Tourada à Corda (Açores)

TOURADA À CORDA: COMPILAÇÃO DE ARTIGOS

Sónia Ferreira

Presidente da Associação Regional de Criadores de Toiros de Tourada à Corda

A Associação Regional de Criadores de Toiros de Tourada à Corda, reúne ganadarias com origem em diversas ilhas dos Açores, foi fundada a 2 de Junho de 2000 e a sua constituição foi publicada no Jornal Oficial III Série nº12 de 30-06-2000. Tem atualmente, 16 ganadarias inscritas, 12 da ilha Terceira, três da ilha de São Jorge e uma da ilha da Graciosa Os principais objetivos da ARCTTT são: a promoção da seleção de ganadarias de toiros da tourada à corda, estudar e adotar as medidas apropriadas aos problemas relacionados com a produção e comercialização dos toiros à corda, prestar uma eficiente colaboração, quer no aspeto técnico como consultivo, participar na redação e cumprimento dos regulamentos que digam respeito a assuntos relacionados com a tourada à corda.

Julho de 2020


Tourada à Corda nos Açores

Fátima Albino

Ganadeira, Professora e Deputada regional pelo PS

Hoje é dia de Tourada à Corda na freguesia. Já na véspera as donas de casa começaram a temperar a comida e a confecionar a que se pode preparar com antecedência, pois bem cedinho vão acabar de derreter uns torresmos de cabinho, assar a carne que já estava temperada, fazer uns pasteis de bacalhau, fritar linguiça, morcela para acompanhar o pão de milho, uns rissóis e uma galinha frita que são a preferência de alguns membros da família. E nos dias de hoje aparecem as pizzas e os doces, desde os brownies a outras americanices, que perduram nos hábitos dos terceirenses.

A noite já não foi bem dormida, pois os mais novos estavam inquietos com as expectativas de irem ao mato brincar com umas vaquinhas, jogar à bola e conviver com os parentes e amigos, que nesse dia se juntam e fazem um piquenique misturando o que cada um trás. Mais um momento de partilha tão inerente aos terceirenses e ao seu modo de estar.

Por vezes são os mordomos que trazem a comida e a distribuem pelos habitantes da sua freguesia, outras é a população que sente a responsabilidade e o gosto de confraternizar e se prepara para que nada falte. É verdade que o mais incauto com fome não fica, pois há Tascas ambulantes que estão sempre preparadas com bifanas, ovos cozidos e bebida em muita abundância. Também é verdade que qualquer terceirense sabe que tudo tem um custo e por isso contribuem sempre.

É um dia de alegria, vão caminhando para o mato e já o ganadeiro fechou as vacas que vão ser experimentadas no tentadeiro. Cada um vai tentar ser o mais valente e corajoso possível.

Depois do convívio e de admirar as peripécias que ocorreram, de barriguinha cheia, vão em fila ver enjaular os toiros para a tourada, enfeitar os carros com hortências e dirigirem-se em cortejo animado à freguesia.

Quando as gaiolas (no Continente chamam-lhes jaulas) chegam o pessoal vai dar uma espreitadela para admirar os toiros que estão lá dentro.

Quando a população já está arrumada, com as varandas cheias de moças bonitas, velhas e novas com roupa colorida e os homens a encherem o caminho, conversando e colorindo o arraial, houve-se o foguete de um estrondo avisando que o toiro vai sair.

Os pastores agarram firme a corda. São gente destemida e apaixonada pela tourada à corda, que dedica o seu tempo disponível a acompanhar a sua ganadaria de eleição e a conhecer todo o gado bravo e que sabe descrever os acontecimentos importantes dos toiros famosos ou as peripécias que ocorrem no mato quando vão fechar os toiros, desparasitar, ferrar ou fazer mudas de pastos.

Na generalidade vestem calças de cotim cinzentas, camisola branca com o ferro da ganadaria que representam, e na cabeça levam um chapéu preto de abas largas, estilo mazantino, calçando sapatilhas que os vão ajudar a percorrer o arraial e aguentar o toiro na sua corrida desenfreada.

Agarrados a uma corda de cerca de 90 metros, cinco pastores situam-se a meio da mesma, o da frente é o mestre e o último o rodador, aquele que consegue retirar a corda de baixo dos pés dos pastores para evitar que alguém possa cair. Os outros cinco pastores estão na extremidade oposta da corda e do toiro. São eles que o vão segurar, dando a pancada quando o toiro vai em corrida e eles têm de travá-lo e fazer com que nunca saia do arraial, que é marcado por três riscos pintados no chão.

Os capinhas estão prontos perto da gaiola de onde vai sair o toiro amarrado ao pescoço por uma corda e embolado com duas bolas de metal, para não ferir ninguém.

Quando a porta da gaiola se abre o toiro recua, sai e quando se vira dá de caras com o capinha, que cheio de valentia e sem medo o espera e capeia com um pano, uma capa, um casaco ou um guarda-sol, por vezes com mais do que um destes objetos, que cita o toiro e este investe repetidamente fazendo vibrar a plateia. Por vezes o toiro é chamado a uma porta ou a um muro, proporcionando um reboliço e algumas corridas, cambrelas e caidelas inesperadas.

São quatro os animais bravos que vêm a uma tourada à corda. São toureados por espontâneos, sem que existam regras predestinadas senão o respeito pelo toiro, o causador de todo este espetáculo.

O que mais atrai os aficionados e amantes da Festa Brava é o comportamento dos toiros bravos, a sua vontade inquebrável de investir, o modo como acompanham o vulto até o ver desaparecer, o repetir a investida sempre que é solicitada, o nunca virar costas às incitações dos capinhas, que são gente afoita e sem medo que os chamam e provocam essas investidas que proporcionam ao toiro a oportunidade de brilhar. Este ano já vimos Capinhas evidenciando-se pela ajuda que dão ao toiro e como proporcionam momentos dignos de relembrar com emoção. Estes eventos são acontecimentos onde os sentimentos e a adrenalina se vivem em cada momento.

A Tourada à Corda é promovida pelos Mordomos das Festas do Espírito Santo ou dos Padroeiros de cada freguesia. Fazem um trabalho digno da comunidade de servir o povo e de proporcionar festejos que atraiam a população das comunidades vizinhas.

Estes eventos acontecem de 1 de maio a 15 de outubro de cada ano, são festejos que ajudam a melhorar as relações humanas, socioculturais e económicas de quem vive numa ilha, desenvolvem a arte de bem receber e a vontade de interagir, assim como tornam o povo Terceirense festeiro e alegre, mas nunca adiando os seus trabalhos, pois nunca se faltou aos trabalhos ou deixou de se proceder à ordenha, de semear os milhos, de cultivar as terras.

Setembro de 2018


Tauromaquia no Arquipélago dos Açores

Sónia Ferreira

Presidente da Associação Regional de Criadores de Toiros de Tourada à Corda

A Tauromaquia é uma das mais ancestrais culturas dos Açores e a sua introdução ou origem perde-se na memória dos tempos. Trazido pelos primeiros colonos, o gado bovino foi inicialmente criado em regime de liberdade e abandono no interior dos matos e criações, pelo que adquiriu características bravias.

Depois, o cruzamento e a seleção, e ainda a forma especial como esse gado passou a ser criado, apuraram o toiro que hoje é lidado nas praças e nos arraiais da Ilha Terceira.

É sabido que em tempos idos se realizaram corridas de toiros em praticamente todas as outras ilhas. Então, porque só na Ilha Terceira a Festa Brava prosperou e voltou a expandir-se para outras Ilhas do Grupo Central a partir de meados do séc. XX?

Para alguns autores, a persistência de Corridas de Toiros e Touradas só na Ilha Terceira explica-se pela abundância de gado bravio no interior da ilha. Para outros, revela claramente a origem espanhola de tais diversões, consequência do longo período de ocupação castelhana da Ilha Terceira. Contudo, uma versão mais verosímil refere que o espetáculo dos toiros foi antigamente diversão de nobres e fidalgos. Sendo em Angra, centro de aristocracia, que se situava a Corte, natural terá sido que a Festa Brava apenas tivesse sobrevivido na Ilha Terceira, influenciando outras ilhas já a partir do século XX.

Aquando da invasão filipina da Ilha Terceira, a resistência heroica dos terceirenses – liderada por Brianda Pereira – na famosa Batalha da Salga, contou com a largada de gado bravio dos matos da ilha, que à desfilhada investiu e ajudou a derrotar as tropas castelhanas.

A primeira citação de tourada à corda somente aparece em 1622 aquando das jubilosas celebrações em Angra, pela canonização de S. Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola. Nessas celebrações, organizadas pela Câmara da Cidade, correram-se toiros de corda pelas ruas da urbe, várias em número, a que não faltou muita gente que as soube festejar… Hoje em dia a Tauromaquia, dada a sua grandiosa e inequívoca transcendência histórica, cultural, filosófica, turística, económica, política e social, é uma manifestação incontornável.

Como elemento central da Festa Brava surge o animal mais amado e mais idolatrado pelas nossas gentes: o Toiro Bravo!...

É pois neste contexto que a Terceira e os Açores se têm vindo a afirmar como uma das mais aficionadas terras de Portugal, com um povo que ama o Toiro e faz da sua admiração um verdadeiro culto.

Durante muitos anos exclusiva da Terceira, a Tourada à Corda celebra-se hoje em quase todas as Ilhas dos Açores, em particular no Grupo Central.

Desde muito cedo as gentes tomam contacto com o Toiro. As crianças, no colo dos pais veem passar os toiros à porta das suas casas!...

Por isso, a Tourada à Corda é a maior manifestação popular dos Açores, enchendo os arraiais de várias ilhas, especialmente da Terceira, S. Jorge, Graciosa e Pico, de 1 de Maio a 15 de Outubro de cada ano, na sua vivência indescritível com muito colorido, gente bonita, capinhas, vendedores, pastores e fogo pr’ó ar!...

Na vertente da Tauromaquia mais erudita, as Corridas formais em Praça de Toiros, encontram-se reminiscências com cerca de 200 anos, existindo muitas Praças ao longo da História, chegando a funcionar em simultâneo, em Angra do Heroísmo – Cidade Património da Humanidade – as Praças de S. João (onde atualmente temos o Centro Cultural e de Congressos) e do Espírito Santo (à Pereira, perto do Alto da Memória).

Atualmente existem Praças nas Ilhas Terceira, S. Jorge e Graciosa, sendo que, no caso da Praça de Toiros Ilha Terceira, se tem assistido a um constante esforço de evolução no sentido de aproximar a qualidade dos seus espetáculos aos níveis de excelência dos grandes centros da Tauromaquia mundial.


http://www.artazores.com/fotos/1232635466.pdf (adaptado)


Touradas à corda representam 2,47% do PIB dos Açores

Lusa / AO online

O dinheiro envolvido na realização das touradas à corda na ilha Terceira, nos Açores, corresponde a 2,47% do Produto Interno Bruto (PIB) da região e a 11,4% do PIB da ilha, segundo um estudo do economista Domingos Borges.

"De acordo com a estimativa mais recente, a totalidade das touradas à corda em 2015 foi de 226 e corresponderam a 2,47% do total do PIB da região", salientou, em declarações à agência Lusa.

Estes espetáculos tauromáquicos não são pagos pelo público, mas têm um forte peso na economia da ilha, como comprova o estudo de Domingos Borges, que aponta para valores na ordem dos 91,3 milhões de euros, em 2015.

O economista contabilizou os custos diretos das touradas à corda, como o pagamento das touradas aos ganadeiros e as licenças para a sua realização, mas também os custos indiretos, como a manutenção das moradias que se situam no percurso onde passa a tourada, a deslocação da população para assistir às manifestações ou a venda de DVD e recordações.

Outro dos custos indiretos prende-se com a preparação para a tourada à corda, que envolve a apresentação de uma mesa com comida e bebida, para oferecer a amigos e familiares, e que é conhecida na ilha como “quinto touro”, já que se correm quatro touros nas ruas e no final os amigos e familiares são convidados a ir à mesa.


(Retirado de https://www.acorianooriental.pt/noticia/touradas-a-corda-representam-2-47-do-pib-dos-acores)


Legislação Relativa à Tourada à Corda

Sónia Ferreira

Presidente da Associação Regional de Criadores de Toiros de Tourada à Corda

A tourada à corda é regulamentada pelo Decreto Legislativo Regional nº 5/2018/A, de 11 de maio, que assegura que este espetáculo de cariz popular funcione de forma uniforme e correta, e para além disso, assegure a saúde e bem-estar animal, assim como a segurança da população, aspetos visados neste conjunto de normas.


O Regulamento das Touradas à Corda na Região Autónoma dos Açores (2003)

Victor Jorge Ribeiro dos Santos

Director Regional de Organização e Administração Pública

  • Enquadramento Histórico

Enraizado no tempo, o uso da corrida de touros à corda nos Açores (em particular na ilha Terceira), constitui a mais antiga tradição de folguedo popular no arquipélago. Remonta a 1622 a primeira citação que se conhece da realização de uma tourada à corda, sendo de presumir que o uso dos touros no folguedo popular ocorresse muito antes daquela data, só assim se justificando que fosse a Câmara de Angra a entidade organizadora dos eventos de 1622, enquadrados nos jubilosos festejos que celebravam a canonização de São Francisco Xavier e Santo Inácio de Loiola.

A tourada à corda foi, através dos tempos, moldada por normas e regras de cariz rigorosamente popular, de que sobressaem os sinais correspondentes aos limites do espetáculo (riscos no chão), à largada e recolha do touro (foguetes), à armação dos palanques e à atuação dos capinhas (improvisados toureiros que, no decorrer dos tempos, recorreram aos mais diversos instrumentos e movimentos para sua defesa e execução de sortes, desde o bordão enconteirado, passando pelo guarda-sol, a varinha, a samarra, o pano em forma de muleta, até ao cite a descoberto, rodopiando para vencer o piton).

Todos estes ingredientes, servidos pelo ambiente típico das touradas, transformaram-na num verdadeiro cartaz de interesse regional e atração turística, tão importante quanto as largadas, para os espanhóis, e os folguedos com o uso dos touros da Camarga, para os franceses.

Dada a riqueza do costume, o seu interesse etnográfico e etnológico e o seu valor como cartaz turístico da ilha Terceira e dos Açores, por forma a evitar adulterações que o desvirtuassem e a garantir que se preservasse o rigor do traje e dos costumes populares, criados em especial pelas escolas de pastores que existiram nos séculos XVIII, XIX e princípios do século XX, particularmente na freguesia da Terra-Chã, ilha Terceira, servindo as ganadarias daquele tempo, tornou-se imperiosa a criação de regras escritas que, balizando a atuação dos diversos intervenientes, permitisse a compatibilização, complexa mas indispensável, de dois objetivos: de um lado, a preservação desses aspetos e práticas fortemente tradicionais ligados às touradas à corda, profundamente enraizadas na cultura popular; de outro lado, a dinâmica desta festa, que impõe a adequação de algumas das práticas e das regras fixadas às exigências acuais, de que são exemplo os imprescindíveis avanços consagrados em matéria de sanidade animal.


  • O Bovino de Raça Brava da Ilha Terceira

Durante muitos séculos existiu na Europa um bovino selvagem que foi o precursor de muitas das raças de bovinos domésticos europeus, denominado auroque. A origem do auroque parece situar-se nas florestas com clareiras da Índia, havendo posteriormente migrado para a Europa e Norte de África. Este animal, com cerca de 260 a 310 cm de comprimento, altura de 180 cm e peso de 800 a 1000 Kg (com as fêmeas a apresentarem dimensões gerais inferiores em um quarto às dos machos), apresentava pelagem castanha escura, com listra clara ao longo do dorso (sendo as fêmeas e crias de cor mais clara). A sua extinção acompanhou o percurso da sua migração, ou seja, deu-se primeiro no Oriente e só depois no Ocidente, tendo aqui ocorrido no primeiro quartel do século XVII.

Hoje são considerados como seus mais diretos representantes os touros bravos de Portugal, Espanha e Sul de França, o bovino da Córsega, o bovino das montanhas escocesas e o bovino das estepes húngaras.

Considerando a data do descobrimento dos Açores, a que se seguiu a introdução dos primeiros animais, designadamente bovinos, com o que se preparou o subsequente povoamento das ilhas, é de crer que o touro bravo da Ilha Terceira, bovino de menor compleição do que os seus congéneres de Portugal continental e Espanha, corresponda, de muito perto, ao primitivo auroque, do qual é digno descendente.

O touro bravo vive plenamente adaptado à paisagem vulcânica agreste do interior da Ilha Terceira. A sua menor compleição dever-se-á a tal habitat natural – o terreno vulcânico mais pedregoso e disponibilizando menores recursos de alimentação, impróprio para a criação de gado bovino de outras raças. Durante séculos sujeito a intempéries, a fracos recursos forrageiros e a uma menor intervenção humana, o touro da Ilha Terceira sofreu essencialmente a ação evolutiva da natureza, ao contrário do acontecido com os animais da península ibérica.

Surgiu assim um animal que, não servindo para as lides de praça, serve e dá alma à tourada à corda. É, aliás, assumido pela população em geral que o touro do continente não permite lides de rua com garra e tão vistosas como a do touro miúdo com origem nos primeiros animais trazidos pelos povoadores destas ilhas.

Por esse motivo, por ser uma variante da raça de bovino bravo que se pode considerar autóctone dos Açores (e, em particular, da Ilha Terceira), existem motivos de sobra para que o açoriano se orgulhe do seu touro bravo que, pela sua natureza, corresponde ao bovino ideal para participar numa manifestação de cariz tão popular como é a tourada à corda. Esta última, demais a mais, no estabelecimento da sua organização e respetiva evolução, teve que considerar a natureza do seu interveniente mor – o touro.

O Regulamento das Touradas à Corda na Região Autónoma dos Açores, nas suas diversas versões ao longo dos últimos dez anos, mais não é do que a extensão legal do princípio expresso no parágrafo anterior. Se a festa evoluiu considerando a permanente disponibilização de novos recursos ao serviço de quem habita estas ilhas, o regulamento acompanhou essa evolução, bem como as novas sensibilidades de uma sociedade que, como a nossa, é parte integrante da Europa por via administrativa, económica, política, social e cultural.

Exemplo da evolução da festa, por via dessa disponibilização de novos recursos, foi o início do transporte dos touros para o local da festa em gaiolas instaladas num camião, em oposição ao encaminhamento pedestre do touro, pastores e seus cães, desde o pasto até ao terreiro da freguesia, palco da festa, como era uso ainda na primeira metade do século XX. Exemplos do acompanhamento normativo da dinâmica de alteração da tradição da tourada à corda, podem ainda encontrar-se nos critérios cada vez mais rigorosos de proteção ao touro na sua dignidade como animal nobre e no cumprimento dos nossos deveres, bem como as obrigações de bem-estar animal impostas pela União Europeia. Sem esquecer que tais desígnios tiveram inicialmente origem em reclamações dos próprios aficionados. Daí a obrigação da observância de oito dias de descanso, durante os quais o animal não deve ser corrido; a obrigação de a ganadaria possuir um médico veterinário assistente que vigie a sanidade, o bem-estar e comprove a capacidade de lide dos touros; a obrigação de o ganadeiro cuidar para que os touros não sejam enjaulados mais do que duas horas antes do início da festa; a obrigação de providenciar por local o mais sombreado possível na colocação das gaiolas no local da festa; a interdição ao público em geral de importunar os animais enquanto enjaulados; a interdição de serem corridos touros estropiados; a obrigação de transportar de imediato os touros de volta à pastagem mal ocorra o termo da tourada; a obrigação de os promotores das festas providenciarem por vedações e abrigos que não causem ferimentos nem ao público, nem aos animais; e, entre outros deveres, a obrigação do licenciamento e fiscalização oficiais das touradas à corda.

O acima mencionado, por si só, justifica plenamente a existência do Regulamento das Touradas à Corda, embora este verse outros aspetos que igualmente fazem parte da festa, no intuito de preservar o que é verdadeiramente de tradição. Pode, pois, considerar-se existir uma obrigação moral por parte da população açoriana, com relevo para os terceirenses, graciosenses e jorgenses, de conhecimento das regras que orientam o decurso de uma tourada, pois é a nós que compete defender esta manifestação popular tão genuína e rara, mais valia como nossa identificação perante uma Europa, e porque não afirmá-lo, perante um mundo em que todos os povos cada vez mais afirmam a sua identidade por referência a especificidades culturais no contexto das respetivas civilizações.


O toiro terceirense no adagiário e na linguagem popular

Victor Rui Dores

Professor

Tenho amigos faialenses que me olham com desconfiança e desdém quando lhes digo que sou aficionado da festa brava…

Bem sei que, nestes tempos de acelerada massificação e de preocupante globalização, gostar de toiros não está na moda. Mas fico na minha. Os 10 anos que vivi na festiva ilha Terceira despertaram-me para o espetáculo taurino e, hoje, gosto incondicionalmente de toiros. Descubro e aprecio, numa tourada de praça, valores artísticos, estéticos e emocionais. E divirto-me, à brava, com a festa lúdica da tourada à corda. Vou aos toiros, na Terceira e na minha Graciosa ilha, pela mesma razão que assisto a uma peça de teatro, a um jogo de futebol ou a um concerto musical: quero viver emoções!

Falo aos meus amigos faialenses na mola económica que representa, para a Terceira, quase 300 touradas à corda anuais, de Maio a Outubro: custos dos toiros, os petiscos, o cervejame… (é impressionante as toneladas de cerveja que se bebem no decorrer de uma tourada). É dinheiro que fica na Terceira. E depois há o convívio, o reencontro dos amigos, os namoricos (tempos houve em que a tourada funcionava como preludio de casamento), a dádiva, a partilha, os afetos – tudo coisas que não têm preço.

Bom, então se falo das sortes das touradas de praça, é certo e sabido ouvir dos meus amigos faialenses a estafada conversa do coitadinho do toiro que está a sangrar… Digo-lhes que o toiro nasceu para aquilo, tal como a vaca nasceu para nos dar leite e bifes… falo-lhes na bravura e na nobreza do toiro, na energia da arrancada e na lealdade do ataque… Também lhes digo que a aficion na Terceira, contrariamente ao que acontece noutras paragens continentais, está essencialmente centrada no toiro e não propriamente nos artistas tauromáquicos. Isto é, há, naquela ilha, uma cultura do toiro. Por isso qualquer toureiro, cavaleiro ou forcado que à Terceira venha tourear sabe, de antemão, que vai atuar para gente que percebe de toiros, e não para turistas. Por isso sabe que, aqui, os aplausos ou os apupos têm sempre uma razão de ser.

Da heroica coragem dos forcados, da sua valentia, arrojo e companheirismo é que então os meus amigos faialenses nada querem saber. E a conclusão a que chego é que não se pode gostar de toiros se não se viveu uma tradição de toiros.

(…)

Dizem-nos os documentos que, logo após o achamento destas ilhas, o infante D. Henrique mandou nelas lançar gado. Quando, posteriormente, se iniciou o povoamento dos Açores, esse gado não só se havia multiplicado em grande número, como também se havia tornado bravo e bravio pelo isolamento em que durante anos se conservara.

Por conseguinte, e contrariamente ao que já vi escrito, não foram os espanhóis, depois de terem tomado a Terceira, a partir de 1582, que introduziram o gabo bravo nesta ilha. Teriam, quanto muito, promovido a importação de algumas espécies destinadas a melhorar os sementais, como aliás, ainda hoje acontece, para apuramento das qualidades exigidas ao “toiro de lide”.

Pro conseguinte, já havia gabo bravo na Terceira antes de virem para cá os “nuestros hermanos” (que nesta ilha permaneceram 60 anos, é bom não esquecer). De resto, existindo em toda a Península Ibérica havia já mais de meio milénio, as lides com gado bravo vieram parar aos arquipélagos da Madeira e dos Açores, a partir do povoamento dos mesmos. Lides com toiros não significava touradas, tal como hoje as concebemos. Segundo Gaspar Frutuoso (Saudades da Terra, Livro IV, capitulo LIV, Instituto Cultural de Ponta Delgada), tais lides serviam para divertir o povo antes do abate dos toiros.

Da quantidade de gado existente em todas as ilhas nos dão conta os nossos mais antigos cronistas, estimando Frutuoso em 100.000 o número de cabeças existentes na Terceira ao tempo da dominação filipina, e sempre nesta ilha se conservou a supremacia no respeitante à pecuária.

Se dermos crédito a Frederico Lopes (João Ilhéu), foi talvez por esta razão e, pelo facto de no povoamento da Terceira entrarem em maior numero gentes da Estremadura e Alentejo, que o gosto pelas touradas aqui se manteve até aos nossos dias, tendo desaparecido por completo nas restantes, a partir do seculo XVIII. (Ilha Terceira – Notas Etnográficas, capitulo VIII, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1979). Mas há uma outra explicação, quiçá de maior peso, segundo Manuel Machado Costa, citado por Pedro de Merelim (Tauromaquia Terceirense, Delegação de Turismo de Angra do Heroísmo 1986): outrora, o espetáculo de toiros foi, por excelência, diversão de nobres e fidalgos. Ora, sendo então Angra a Corte, centro da aristocracia insular, teria sido graças a este facto que a festa brava se manteve na Ilha Terceira.


Revista Festa na Ilha, 2011


Frases Soltas da Nossa Gente

Francisco Maduro Dias

Historiador

Ver um grupo de touros, ao longe, na paisagem, sobretudo naquelas montanhas mais escalavradas que temos no interior da Terceira é sempre uma imagem de que gostamos, que nos consola, que nos faz sentir identificados, localizados e estabilizados. Existe um espaço, existe vida e um conjunto de atitudes, uma cultura, onde tudo se complementa…

Eduardo Dias

Professor Auxiliar Universidade dos Açores – GEVA

O touro desenvolveu ao longo dos tempos, nos terceirenses, uma perceção da importância dos recursos naturais que de outra maneira poderia não existir de forma tão expressiva nas pessoas. O touro pode ter sido o catalisador de uma cultura mais ligada à natureza, fornecendo percursos de conciliação entre valores culturais e valores naturais no uso de recursos sustentáveis.

Arnaldo Ourique

Autor do Livro “Taurinidade Açoriana – Da Legislação sobre Arte Taurina, Touros e Touradas nos Açores”

Descoberta a Terceira em 1427 ou 1432, no ano de 1451 atracam à ilha as primeiras naus que deram início ao seu povoamento. Nestas e nas seguintes naus veio uma fidalguia lusitana vocacionada para as artes taurinas e um povo inteiro ligado ao culto do Espírito Santo. Por isso o Toiro, a Tourada à Corda e a Corrida de Praça foram introduzidos durante o povoamento da ilha que finalizou em 1534, altura em que Angra é cidade, a Praia e S. Sebastião são vilas há muito, e o povo terceirense é reconhecido pela sua vocação especial para as artes taurinas por «costume e compromisso antigos».

Artur Machado

Professor Universitário – Universidade dos Açores
Responsável pelo Centro de Biotecnologia dos Açores

Quase tudo o que é hoje o interior da Terceira deve-se ao touro bravo. A preservação destes animais é fundamental na proteção da natureza e ao mesmo tempo ajuda-nos a definir a nossa identidade.

João Pedro Barreiros

Doutor em Biologia/Ecologia Animal com Agregação em Comportamento Animal – Universidade dos Açores

Há uma relação importante entre os lugares onde são criados touros bravos e os ecossistemas naturais na ilha Terceira. As ganadarias acabam por ser reservas biológicas onde existe todo o interesse em estudar e monitorizar a vida selvagem que ocorre nesses espaços.

José Parreira

Arquiteto e Aficionado

Na relação que o Homem tem com o ambiente na ilha Terceira o touro é um elemento fundamental reafirmando a sua importância como garante da proteção da natureza. Preservar este animal nesta ilha é também garantir a preservação de um determinado ecossistema ambiental onde ele está integrado.

Arlindo Teles

Presidente da Assembleia da Tertúlia Tauromáquica Terceirense

O culto ao touro dá-se na ilha Terceira como em mais nenhum lugar do mundo e essa ligação condicionou a paisagem da ilha e protegeu a biodiversidade. Sem a presença do touro a Terceira já teria perdido uma grande parte da sua riqueza natural, como aconteceu nas restantes ilhas dos Açores.

(Retirado de http://siaram.azores.gov.pt/patrimonio-cultural/touro-bravo/Touro-Bravo.pdf)






Tourada Corda Imagem3.jpg

Estando hoje disseminada por várias ilhas, foi na Terceira (Merelim, 1986) que a tourada à corda Açoriana nasceu e é lá que tem maior expressão. Em certos anos chegam a realizar-se perto de três centenas entre maio e outubro. O ritual começa pela manhã. Os habitantes – do local em festa, com familiares emigrantes e amigos, dirigem-se ao “mato”, local no interior da ilha que permanece em estado quase selvagem e onde pastam os toiros bravos. Vão para assistir à recolha e enjaulamento dos toiros, quatro em cada “corda”. O ganadero oferece uma ou duas bezerras, que solta na praça de tentas da ganadaria, para diversão das pessoas. Depois almoçam e convivem até chegar a hora, ao princípio da tarde, das jaulas (ou “gaiolas”, como lá lhes chamam) com os toiros se deslocarem para o local da tourada. Toda a gente enfeita os veículos em que se deslocaram com hortências e acompanha os animais em cortejo.

O local da tourada é na rua. Nela são pintados dois riscos no chão (as raias) separados cinco metros, um par em cada extremo e outros nalgumas das transversais. Os extremos distam um do outro cerca de um quilómetro. Os quatro toiros são soltos das jaulas, um de cada vez, para uma “lide” cujo tempo máximo está regulado e pouco excede, geralmente, os 20 minutos. Um toiro corrido só pode voltar a sê-lo passado um determinado número de semanas, de modo a salvaguardar o seu poder e integridade. É que os toiros, em função do seu comportamento, são objeto de uma valorização específica, e até de uma identificação própria, sendo conhecidos pelo nome próprio. Essa valorização traduz-se num preço determinado, sendo mais elevado o dos toiros com mais provas dadas. São esses os mais procurados, porque se consideram mais bravos. Por isso podem fazer várias dezenas de cordas ao longo da sua vida, tornando-se verdadeiras celebridades, cuja morte dá direito a notícia grande e remissão para a capa dos jornais local.

Os toiros saem à rua, após o aviso de um foguete, embolados por “embolas” de couro ou de metal, presos por uma corda comprida e resistente atada ao pescoço, que é manejada pelos “pastores”, oito homens da confiança do ganadero, trajados a rigor. A sua missão explícita é impedir que os toiros ultrapassem as raias pintadas nos extremos da rua, já que todos os estragos causados pelo animal para lá das raias são custeados pelo ganadero. Implicitamente têm também a função de controlar o animal quando colhe alguém ou destrói a proteção de alguma casa ou quintal, ou, pelo contrário, dar-lhe maior liberdade quando persegue um “americano” da Base das Lages ou um “capinha” adepto de um outro ganadero.

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Os capinhas são jovens particularmente aptos para “brincar” com os toiros, burlando-os com guarda-chuvas ou com mantas da TAP, ou então recortando-os, isto é, passando em linhas curva bastante cerrada junto à cabeça do animal, de modo a fazê-lo investir sem contudo colher o “recortador”. Naturalmente, e embora muita gente ocupe as ruas à espera de uma fuga mais ou menos desordenada quando o toiro investe na direção da multidão, são os “capinhas” que mais fazem sobressair as qualidades e defeitos – basicamente, maior ou menor bravura – dos toiros, ajudando à sua valorização.

Acontece que, como toda a gente na ilha, cada um é adepto ferrenho de uma das oito ganadarias existentes na Terceira. Assim, os “capinhas” tentarão sempre destapar as qualidades dos toiros se eles pertencem à sua ganadaria de eleição, ou mostrar eventuais defeitos no caso contrário. Manobrando a corda os “pastores” procurarão ajudar os primeiros, mas nunca os segundos.

Alguns dos habitantes de uma localidade podem não ser adeptos da ganadaria escolhida pela Comissão de Festas, caso em que tentarão oferecer uma corda com toiros da sua predileção. É este sistema competitivo que permite neutralizar as tensões resultantes de assimetrias e rivalidades sociais. Numa comunidade marcada pela ideologia igualitarista comum entre os camponeses, a valorização diferenciada de cada tourada, estabelecendo uma hierarquia implícita entre os promotores, constitui um mecanismo de compensação simbólica da realidade da vida, que contradiz essa ideologia igualitária.

Mas a “tourada à corda” é muito mais do que isso. É o que o antropólogo e sociólogo francês Marcel Mauss chamou “fenómeno social total”, isto é, a festa em que todos os elementos essenciais das estruturas sociais da comunidade terceirense são postos em evidência. É nas cordas que as pessoas se encontram, fazem negócios, iniciam namoros e recebem os amigos – bem como forasteiros, dados a bem receber como são os divertidos e simpáticos terceirenses – para que comam e bebam em suas casas, o chamado “quinto toiro”, porque a Festa é para celebrar a vida em comunhão.


PROGRAMAS/CARTAZES 2019


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REGISTOS VIDEOGRÁFICOS


Tourada à Corda (geral)


Ilha Terceira - Angra do Heroísmo


Ilha Terceira - Vila da Praia da Vitória



BIBLIOGRAFIA CITADA

  • Capucha, Luís e Marco Gomes (2016). "Tauromaquia, Cultura com Sabor de Festa". In LMEC - CRIA (Ed.), Congresso Ibero Americano Património, suas Matérias e Imatérias, Lisboa.
  • Merelim, Pero de (1986). Tauromaquia Terceirense. Angra do Heroísmo: Delegação de Turismo de Angra do Heroísmo.