Touradas à Vara Larga


TOURADA À VARA LARGA

Marco Gomes
Professor / Diretor de Corrida

Em pleno Alentejo, com a chegada do verão, as festas populares de carater religioso adquirem o seu esplendor.

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O rebentar do foguete ao romper da manhã, na chamada alvorada, é o mote para o início dos festejos em cada lugarejo, aldeia, vila ou cidade alentejana. O foguete continua a ser importante, pois ele é o meio de comunicação da organização das festas com o povo, ele ecoa no céu azul alentejano marcando o início da procissão e da tourada à vara larga, que por deformação sintática tem evoluído em alguns locais como garraiada, ainda que de forma errada porque não se lidam garraios, mas sim cinco vacas e um toiro, ou seis vacas.

Ao fim do dia, ou pela noite, no redondel de alvenaria, de grades de ferro, de reboques de trator, ou como ainda se usa, embora raro, com carroças e varolas, o povo acode para ver os rapazes mais foitos da terra mostrarem a sua destreza perante a ferocidade das reses, umas vezes cedidas gentilmente por algum ganadeiro local, outras vezes alugadas a um criador de gado bravo.

As raparigas usam as suas roupas novas compradas para a festa local, e é ali no redondel que muitas vezes se iniciam namoricos, alguns dos quais chegam ao casamento. O conclave aprecia as faenas dos jovens moços na passagem pela cara da vaca, fazendo recortes, até a vaca investir, e depois, a mando de um dos elementos da organização, toca a trompete para agarrar a vaca. Esta tarefa de agarrar a vaca ou pegá-la constitui um esboço do que é um grupo de forcados. Geralmente oito indivíduos do sexo masculino perfilam-se de frente para a vaca, sendo o primeiro elemento designado o forcado da cara, depois o primeiro ajuda, depois dois elementos coexistindo lateralmente são os segundas ajudas, o quinto elemento o rabejador e os restantes as terceiras ajudas. Esta formação “formal” esvai-se se a corpulência da vaca for grande, ou se tratar de um toiro ou novilho, caso em que vão muitos mais rapazes, chegando a ser dez ou doze, mesmo que alguns após a investida da rés comecem a fugir até mais não poderem.

Quando se trata de reses de menor porte é muito frequente ver jovens adolescentes a imitarem o que os mais velhos fazem, quer em passagens na cara da rês, que no consumar das pegas, mesmo que o façam em sexto, sétimo ou oitavo lugar.

Muitas vezes, quando a rês está imobilizada, alguns homens pegam nos seus filhos de tenra idade e ao colo, ou pela mão, levam-nos a tocar na pele do animal, seguindo um ritual cretense propiciador de virilidade e saúde, qualidades a que é associado o touro bravo.

Consumada a pega o rapaz da cara escuta as palmas e recebe algumas flores do público, agradecendo o mesmo no centro da arena. Quando as vacas são de maior porte, ou quando se trata de toiros, as pessoas colocam nas canas dos foguetes uma nota como forma de incentivo aos rapazes pegarem/agarrarem a vaca, ou o toiro. Quando o fazem, no final recolhem o dinheiro, e com esse mesmo dinheiro pagam cervejas, outras vezes o jantar para os colegas que os ajudaram a concretizar a pega.

Nestas festas também há animação musical, heterogénea na forma como se faz. Tem a sua remota ligação às bandas filarmónicas, que depois perderam um pouco o seu lugar para os gira-discos e cassetes/ acordeonistas, e ainda depois para uma vertente mais moderna e atual com os organistas e em alguns locais os “cavalinhos” (grupos compostos por sete a dez elementos que se juntam para formar uma pequena banda musical).

Terminada a saída a arena das reses, consumadas as conquistas das raparigas, a festa segue com comezanas e bebida, a que se segue a animação musical a cargo de um cantor, grupo musical ou organista.

As touradas à vara larga geralmente decorrem em todos os dias da festa. Na sexta-feira realiza-se pela noite, sábado e domingo pelo fim de tarde.




Em muitas outras localidades do Ribatejo e do Alentejo os festejos resumem-se à parte correspondente à largada, que nalguns locais, como no distrito de Portalegre, se designa “tourada à vara larga”. Em recintos vedados com tranqueiras e outros meios, são soltos, um a um, toiros embolados ou vacas que acometem contra as pessoas que arriscam pisar o interior do recinto, para logo escapar a resguardar-se perante a aproximação no animal. Apenas os jovens mais preparados ensaiam recortes e esboçam passes de toureio, perante o aplauso da multidão dos que assistem, habitantes das localidades em que a festa se realiza e muitos visitantes.


REGISTOS GRÁFICOS


Programas/Cartazes 2019



BIBLIOGRAFIA CITADA

  • Capucha, Luís e Marco Gomes (2016). "Tauromaquia, Cultura com Sabor de Festa". In LNEC - CRIA (Ed.), Congresso Ibero Americano Património, suas Matérias e Imatérias, Lisboa.