Campino


O CAMPINO E A SUA IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO DA TAUROMAQUIA

Rodrigo Rodrigues Pereira
Quadro da Companhia das Lezírias

Introdução

Não seria lógico abordar esta figura ribatejana – O Campino – sem primeiro fazer uma breve e resumida caracterização da região de Portugal que ainda hoje é o seu “solar”. É por aqui que vou seguir.

A região ribatejana corresponde, em geral, à província do Ribatejo, instituída pela reforma administrativa de 1936 e extinta com a entrada em vigor da nova Constituição de 1976. A criação desta nova província, banhada pelo rio que lhe dá nome – o Tejo – teve por base três distintas zonas que a diferenciavam geologicamente das existentes – o “bairro” ocupando quase a totalidade da margem direita, limitado a Noroeste pelas Beiras e Norte da Estremadura; a “charneca” ocupando a região oposta, limitada a Sudeste pela província do Alto Alentejo e o Sul da Estremadura; a “lezíria” estendendo-se ao longo das suas margens, ou ribas.

Era, num passado longínquo, constituída por zonas húmidas das suas margens e, em grande parte, pelos seus próprios estuários e dos seus afluentes, principalmente o rio Sorraia, constituindo as “lezírias”, e por zonas de composição arenosa que constituem as “charnecas” originando, pelas suas características de planura e condições edáficas, grandes latifúndios.

O “bairro”, composto por formações geológicas mais antigas, deu origem a terrenos argilosos ou argilo/calcários, mais acidentados topograficamente e com vocação mais agrícola (olival, vinha e cereais) e a propriedades de menor dimensão.

É sobre as duas primeiras que nos vamos debruçar (lezíria principalmente, mas também sobre a charneca) por ser nelas que se desenvolveu a criação de gado bravo.

O território ribatejano resulta, em larga medida, na sua parte mais emblemática, da conquista de terrenos aluviais, aos estuários dos rios e zonas limítrofes. No extremo sudoeste, abrangendo principalmente os concelhos de Vila Franca de Xira e de Benavente, mas também o de Azambuja, temos os solos “salgados” designados assim pela sua proximidade do mar. A nordeste, solos de grande fertilidade, constituídos pelos resíduos trazidos pelas cheias.

Deste conjunto resultou a “lezíria” vulgarmente designada por “campo”, palavra que sublinho por ser esta a origem do nome do protagonista deste texto, o “Campino”.

Nesta região ribatejana, com base na fertilidade dos seus solos, na iniciativa de grandes “lavradores” proprietários de vastas herdades, e nas migrações de mão-de-obra vindas, principalmente, das Beiras e Alentejo, surge uma grande expansão da lavoura: uma forte e diversificada atividade agrícola, e também uma pastorícia e silvo-pastorícia aproveitada pelas diversas espécies pecuárias – equinos, ovinos, caprinos, bovinos de trabalho e bovinos bravos de lide, estes últimos destinados às atividades tauromáquicas.

Neste quadro, a criação de gado bravo adquire um particular interesse, apaixonando todos os que o criam, ganhando relevo em grande parte das explorações pecuárias do Ribatejo, pelo simbolismo resultante das suas características únicas – o mistério da bravura. Mistério que se associa a uma relação tão enraizada entre as gentes ribatejanas e a Festa com reses bravas.

A criação e seleção de bovinos bravos, tratando-se de animais com um comportamento bravio quando em manada e muito agressivo quando isolados, exige um maneio difícil, rigoroso, com especificidades muito próprias (matéria tratada mais adiante) condições que propiciaram o aparecimento deste icónico e popular personagem ribatejano – o Campino – quase sempre montado a cavalo, seu amigo e companheiro.

Nos dias de hoje, o Campino também aparece em algumas explorações no Alentejo, para onde os criadores transferiram algumas ganaderias e onde surgiram outras, de casta brava obviamente.


Atividades, meios de trabalho e traje


Antes de entrar na descrição das principais atividades do Campino, tarefas laborais e não só, começo por fazer uma descrição e caracterização resumida das suas ferramentas de trabalho mais relevantes, para permitir uma melhor compreensão mais adiante.


Meios de trabalho


• O cavalo

O cavalo é, sem sombra de dúvida, o mais importante auxiliar do Campino nas suas tarefas de campo, tendo contribuído grandemente para a existência dessa singular figura.

Praticamente, todas as casas agrícolas das antigas províncias do Ribatejo, Alentejo e parte da Estremadura (margem sul do Tejo) que tinham atividade pecuária criavam também cavalos, normalmente de raça “Peninsular”, base do “Puro-Sangue Lusitano” de hoje. Era destas coudelarias que saíam os cavalos e éguas para o trabalho de campo (os machos castravam-se para suavizar o seu comportamento tornando-os mais sociáveis com pessoas e animais). Ainda hoje assim é. Estes animais deviam ser resistentes e bem submetidos ao seu cavaleiro, para fazer face à dureza e destreza exigidas pelas lides diárias.


• Os arreios

O arreio hoje utilizado é uma sela cujo modelo se diz ter origem na época da 1.ª guerra mundial, na qual terá sido usada pelos militares alemães, e depois modificada e adaptada. As principais caraterísticas são as seguintes:

Coxim de couro forte, com encurvamento algo profundo, limitado à frente e atrás com arções não muito altos e abas também em couro, mais maleável, tudo para permitir ao cavaleiro um bom acoplamento e liberdade de movimentos. É usada também uma pele de borrego que cobre todo o arreio superiormente para maior conforto. Sob a sela é usada uma manta de lã, que assenta sobre o dorso do animal e desta forma o protege de atritos que lhe possam infligir ferimentos vulgarmente chamados de “assentaduras”. Os estribos são em forma de caixa, de madeira resistente que encaixa numa estrutura metálica. São fechados à frente para melhor adaptação às agrestes invernias.

Estes arreios, à frente sobre as espáduas e atrás junto à garupa, são munidos de argolas e aselhas que permitem segurar acessórios de utilidade variada – alicates, uma porção de arame enrolado (reparação de vedações) alforge para comida, brincos de identificação animal, sebenta e lápis para apontamentos e ainda agasalhos – mantas, casaco e capa para a chuva.


• O jogo de cabrestos

O jogo de cabrestos, normalmente, é constituído por sete bovinos machos (mansos e castrados) quase sempre de raça mertolenga, originária da região alentejana de Mértola, como o próprio nome indica.

Entre as diversas raças autóctones, a mertolenga é a que, ao longo dos tempos, demonstrou maior aptidão como importante auxiliar dos campinos que, quando os animais são jovens, os treinam para o trabalho com rigor. Usam um chocalho de latão pendurado ao pescoço por uma coleira de cabedal, emitindo um som característico, denunciador eficaz da sua localização ou aproximação. Nas extremidades dos cornos é encaixada uma bola (peça metálica de latão de forma esférica) protegendo assim os animais (cavalos e reses bravas) e também as pessoas, de possíveis acidentes durante o trabalho.

A principal utilização destes animais consiste em colaborar na condução do gado bravo, guiando-o nas mais variadas ações de maneio, tendo que para isso estar bem submetidos. São também utilizados na recolha aos currais das reses lidadas durante as corridas de toiros. Participam ainda em cortejos e em provas de perícia de condução de “jogos de cabrestos” conduzidos por cinco campinos a cavalo, nas tradicionais festas das vilas ribatejanas, muito apreciadas entre as suas gentes e por muitos forasteiros.


• A vara ou pampilho e o cajado

A vara (termo mais usado) ou pampilho é um jovem rebento de eucalipto, cuja seleção dever ser cuidada para que seja suficientemente forte e não quebre à mínima resistência, sem, contudo, ser demasiado pesada para facilitar o seu manuseamento. O seu comprimento varia entre 250/270 cm de comprimento (braçada e meia, na gíria da campinagem) devendo ser o mais retilínea possível, e com entrenós o mais curtos possível para maior solidez. Na extremidade superior, menos espessa, encaixa uma ponteira metálica (15/20 cm de comprimento) bem areada e brilhante nos dias de festa, onde enrosca um curto “bico” bem afiado, com a finalidade de acossar e picar, caso necessário, nas provas de perícia (picarias à vara larga) e outras ações de maneio. Na extremidade anterior, naturalmente mais espessa, pode encaixar um pequeno copo de idêntico metal para proteção no contacto com o chão e embelezamento.

O cajado, pequena vara de marmeleiro (resistente e maleável com 160/170 cm de comprimento) agora de uso menor, mas muito usado pelos Campinos mais antigos. Sendo de manejamento mais fácil (mais curto e de menor peso) substituía a vara, com vantagem, em algumas tarefas de maneio.


O Traje de Campino


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Alegre e vistoso, usado apenas em dias de festa, romarias, dias de corrida de toiros e em outras ocasiões de maior cerimónia, é composto por:

- Camisa branca com colarinho ostentando um par de abotoaduras;

- Colete encarnado;

- Jaqueta azul escuro com gola de banda;

- Cinta de lã, vermelha, enrolada à cintura;

- Calção da cor da jaqueta;

- Meias brancas bordadas até por cima do joelho, a cobrir a extremidade inferior dos calções;

- Sapatos pretos, bem engraxados, de salto baixo com prateleira para suporte das esporas;

- Na cabeça, um barrete verde tendo na base uma orla/barra estreita e de cor vermelha. Na extremidade oposta, adorna-o uma pequena borla (adorno pendente feito de fios de lã) da mesma cor do barrete.

- Todos os botões visíveis são de superfície lisa, de um metal cromado refletindo bem a luz. Na jaqueta são colocados à frente, de ambos os lados, e nas mangas lateralmente, junto ao pulso. Nos calções, na lateral exterior um pouco acima do joelho. O emblemático colete encarnado abotoa na frente com botões idênticos e do lado esquerdo, à altura do peito, exibe ainda o desenho do ferro da ganaderia, bordado a preto ou num crachá em metal brilhante.

Nas suas fainas diárias de campo, o campino é mais informal e traja a seu gosto. Um simples boné é hábito de quase todos. Os mais antigos usavam calças e casaco curto, ambos de ganga azul ou cotim militar de tons acinzentados, camisa de cor clara abotoada no colarinho e com mangas compridas, também sempre abotoadas, botas de atanado ensebadas e barrete preto, de modelo idêntico ao verde, ou uma simples mitra do mesmo tecido.


Atividades/tarefas principais


A profissão de campino está organizada em torno de um conjunto de hierarquias, como sejam:

- Maioral ou moiral (na gíria do campo) – campino responsável por um grupo de animais. Exemplos: maioral das vacas, dos toiros ou das novilhas;

- Contra maioral – Ajudante ou substituto do maioral;

- Maioral real – O mais importante, que superentendia os restantes.

Acerca das atividades ou tarefas desempenhadas, acho relevante fazer, previamente, uma alusão à época anterior ao aparecimento das vedações de arame farpado, em que, para o mesmo fim, apenas havia valas com alguns metros de lâmina de água e pouco profundas, também conhecidas vulgarmente por abertas e que eram, por vezes, pouco eficazes.

Naquele tempo a vida dos campinos era bastante mais dura, pois passava quase todas as horas do dia, desde a aurora ao ocaso, montado no seu cavalo, guardando as manadas ao seu cuidado. A falta de vedações obrigava a frequentes, difíceis e arriscadas intervenções para separar (apartar) juntar e conduzir à origem, vacas ou toiros que fugiam para empostas alheias (vizinhas ou não) e aí se misturavam com outras manadas. Muitas das vezes recorriam à ajuda do “jogo de cabrestos”.

Nos rigorosos invernos, em tempo de cheias (enchentes das lezírias por transbordo dos rios) os campinos eram chamados a salvar o gado, conduzindo-o para zonas mais elevadas, o que faziam com o risco da sua própria vida.

Por norma, os campinos viviam, com as suas famílias, no campo em casas feitas de colmo de junco e palha, designadas por “palhotas ou palhoças” e apenas iam às vilas aos sábados à tarde com as famílias, transportados em grandes galeras rebocadas por cavalos ou muares, pertença do patrão, para se abastecerem de comida para toda a semana – pão e outros condutos conservados em salgadeiras.

A comida que levavam para o dia de trabalho era cozinhada pelas camponesas, suas mulheres, em fogareiros a petróleo ou simplesmente em fogueiras, quando havia lenha (ainda não havia eletricidade no campo). Assim, de madrugada, enchiam os seus alforges que carregavam à garupa do cavalo, onde também cabia uma porção de vinho. Nos dias de verão, nas horas de maior calor, a mulher ou outra camponesa, fazia de aguadeira e levava-lhe numa bilha de barro água fresca para beber.

Ao domingo de manhã, quando o trabalho deixava, era-lhes permitido ir à missa que se celebrava na Ermida mais próxima. Para o almoço, rancho melhorado – talvez uma galinha criada numa pequena capoeira junto à “palhoça”.

Era num cenário muitas vezes hostil e de pobreza que se desenrolava a vida dos campinos.

Nos dias de hoje, após vedações de arame farpado, os campinos já não são obrigados a uma permanência tão exaustiva junto do gado. Vivem confortavelmente em suas casas, nas povoações vizinhas.

Passemos então à descrição das suas principais tarefas, caracterizando os eventos em que colabora:


• Condução do gado, apascentamento e guarda das manadas

Uma das atribuições do maioral duma manada, talvez a mais importante, é a de zelar pelo seu bem-estar. Para isso, tem que ter em atenção o estado da pastagem, com regularidade e, se necessário, propor ao seu superior hierárquico a mudança de parcela; nas épocas de maior carência deve providenciar uma suplementação alimentar à base de feno/palha, ou outra; vigiar a condição física dos machos reprodutores para que as vacadas fiquem bem beneficiadas; olhar pelo estado do terreno, para garantir que os animais não andem atolados na lama, caso estejam nas lezírias, e não enfraqueçam demasiado. Se for o caso, é altura de sugerir a sua mudança de zona de pastoreio (transumância) para terrenos de charneca onde devem permanecer no outono/inverno, regressando ao campo na primavera/verão, onde a pastagem é mais abundante e nutritiva; verificar o estado das vedações, reparando-as sempre que necessário, usando o alicate e arame que transporta no arreio de montar.


• A transumância

A transumância é o deslocamento sazonal de manadas para locais que oferecem melhores condições durante uma determinada época do ano. Esta prática, rareando nos dias de hoje, consistia em conduzir as manadas entre locais, por vezes distantes mais de 100 km entre si, o que demorava vários dias, obrigando os campinos a um acompanhamento permanente, dia e noite, na condução da manada, ou nas horas de descanso, em que pessoas e animais aproveitavam para se alimentar. As transumâncias eram muito participadas. Era necessário o acompanhamento dum grande número de cavaleiros – campinos montados a cavalo a que, em algumas ganaderias, também se juntavam os próprios “lavradores” e alguns amigos. Nos dias de hoje, as transumâncias são executadas através da utilização de meios rodoviários. Os animais são conduzidos pelos campinos ao enjauladouro da herdade, onde são carregados em camiões que os transportam e os descarregam no novo local de pastoreio.


• Ferra – Identificação animal

A ferra é a marcação a quente, a seguir ao desmame dos jovens animais (6/7 meses de idade) com a finalidade duma fácil identificação à vista desarmada, tanto do animal como do proprietário.

O ferro da ganaderia é aplicado na coxa direita com uma forma e dimensões ao gosto do criador; os algarismos da numeração de série no costado direito; o último algarismo do ano de nascimento, na espádua direita. O ferro da Associação Portuguesa de Criadores de Toiros de Lide, mais pequeno, no caso das ganadarias associadas é colocado por cima do ferro da ganadaria.

São os campinos que fazem todo o maneio de separação dos jovens animais das suas mães, juntando-os em espaçosos currais, onde vão passar um período de adaptação, com uma alimentação cuidada e ambiente protegido.

Após este período, nos dias frios de inverno, por razões sanitárias, procede-se então à ferra que culmina sempre com um farto repasto oferecido pelo patrão, que para esta ocasião aproveita para convidar alguns familiares e amigos.

Tendo o campino como protagonista no teatro de operações, o dia da ferra é também um dia de ameno convívio entre os participantes, muitas vezes aproveitado para a realização da tradicional “adiafa” pequena festa oferecida pelos criadores aos trabalhadores rurais após operações mais importantes.

Não obstante a marcação a fogo, é hoje uma obrigação legal imposta pela EU, a aplicação duma marca auricular de dois brincos de plástico, idênticos, um por orelha, com dupla face, contendo uma numeração e código de barras.

Esta aplicação é de particular importância, sob pena do criador ficar sujeito a uma situação de incumprimento, o que lhe pode trazer penalizações monetárias.

É também uma operação trabalhosa e exige muita destreza. Os campinos imediatamente após o nascimento dos bezerros, geralmente em campo aberto, montados a cavalo, laçam ou derrubam, com o auxílio da vara, os jovens e fugidios animais, para de seguida e rapidamente se apearem e aplicar os respetivos brincos de identificação, utilizando um alicate próprio para o efeito, e proceder sempre à sua substituição em caso de perda.


• A Amansia

Prática que consistia em castrar e amansar, usando equipamento e métodos próprios para o efeito, os toiros bravos após serem lidados em espetáculos tauromáquicos, com a finalidade de os submeter e preparar para diversas e pesadas operações de lavoura, rebocando alfaias pesadas: arados, grades e outras. Estes grupos de animais amansados eram designados por “tralhoadas”.

Esta prática desapareceu, tendo sido as “tralhoadas” substituídas pela moderna mecanização.


• A Tenta

A tenta é um teste que tem por finalidade a seleção das reses destinadas à reprodução, avaliando o seu comportamento relativo às condições de lide – a sua bravura fundamentalmente – no qual as novilhas aos 2/3 anos de idade são submetidas. É realizado em praças de tenta ou “tentadeiros”.

Para o efeito, o criador convida vários profissionais do toureio encarregados de lidar as reses em questão, sob o olhar atento do ganadeiro, que vai apontando no seu livro de tentas, notas sobre o comportamento dos animais tentados para uma posterior avaliação e decisão. As que demonstrarem maior bravura e outras condições de lide são selecionadas para se reproduzirem, integrando assim as vacadas. As restantes não têm a mesma sorte. São consideradas refugo e condenadas ao abate para consumo de carne.

Mais uma vez está presente a participação dos campinos, neste caso com menor visibilidade, mas não de menor relevância. Para que as tentas se concretizem, cabe--lhes executar todas as tarefas necessárias ao sucesso da operação: no campo, sempre montados a cavalo, proceder à apartação e condução das novilhas para os currais da praça de tentas; na praça, apeado, cabe-lhe todo o maneio de separação e condução nos currais.


O campino e a cultura


• Nas Corridas de Toiros

O campino tem nas corridas de toiros um dos seus papéis fundamentais. Ele acompanha o toiro desde que nasce, mediante as tarefas já descritas, até ao seu destino final – a Praça de Toiros – onde é lidado/toureado nas tradicionais e populares “corridas” ou noutros tipos de festejos taurinos.

No campo, os campinos, meticulosamente, apartam e conduzem os toiros, auxiliados pelo jogo de cabrestos, até ao enjauladouro, sendo carregados em camiões que os transportam de seguida até à praça. É incumbência do maioral acompanhar atentamente todo este percurso e assistir a todas as operações de bastidores, desde a descarga dos animais nos currais da praça até à sua saída para o redondel, onde vão mostrar as suas qualidades, proporcionando a todos um grandioso espetáculo, pleno de emoção e beleza artística.

Nestes festejos taurinos, é-lhes também atribuída a arriscada tarefa de recolher aos currais os toiros lidados, apeados ou montados a cavalo, e, sempre que ocorrem “pegas de cernelha” colaborar, apeados, com o grupo de forcados na sua execução. Em ambas as tarefas recorrem ao uso da vara e dum jogo de cabrestos para possibilitar o “encabrestamento” dos toiros, operação que consiste em juntar e fazer movimentar/conduzir o conjunto de animais.


• Nas Festas e Romarias

Nas populares festas regionais, celebradas em grande parte das vilas ribatejanas, os campinos são os Reis da Festa. Em algumas terras, anualmente, é, entre os seus pares, eleito um que se destacou por qualquer razão (normalmente, a antiguidade) para ser homenageado pelas edilidades. A participação nestes eventos é para os campinos motivo de grande orgulho e uma demonstração de reconhecimento por parte dos patrões que lha facultam.

Sempre trajados a rigor, apresentam-se altivos e garbosos, montados a cavalo, pampilho ao alto sobre o ombro, com todas as peças metálicas, desde as fivelas aos estribos, tão brilhantes que refletem a luz do Sol. Eles deliciam o povo que acode em grande massa a estas festividades.

Segue-se uma breve descrição das suas participações:

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- Vistosos cortejos etnográficos;

- As vivas “esperas” ou “entradas” de toiros são as manifestações taurinas de cariz mais popular. São realizadas nas ruas das vilas e cidades, proporcionando aos mais curiosos e arrojados sentir a emoção transmitida por uma maior proximidade, ou mesmo contacto direto, com esse imponente e atraente animal – o toiro bravo. Nas “esperas” qualquer um tem a possibilidade de protagonizar as mais variadas peripécias;

Nas “esperas” os toiros bravos e cabrestos, conduzidos pelos campinos, entram galopando pelas ruas das povoações, onde são esperados por multidões entusiasmadas, num espetáculo de movimento e cor de rara beleza.

Após a manada recolhida, soltam-se apenas toiros para as ruas, para gaudio da população, sendo posteriormente recolhidos pelos mesmos campinos e cabrestos;

- Animadas provas de perícia e destreza em que é testada a sua desenvoltura a cavalo (tipo gincana) e premiados os vencedores;

- Provas competitivas de condução de jogos de cabrestos, também de perícia e destreza, em que, no menor tempo possível, cinco campinos conduzem um jogo de cabrestos que devem contornar vários obstáculos estrategicamente colocados. As faltas são penalizadas em unidades de tempo;

Quadro do pintor Domingos Saraiva

- As aparatosas “picarias à vara larga” ainda hoje em prática em algumas das festas regionais, são parte da longa lista de atividades da vida de campino e uma das mais apreciadas pela emotividade que transmite. Como as duas últimas atividades festivas e exibicionais, são uma prova de perícia e destreza, neste caso de maior perigosidade para homem e cavalo, na qual se registam frequentemente colhidas com alguma gravidade. São também muito participadas por alguns lavradores e outros cavaleiros amadores.

Na picaria à vara larga, o cavaleiro acossa um toiro em hastes limpas, cuja violenta investida deve aguentar acometendo-lhe uma “varada” furtando-se em seguida ao ataque do toiro. O campino que executar melhor esta “sorte” é premiado;

Quadro do pintor Júlio Pomar

- Romarias – Os campinos são normalmente crentes em Deus. Como tal, gostam de participar com os seus familiares e amigos em Romarias. Talvez a de maior relevo seja a Romaria à bonita Ermida da Nossa Senhora da Assunção de Alcamé, sua padroeira, que tem lugar no mês de junho na lezíria de Vila Franca de Xira;


O Campino e Outras Artes


O campino, ao longo dos tempos, inspirou variadíssimas obras de ilustres autores, nas mais diversas vertentes artísticas, cujos nomes de alguns, sem desprimor de outros, realço:

- Ramalho Ortigão e Almeida Garret na literatura;

- Delfim Maia e João da Silva na escultura;

- Domingos Saraiva ou Júlio Pomar na Pintura;

- Vários, no teatro, no cinema e no teatro de revista;

- Eugénio de Sá e António Botto, do qual registo a seguir um belo poema, na poesia:


Campino do Ribatejo


Figura que nasce e morre

Nos campos da beira-mar!

Tão portuguesa e tão bela

Na sua simplicidade

Que até na sua pobreza

Nunca sabe mendigar!


Entre cavalos e toiros

Na lezíria enssoalhada

A sua figura esbelta

Tem um encanto infinito:

Barrete verde; o colete

Encarnado sobre a neve


Da camisa de algodão;

Jaleca bem recortada,

Meia branca, os albardões,

As esporas, o calção

Azul cobalto justinho

E a cinta escarlate quente

Da cor do sangue ou do vinho.


Além, naquele valado,

As papoilas e o junquilho

Fazem trofeu, há mais luz!


Um harmónio no fadango

Vibra e salta no compasso

Magoadamente agitado!


Anda no ar o farrapo

Dolente de uma cantiga

Mordida pelo ciúme!


E o fandango vai dançado!


Ninguém se mexe. Só ele,

Bamboleado, rirail

Desempenado, perfeito,

- E as pernas? Como ele as dobra?


E aquela curva do peito?

Trás um cravo na orelha,

E dança, dança, - o harmónio

Vai-lhe graduando o alento,

A luz perturba, - mulheres

Ficaram mudas a olhá-lo!


A garotada assobia

Acentuando o motivo

Musical, mas, a preceito;

E o Sol, apesar do dia

Nascer fosco e marralheiro,

Parece lume! - O fandango

Com a graça de um campino

É Portugal verdadeiro!

(António Botto)


Na música popular portuguesa, a figura do campino, está marcadamente presente em duas distintas variantes – no folclore e no fado. No folclore: através de ranchos que abundam por todo o Ribatejo, exibindo a sua música e forma de dançar, alegre e viril, condizente com a exuberância do seu traje e atitude, dançando o “Verde-gaio” o “Corridinho” os divertidos “Viras” ou o “Fandango” sobejamente conhecido aquém e além-fronteiras.

Na segunda – o fado – foi e ainda é uma verdadeira fonte de inspiração para um elevado número de poetas, letristas e músicos, sendo interpretado por quase todos os fadistas.

Atingiu um notório relevo na voz da “enorme” Amália Rodrigues, que o levou aos “cinco cantos do mundo” mas muitos outros se lhe dedicaram, retratando a vida do campino.

Texto Campino F5.jpg


Nota final

Embora, por imposição do progresso, a presença do campino nos campos seja cada vez mais rara, considero motivo de orgulho para os portugueses o facto de ter na sua história, e que ainda persiste, este personagem – o Campino – homem de campo, rude e valente, peça fundamental na criação do toiro bravo, no qual se baseia essa tão popular, artística e grandiosa manifestação cultural – a Tauromaquia.



REGISTOS BIBLIOGRÁFICOS


Perez, Rogério (1945), "O Campino", in Panorama: revista portuguesa de arte e turismo, Lisboa, Secretariado de Propaganda Nacional, n.ª 25-26 (disponível em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/Panorama/N25-26/N25-26_master/Panorama_N25-26_1945.PDF)

Sena, Pedro S. (2018), "Campinos, touros e cheias na lezíria: produção social das representações hegemónicas do Ribatejo", Working Papers CRIA, n.º 16, pp. 1-41


REGISTOS VIDEOGRÁFICOS


https://arquivos.rtp.pt/conteudos/campinos-do-ribatejo/

https://archive.org/details/vila-franca-de-xira/Vila+Franca/Colete+Encarnado+Prom.mp4

https://archive.org/details/papafina/Documentario+Moura+Jr/Programa+Sol+e+Toiros+n%C2%BA+44+++Vila+franca+de+Xira.mp4

https://archive.org/details/papafina/OS+CAMPINOS+ESTUDOS+DE+COSTUMES+PORTUGUEZES.mp4

https://bit.ly/3f3FFo4

https://bit.ly/336w4dG

https://bit.ly/2P9NP3u

https://bit.ly/3gwLvzU

https://bit.ly/3knBuHl

https://bit.ly/30yFNrG