Moço de Espadas


MOÇOS DE ESPADAS

Luís Capucha
Sociólogo / Professor Universitário

O moço de espadas é uma figura fulcral da tauromaquia. Se o empresário é o agente artístico do toureiro, o moço de espadas é o seu assistente pessoal. Ao moço de espadas, do qual se espera vivacidade, empatia e espírito de serviço, cabe assegurar que tudo o que o seu “chefe de quadrilha”, cavaleiro ou matador de toiros, precisa numa corrida é transportado no carro de quadrilhas, que conduzirá até ao hotel onde eles vestem os seus trajes e depois à praça. Os capotes, muletas, bilhas e garrafas de água, fita gomada, estojo para costurar, não vá um toiro rasgar uma peça do vestuário do seu toureiro, toalhas, estoques e ajudas, bandarilhas, trajes, um ou outro comprimido para qualquer eventualidade, tudo tem de estar a ponto. No caso dos cavaleiros, o moço de espadas divide essa responsabilidade com os moços de estrebaria que cuidam do transporte dos cavalos, do seu bem-estar, da sua acomodação na praça, da sua alimentação e bebida, e do arranjo dos arreios e outros enfeites.

Quando a quadrilha viaja já deve estar programado, ao detalhe, todo o dispositivo que antecede a corrida. O moço de espadas marcou o hotel onde o cabeça de cartaz e os peões de brega descansam antes da corrida e se vestem para tourear. Se não é o hotel, será na casa de uma pessoa amiga, mas o que é certo é que ninguém sai de casa sem destino definido. Já reservou também o restaurante para as refeições antes e depois da corrida de toiros, sendo frequente que as mesmas sejam oferecidas por amigos ou admiradores do cavaleiro ou do matador de toiros, que o moço de espadas tem de conhecer na perfeição.

Antes da corrida o moço de espadas ajuda o seu toureiro a vestir-se, ritual carregado de sentimento e compenetração, em que todos os detalhes contam (por exemplo, não deixar que nenhum chapéu repouse em cima da cama, ou que ninguém com roupa amarela visita o toureiro). O quarto em que se processa o ritual tem de estar preparado de modo a que o cavaleiro ou o matador de toiros coloquem pela ordem usual as imagens dos Santos da sua devoção, aos quais se encomendam pedindo sorte.

Durante a corrida o moço de espadas passa os trastes de tourear ao matador, assiste às suas necessidades, dá-lhe de beber, molha a muleta se está vento, segura no tricórnio se o cavaleiro não o usar durante a lide.

No fim arruma todo o material no carro de quadrilhas e condu-lo de volta ao quarto, onde ajuda o cabeça de cartaz a despir-se. Depois filtra as pessoas que se querem dirigir pessoalmente a ele, de modo a servir os seus interesses e a deixá-lo descansar. Antes, eventualmente, terá passado pelo empresário para levantar o caché que entrega ao chefe de quadrilha, ao seu apoderado ou a outra pessoa que se encarregue de gerir os rendimentos. É ele também que no fim das corridas telefona aos membros da família e amigos mais chegados do toureiro, para os tranquilizar em relação ao desfecho da corrida. Em articulação com o apoderado liga também aos críticos que seguem o seu toureiro.

Por fim, de regresso a casa, compete-lhe limpa os trastes e os vestidos de tourear, com esmero e brio.

Os moços de espadas têm os seus ajudantes, que geralmente se encarregam de assistir os outros elementos da quadrilha.

Entre os moços de espadas e os cabeças de cartaz tem de haver muita confiança, pois ele é o confidente do toureiro e, em muitos casos, o seu primeiro conselheiro dentro e fora da praça.

Em muitos casos os laços entre o cabeça de cartaz e o moço de espadas ultrapassa de muito longe a simples relação laboral, para ser uma relação de amizade e de fraternidade que dura para toda a vida, até que a morte os separe, ou os una, como aconteceu com Escudero, o “Chocolatero” moço de espadas de Manuel dos Santos, que com ele morreu num trágico acidente de viação quando o matador de toiros já estava retirado. Se aqui o evocamos é porque ele é um símbolo para todos os excelentes moços de espadas portugueses.