2014, na Ilha Terceira realizaram-se 206 (duzentos e seis) touradas.

"O touro à corda é uma representação cultural aberta à assistência e participação popular, mas com regulamentação regional apropriada, publicada no Capítulo XIII do Decreto Legislativo Regional n.º 37/2008/A, de 5 de Agosto. A regulamentação evoluiu a partir de regras de cariz popular e relevam os limites do espaço, que são assinalados por riscos no chão feitos a cal e os limites do tempo assinalados por foguetes" (Pereira, 2010).


• O Maior Peso dos Espetáculos Regulamentados

Tendo em conta que se está a analisar somente as NUT de Portugal Continental onde a Tauromaquia foi classificada acima de "fraco" e correndo os riscos que as generalizações acarretam, salientam-se alguns factos.

Verifica-se que em duas NUT a tauromaquia regulamentada pelo RET tem um peso superior ao dos espetáculos de cariz popular. Nesta situação estão Algarve e Alentejo Litoral. No caso do Alentejo Literal a disparidade é mínima, pois que relativamente aos espetáculos populares a classificação é "fraco" e relativamente aos espetáculos do RET a classificação é "inferior à média". No caso do Algarve a diferença entre os dois tipos de tauromaquia é maior e pode ser considerada como a grande disparidade nacional.

O Algarve, quanto aos espetáculos de cariz popular, tem classificação "sem expressão", e tem classificação "superior à média" para os espetáculos no âmbito do RET. Dos 24 (vinte quatro) espetáculos realizados, 22 (vinte e dois) foram realizados na Praça de Touros de Albufeira, o único tauródromo fixo ativo existente no Algarve. Tendo em conta o conjunto de espetáculos realizados em Portugal, foi na Praça de Touros de Albufeira que se realizou o maior número de espetáculos no âmbito do RET. A classificação obtida pelo Algarve, relativamente aos espetáculos de cariz popular "sem expressão", indica algum afastamento da população desta NUT relativamente à atividade tauromáquica. A proximidade de um mar sereno e farto e uma vocação para o turismo de sol e praia parece constituir uma causa explicativa desta realidade.

A "inexistência" de espetáculos de cariz popular contrasta com a existência da Praça de Touros com maior número de espetáculos realizados a nível nacional. Um tão grande número de espetáculos no âmbito do RET, numa NUT onde os espetáculos de cariz popular não têm expressão, indicia que os espetáculos têm como público-alvo os turistas (por isso são apresentados como “Portuguese Bullfight”), neste caso, por constatação empírica, formado em grande parte por estrangeiros.

De Junho a Setembro, na Praça de Touros de Albufeira é rara a semana em que não existe um espetáculo tauromáquico. Esta proliferação de espetáculos em local onde o público é pouco conhecedor da "Festa" e por isso pouco exigente a nível artístico, faz com que muitos destes espetáculos sejam uma demonstração tauromáquica de menor qualidade. De referir que a Praça de Touros de Albufeira é classificada oficialmente como de 3ª categoria, a mais baixa de uma classificação sem critério e ferida de ilegalidade, mas utilizada pela entidade administrativa que supervisiona a atividade para efeitos de aplicação da Lei, a IGAC.

A realidade constatável no Algarve relativamente aos destinatários dos espetáculos tauromáquicos, é também percetível, embora em muito menor escala, noutras praças de touros situadas em locais que têm uma tradicional notoriedade como "zonas de banhos". Nazaré, Póvoa do Varzim e Figueira da Foz apresentaram 14 (catorze) espetáculos no âmbito do RET, respetivamente 7 (sete), 4 (quatro) e 3 (três). Contudo, relativamente a espetáculos de cariz popular, nestas NUT só se realizou um único espetáculo, uma "Garraiada" na Póvoa de Varzim. Estes dados levam a concluir que os espetáculos que hoje se realizam visam também os turistas (emigrantes e nacionais de férias).


• O Peso da Tauromaquia Popular

Neste "prato da balança" relevam três NUT nas quais a tauromaquia de cariz popular tem um peso significativamente maior do que a tauromaquia regulada pelo RET, a saber, Beiras e Serra da Estrela, Baixo Alentejo e Lezíria do Tejo.

Quanto à NUT das Beiras e Serra da Estrela, a explicação para um forte pendor para o lado da tauromaquia popular deve-se sem dúvida às "Corridas do Forcão", ou melhor dizendo, às "Capeias Arraianas", pois que o momento do Forcão é "só" uma parte da "Capeia Arraiana". Para uma abordagem à lide, cita-se: “por costume antigo, os touros vêm de Espanha, das aldeias vizinhas, cedidos gratuitamente em contrapartida da renúncia, por parte dos lavradores portugueses proprietários de terras na raia, a quaisquer reclamações contra os estragos que os gados espanhóis ali fazem nas suas searas” (Oliveira, 1995: 264).

É mister referir que a Capeia Arraiana detém a honra de ter sido, por decisão favorável da Comissão para o Património Cultural Imaterial, publicada em Diário da República, através do Anúncio n.º 16895/2011, de 16 de novembro, a primeira e durante muito tempo a única inscrição no registo do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Quanto ao maior peso, neste caso, "grande", da tauromaquia popular nas NUT Lezíria do Tejo e Baixo Alentejo, a explicação será mais complexa. No entanto, numa expressão lacónica, pode afirmar-se que é naturalmente de âmbito cultural, sendo aqui a Cultura tida como os hábitos, usos e costumes, expressos no desempenho de tarefas, no divertimento e no sentimento coletivo de determinado povo. Na Lezíria do Tejo realizam-se cerca de 6 espetáculos de cariz popular por cada espetáculo regulamentado pelo RET, sendo que no Baixo Alentejo essa relação fica em quatro para um. Estes números indicam que por vários motivos, cuja especulação não cabe neste texto, o "povo" prefere e adere em força aos espetáculos de cariz popular.

Na Lezíria do Tejo importa destacar os concelhos de Benavente e de Salvaterra de Magos como os concelhos de maior expressão na tauromaquia nacional. Na NUT do Baixo Alentejo destacam-se como concelhos de maior atividade tauromáquica Beja, Cuba, Moura e o emblemático concelho de Barrancos. No entanto, nestas NUT aparecem cinco concelhos "sem expressão" na atividade tauromáquica, a saber, Alpiarça e Rio Maior, na NUT Lezíria do Tejo, e Almodôvar, Castro Verde e Mértola, na NUT Baixo Alentejo. Esta classificação dos concelhos citados desperta algumas questões, que por ora ficam por colocar.

No caso dos concelhos da NUT Baixo Alentejo, classificada como "superior à média", a questão da disparidade na atividade tauromáquica tem menor relevância, face à NUT Lezíria do Tejo, pois esta NUT obteve a classificação "forte". No caso do concelho de Alpiarça, refira-se a sua oposição com os concelhos limítrofes, todos eles da mesma NUT, Santarém, Chamusca, Almeirim e Golegã, os quais têm uma grande expressão na atividade tauromáquica nacional. A disparidade constatada terá uma explicação que remete para uma análise mais extensa e aprofundada. Quanto ao concelho de Rio Maior, a sua localização periférica na Lezíria do Tejo é justificativa para tal disparidade.

Por último, importa justificar a atribuição da mesma classificação, "inferir à média", quanto aos espetáculos no âmbito do RET, a duas NUT que são nitidamente diferentes na atividade tauromáquica, concretamente, Alentejo Litoral e Baixo Alentejo. A diferença é desde logo constatável quanto à realização de eventos tauromáquicos de cariz popular, onde a NUT Alentejo Litoral teve a classificação "fraco" e a NUT Baixo Alentejo teve classificação "superior à média". Contudo, a necessidade de divisão em subgrupos implicou que os mesmos tivessem limiares mínimos e máximos e neste caso a NUT Alentejo Litoral com 6 (seis) espetáculos, ficou no limiar mínimo e a NUT Baixo Alentejo, com 16 (dezasseis) espetáculos, ficou junto ao limiar máximo.


Conclusão


Da análise efetuada e salvo algumas disparidades assinaladas, verifica-se que a zona de "forte" atividade tauromáquica se concentra no Centro-Sul do território nacional. Vários são os fatores que determinam tal realidade. Contudo, este trabalho focou-se no mapeamento da atividade tauromáquica com o objetivo genérico de identificar as áreas onde se deve concentrar o trabalho de quem quer "investir" neste ramo do património cultural.

A cultura é constituída por representações que refletem a imaginação e criatividade das sociedades. Por outras palavras, o homem é homem porque é capaz de transmitir conhecimento, crença, lei, moral e costume aos seus descendentes e aos seus vizinhos, através de um aprendizado. Os movimentos que transportam cultura e defendem a memória coletiva são fundamentais para revitalizar as tradições culturais e assim influenciarem as decisões da política cultural. Os protagonistas destes movimentos devem trazer à tona um passado que insiste em se fazer presente e que se revela capaz de se projetar no futuro, integrando as políticas de desenvolvimento e de afirmação de um povo.

Durante algum tempo a tauromaquia foi vista, por alguns imprudentes, como um obstáculo e não como recurso para o desenvolvimento. É fundamental proteger a nossa herança cultural e reconhecer, sem preconceitos hierarquizantes, as raízes culturais. O que se pretende não é um olhar de compaixão pelas tradições culturais, mas sim um olhar capaz de estimular o desenvolvimento, que integre a singularidade cultural das diferentes comunidades e grupos sociais. Para tal, a Administração Central e Local deve desempenhar o seu papel decisivo na dinamização da Tauromaquia. O respeito pela diversidade cultural não é contraditório com a evolução, pelo contrário, é fundamental para o desenvolvimento.

Para além de fator de identificação e valorização cultural das comunidades, o mundo dos touros transmite-nos conhecimentos de expressões orais, de rituais, de usos relacionados com a natureza e com o universo, ou seja, é um património intangível de valor incomensurável. A aposta na defesa e promoção do vasto património taurino, com incidência nas áreas dos distritos de Beja, Évora, Guarda, Portalegre, Santarém e Setúbal, pode contribuir para corrigir as assimetrias regionais e potenciar o desenvolvimento integrado e sustentado das regiões.


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