Capeia Arraiana (Sabugal)


CAPEIA ARRAIANA

Norberto Manso
Antropólogo / Câmara Municipal do Sabugal

Em Agosto, Capeias a Gosto

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Fustigado pela intensa emigração dos anos 60, o concelho do Sabugal privou-se de muitos dos seus mais intrépidos homens e mulheres que, na busca do Eldorado, partiram para franças e araganças. Mas foi, sobretudo, na zona do concelho mais fronteiriça com Espanha, que a sangria mais se sentiu.

Partiram, e por lá desbravaram, entre atalhos e veredas, caminhos até portos de esperança por aqui perdida. E no mês de Agosto regressam. Regressam com uma mão cheia de sucesso e outra mão cheia das memórias, dos laços, dos afectos e dos vínculos que dão sentido à vida e à vinda.

Por entre o enovelado das memórias, a FESTA destaca-se pela envolvência da comunidade, espaço de construção do sentido de pertença e de identificação com o colectivo. E por isso se regressa, se vem à terra, à terra onde estão as raízes, as origens e um espaço de memória colectivo.

A festa de cada uma das localidades é o ponto de encontro, a marca de um calendário religioso/profano, ou ambos, que convoca todos a estar.

De entre as muitas e diversificadas festividades do concelho, a Capeia destaca-se pela sua singularidade e originalidade – utilização do forcão na lide do touro bravo –, e pelo facto de ser uma manifestação comum a muitas localidades. A Capeia é, assim, a expressão de cultura popular aglutinadora de uma identidade territorial mais abrangente que o espaço da comunidade do sítio.

Conforme já aludi noutras ocasiões, «A Capeia é identitária e dá aos membros da comunidade um forte sentido de pertença, criando fortes laços e vínculos à comunidade. A valorização desse património tende a preservar as referências ‘à terra’ – às raízes – e dessa forma estimular, nos que tendo laços com as comunidades, mas nelas não residem, o regresso, pelo menos por ocasião da Capeia. As expressões de cultura tradicional com as quais as pessoas ‘simpatizam’ e se identificam serão tanto mais motivo de vinda / regresso quanto maior for a ‘simpatia’ e a identificação com essas mesmas expressões. E, para uns é a Capeia, para outros é outra coisa qualquer, igualmente importante.

A Capeia é, assim, aglutinadora no regresso, motivação reforçada pela grande probabilidade de reencontros, o que é gratificante por ser tão forte a memória dos afectos e dos laços que perduram. A Capeia é, desta forma, um pretexto de confraternização, de convívio, de partilha, de desejo de estar junto de outros que diferentes percursos de vida separaram.

O êxodo, a emigração, a desruralização, não implicam que os que se afastaram se desliguem das suas origens. A busca das raízes, a centripetía das tradições, das festas, motiva ao retorno enquanto o universo das memórias for povoado pelas reminiscências dos “bons velhos tempos”. Retorno que acaba por se constituir em espaço de reconstrução de memória (o que recordamos do que aconteceu não é o que aconteceu, mas a reconstrução, no presente, do que vivenciámos ou experimentámos), onde se lubrificam as lembranças dos afectos e dos vínculos com novos afectos, novas partilhas, novas experiências.»

Todos os anos, no mês de Agosto, o ritual repete-se em Aldeia da Ponte, Aldeia do Bispo, Aldeia Velha, Alfaiates, Fóios, Forcalhos, Lageosa, Nave, Ozendo, Quadrazais, Rebolosa, Soito e Vale de Espinho.

Dada a inquestionável importância desta tradição, decidiu-se em 2009 avançar com o processo de inventariação de que resultou, em Novembro de 2011, o registo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioPCIListar.aspx?TipoPesq=2&NumPag=1&RegPag=50&Modo=1&Criterio=capeia&Inpci=True); o primeiro realizado em Portugal. E foi a Câmara Municipal que avançou com a inventariação, não porque ela seja dona ou se queira apoderar da capeia, mas porque foi a melhor forma de a valorizar, promover e preservar, evitando bairrismos entre as diferentes aldeias; e porque é a Câmara quem melhor pode representar e aglutinar uma expressão cultural de diversidades locais em diferentes geografias, dando-lhe uma dimensão de “Terras do Forcão”.

A capeia é das comunidades e o seu futuro depende das comunidades. Foram elas que ao longo dos anos a promoveram, a valorizaram, a preservaram e a interpretaram à luz do desenvolvimento que, sobretudo depois dos anos 60, tão significativamente mudou o concelho.

Com a inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI) a Capeia galgou as fronteiras do seu espaço de prática para se afirmar no mapa patrimonial do país. Ganhou a visibilidade e a dignidade que o Inventário lhe confere, mas, sobretudo, promoveu a participação das comunidades, grupos e indivíduos na defesa e valorização do seu património cultural imaterial, objectivo da inventariação.

O reconhecimento que o registo no INPCI conferiu à Capeia promoveu o envolvimento das comunidades na defesa e valorização do seu património cultural imaterial, garantindo, assim, a preservação dos laços e dos vínculos que criam um forte sentido identitário e de pertença à comunidade, tão necessários num mundo cada vez mais urbano, anónimo e anódino.


Capeia Arraiana

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A Capeia Arraiana é uma manifestação tauromáquica específica de algumas localidades do concelho do Sabugal próximas da fronteira com Espanha. A sua especificidade distintiva reside no facto de a lide do touro bravo ser efectuada com o Forcão.

A construção do Forcão é realizada umas semanas antes da Capeia, sob a supervisão dos mordomos, sendo que os paus de carvalho são cortados em Janeiro-Fevereiro e deixados a secar até à construção. Como refere Adérito Tavares: “O corte do forcão é anunciado por uma ronda pelas ruas da aldeia, ao som do tambor, convidando novos e velhos a deslocarem-se ao campo em busca de bons troncos de carvalho. Eles podem ser cortados onde bem calhar, e nenhum lavrador se pode queixar se lhe derrubarem um ou dois reboleiros na sua propriedade. Faz parte da tradição. Antigamente a madeira era trazida pelos rapazes, a pulso. Hoje, normalmente, transporta-se num tractor” (Tavares, Adérito, 1985, A capeia arraiana, Ed. do Autor, p. 33).

Antes da Capeia, as localidades que não têm praça de touros ou recinto fechado para o efeito procedem ao encerramento do recinto, normalmente a praça central da aldeia.

Fechada a praça, preparados os curros e preparado o Forcão está tudo a postos para que no dia da Capeia ela se realize, cumprindo as seguintes fases: Encerro, Boi da Prova, Pedido da Praça, Capeia e Desencerro.

De forma breve, e conforme descrição no Inventário, passo a descrever as fases da Capeia:


• O Encerro

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O Encerro realiza-se logo da parte da manhã e consiste na recolha e encaminhamento dos touros para o curral ou currais preparados junto à praça. A recolha dos animais faz-se actualmente a partir da herdade/lameiro para a qual foram trazidos temporariamente, após o transporte, efectuado dias antes, das ganadarias onde o seu aluguer para o Encerro foi contratado. A recolha dos touros é efectuada por cavaleiros com o auxílio de cabrestos (touros castrados), e vacas mansas, utilizadas, não apenas para encorajar os touros no seu percurso para a povoação e assegurar o seu encerro no curro, mas também nas próprias Capeias, para auxiliar a entrada e a retirada na praça dos touros mais renitentes.

Generalizado até à década de 1970 nas várias comunidades em que se realiza a Capeia, o Encerro sempre foi considerado como uma das suas componentes mais importantes, pois, para além dos cavaleiros que encaminhavam os touros, também a população acompanhava esse percurso, a pé ou, sempre que possível, a cavalo, ou aguardava com expectativa a entrada da manada na aldeia, desde logo avaliando do número e da qualidade dos touros.

O transporte dos touros, realizado hoje por camião, atempadamente evitando quaisquer perigos de tresmalhamento, desloca actualmente para outro plano a função do Encerro, que consistia originalmente no acompanhamento do gado no seu longo percurso desde a fronteira com Espanha. Pelo que, desde há umas décadas, os touros do Encerro não são os que irão ser “corridos” na Capeia.

A dimensão de espectacularidade constitui, provavelmente, um dos principais factores da manutenção do Encerro em algumas freguesias, atraindo actualmente também muita gente de fora que, a pé, a cavalo ou em veículos motorizados, participa hoje nos Encerros.


• O Boi da Prova

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A concretização do Encerro anuncia-se com foguetes, sendo os touros deixados nos currais até à Capeia, que se realizará da parte da tarde. Porém, ao final da manhã (entre as 11h00 e as 13h00) e logo após o Encerro, tem lugar o Boi da Prova. Esta componente da Capeia consiste em “fazer sair” ou “correr” um dos touros para avaliar da qualidade do “curro”, termo que também designa o conjunto dos touros a lidar nesse dia. Para além da dimensão de antevisão da exigência a que os touros sujeitarão os homens da terra da parte da Capeia que se lhe atribui, o Boi da Prova constitui um momento de entretenimento e de agregação da comunidade na praça, fazendo aumentar a expectativa de todos quantos assistirão à Capeia, para a qual se reservam sempre os touros mais fortes. Uma vez testado o Boi da Prova, regressa-se a casa para almoçar em família, ou, no caso dos forasteiros, para almoçar em grupo nos campos limítrofes à povoação, ou nos restaurantes da região.


• Pedir a Praça

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A Capeia tem lugar a meio da tarde, cerca das 17h00, na praça a que, entretanto, acorreu toda a assistência, acirrando os touros encerrados nos currais antes de se instalar para assistir à prova.

A Capeia inicia-se com o ritual do “pedir a praça”, que consiste no pedido de autorização que um dos Mordomos efectua para dar início à Capeia. Formalmente variável de comunidade para comunidade, o pedido é realizado com a totalidade dos Mordomos já presentes na praça, após terem entrado a pé ou a cavalo, munidos ou não de “varas” decoradas ou outras insígnias (bandeiras, espadas, etc.), precedidos ou não de músicos, e que desfilam pela praça.

É também variável de comunidade para comunidade o número de deambulações rituais dos Mordomos pela praça, assim como a figura a quem é dirigido o pedido ritual para dar início à Capeia, podendo ser uma pessoa mais idosa, o presidente da Junta de Freguesia, um dos mordomos do ano anterior, ou qualquer outra pessoa de prestígio, mas regra geral sempre a alguém natural da freguesia.

São ainda variáveis as fórmulas dirigidas ao “dono da praça” na efectuação do pedido, assim como as que este utiliza para conceder autorização para iniciar a Capeia, como as seguintes:

Mordomo: “A malta do Soito, representada por esta mocidade, querendo seguir a tradição de conservar as touradas raianas, pede a V. Excelência autorização para iniciar a tourada.”

Resposta, na ocasião do Senhor Presidente da Câmara Municipal do Sabugal: “É com muito prazer e com toda a honra e consideração que dou a licença para que a tourada comece o mais rápido possível… tudo em harmonia em paz e união.” (conforme pedido gravada no programa emitido em 26/08/1984, pela RTP).

Na descrição de António Pissarra, “O pedido é feito em voz solene a que se segue o discurso inflamado, de quem irá dar a permissão, sobre a importância da tradição e os valores da gente da Raia, pede-se também coragem e valentia, para além de cuidado, de modo a que não aconteça nenhuma tragédia e tudo acabe em bem. Redobram as palmas e agita-se a massa humana na expectativa da emoção que se aproxima.” (Pissarra, António, 2003, Terras do Forcão, Ed. Autores, p. 154).


• A Capeia

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Concedida a praça aos Mordomos, esta é libertada para a lide do primeiro touro, de entre os cerca de 6 ou 7 que se lidam actualmente em cada Capeia.

Até então colocado ao alto junto a uma parede, o Forcão é preparado para que os homens da terra “esperem” os touros. O Forcão, com um peso de cerca de 300 kg, é erguido por um número variável de homens, entre vinte e trinta, distribuídos de ambos os lados do forcão. Sempre que os lidadores sejam em grande número, ocupa-se também o espaço entre as varas transversais ao rabicho.

Os lugares que oferecem menor protecção das investidas do touro e que estão mais expostos ao perigo, e que, como tal, requerem maior coragem, são os da “galha”. No caso do primeiro touro de cada Capeia, os mordomos têm invariavelmente o privilégio de pegar às duas “galhas” do Forcão, sendo estas que definem o número mínimo de mordomos exigível para a organização de uma Capeia.

De entre os que “pegam ao forcão” tem também particular destaque o “rabicheiro” (ou “rabiador”), isto é, o homem, ou o par de homens que, conjuntamente erguem o “rabicho” do Forcão e o direccionam para fazer rodar a estrutura e fazer frente às investidas do touro.

Para além daquelas posições estratégicas, que requerem maior experiência e destreza, usualmente pega-se ao Forcão indistintamente, de acordo com a apetência de cada um. A composição de cada grupo de homens que pega ao Forcão e que, correspondentemente, corre um determinado touro, não é previamente determinada nem exige uma coordenação prévia dos que compõem esse grupo. Regra geral, e para além da presença indispensável dos Mordomos às “galhas” do primeiro Forcão da festa, cada grupo constitui-se espontaneamente, em função da vontade de cada um em participar em determinado momento.

Sendo reconhecido que apenas é importante “perder o medo e ter o gosto pelo forcão”, os Mordomos avaliam, contudo, a composição requerida por cada grupo de homens em função da maior ou menor corpulência e agressividade de cada touro, impedindo a participação dos mais inexperientes, sempre que necessário.

Após pegar ao Forcão, o grupo de homens “espera o touro” sustentando o Forcão ao centro da praça, aguardando a abertura do portão e, caso tudo ocorra como desejado, o imediato arremesso do touro contra a estrutura.

De acordo com a posição que cada homem ocupa no Forcão, e a altura a que se ergue ou baixa o Forcão, assim este é sustentado de forma diferente: agarrado pelas mãos, sustentado pelo antebraço, ou encostado contra a coxa ou o peito. Exerce-se pressão para baixo com as mãos sobre o Forcão, assim contrariando as investidas do touro para o soerguer e penetrar por sob a estrutura, e suportam-se os seus embates mantendo uma perna encostada ao Forcão, para o suportar, e a outra flectida, como contraforte.

Para além da destreza física de cada homem individualmente considerado, são evidentes a destreza e a coordenação colectiva que implica o manuseamento do Forcão, e que se expressa na harmonia com que este é rodado, ou se ergue e baixa em resposta às investidas do touro. Procura-se que este arremeta apenas contra as “galhas”, impedindo-o de as contornar ou de penetrar por debaixo do Forcão, o que normalmente força o abandono da estrutura e a procura de refúgio nos espaços para tal previstos aquando da montagem da praça. Não sendo previamente ensaiada, esta coreografia espontânea resulta em simultâneo da condução física dos rabicheiros, dos que pegam à “galha” e das vozes de ordem emanadas de uns e de outros.

Todas estas componentes – exposição pública e demonstração de coragem no enfrentamento do touro, de destreza física individual e de participação num esforço colectivo – constituem traços iniciáticos que permanecem na Capeia até à actualidade, apesar de esta não ser desde há várias décadas prática exclusiva dos jovens e factor de reconhecimento público da sua maturidade.

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O facto de a Capeia ser efectuada com o Forcão não deve iludir a perigosidade de que se reveste. Com frequência, o touro consegue levantar o Forcão ou contorná-lo e, por vezes, os que pegam ao Forcão, ou os que saltam para dentro da praça para tentar dominar o touro – saltando-lhe para cima e procurando dominá-lo como numa pega – são colhidos. O mesmo sucede, por vezes, depois de arrumado o Forcão, quando os homens e os rapazes “brincam” com o touro, provocando-o e, naturalmente, procurando escapar às suas investidas.

Desde muito recentemente os touros têm de se apresentar embolados (protecção de cabedal nas hastes do touro de forma a evitar ferimentos aos “toureiros”), e já não em pontas, diminuindo assim o risco de ferimentos graves, o que sucedia no passado, inclusive com desfechos fatais. O facto de os touros utilizados para a Capeia serem hoje embolados tem tido como consequência a escolha de touros mais corpulentos.

Sempre que há necessidade de dominar o touro, intervêm também os capinhas, toureiros a pé, locais ou provenientes de Espanha, a que Adérito Tavares se refere assim: «Os capinhas ou maletas são toureiros espanhóis, que andam de terra em terra, sedentos da fama e do proveito das arenas, ganhando experiência nas capeias dos dois lados da raia. Num dos intervalos da corrida, os capinhas fazem o seu peditório: “Venga, señores, venga!”. Quase sempre acabam por reunir um bom talego de notas e moedas» (Tavares, Adérito, 1985, A capeia arraiana, Ed. do Autor, p. 36).

Após serem corridos todos os touros, normalmente em número de seis ou sete, finaliza a Capeia e a assistência desmobiliza para o jantar, em casa ou no arraial, e depois para o baile. Logo após a Capeia, em algumas povoações procede-se ao desencerro, isto é, à devolução dos cabrestos e dos touros do Encerro, novamente conduzidos pelos cavaleiros, mas desta feita sem o acompanhamento da população que se verifica no Encerro.

Nos casos em que não se realiza o desencerro, os animais são carregados no camião para a sua devolução à ganadaria de que provêm.

É também após a finalização da Capeia, normalmente durante a animada festa popular que se desenrola durante essa noite, que os Mordomos nomeiam os seus sucessores que serão responsáveis pela organização da Capeia do ano seguinte.

Encerrada a Capeia fica a promessa: pró ano há mais!



Encerro

As “capeias raianas” (Tavares, 1985) ocorrem durante o mês de agosto em várias aldeias – em número que, de resto, tem vindo a crescer – da zona raiana do Concelho de Sabugal e, normalmente uma vez por ano, na região de Lisboa, com organização da Casa do Sabugal. Estão registadas como Património Cultural Imaterial.

No dia da capeia, de manhã cedo, reúnem-se os cavaleiros da região para ir buscar, a solo espanhol, os cinco toiros que serão lidados numa praça improvisada no centro da aldeia, vedada com varas de madeira verticais, no topo das quais se localizam bancadas para os espectadores, e que com “burladeros” e outros refúgios constituem proteção e zona de escape para quem desafia o toiro. Estas estruturas substituem agora os antigos carros de bois que fechavam as saídas da praça. Improvisa-se também um curro num quintal de uma casa aí localizada. Em Aldeia da Ponte, e no Soito, localidades com Praças de Toiros fixas, é nestas que atualmente se realizam as capeias, incluindo um muito concorrido concurso entre aldeias chamado “Ao forcão, rapazes”.

Os toiros são conduzidos em manada “enroupada” pelos cabrestos até à aldeia em que se realiza a capeia, no dia da Festa local, de que é o momento culminante. Ao chegar perto da povoação, os cavaleiros incitam os toiros de modo a que galopem sem se tresmalharem. Muitas pessoas se posicionam ao longo do trajeto para ver passar o "encerro", ao passo que muitas mais ocupam os lugares disponíveis nas bancadas e outros lugares de onde se pode assistir à função. Encerrados os toiros no curral, segue-se o “toiro da prova”. Trata-se de lidar um primeiro toiro dos que foram encerrados.

Os rapazes solteiros (e desde há alguns anos, também algumas raparigas) empunham o forcão e enfrentam o toiro. Não podem participar pessoas não nascidas ou sem ascendentes diretos na localidade em festa, a não ser que, ocasionalmente, na parte principal do ritual, à tarde, seja largado um toiro para “os de fora”. E se os solteiros não executarem convenientemente a lide, saltam os casados a “pegar ao forcão”. A terra não pode passar pela vergonha de um mau desempenho.

Forcão

O forcão é um aparelho construído por varas em madeira pregadas e amarradas com cordas de um modo específico, de modo a formar um triângulo com um eixo com cerca de cinco metros desde a base até ao vértice posterior (o rabicho). A vara da base ultrapassa o ponto de inserção das varas que formam os lados em cerca de um metro e vinte para cada lado, tendo a respetiva vara cerca de sete metros e meio. As varas do eixo central, da base e dos lados têm cerca de 20 centímetros de diâmetro. A uni-las estão ainda outras varas mais finas que permitem aos moços pegarem no aparelho e dar-lhe consistência. Na base, junto ao ponto de inserção dos lados do forcão são colocadas varas mais curtas e mais finas, as galhas, doze em cada lado, que se projetam para a frente do triângulo e nas quais se procura que o toiro invista (Patana, 2013). Para isso o aparelho, segurado por cerca de 30 jovens que devem andar a “passo certo” (como na marcha militar), dando pequenos saltos com batidas simultâneas dos pés no chão, o que permite uma rotação rápida de todo o conjunto segundo o impulso dado pelo “rabicheiro”, homem que comanda o forcão, orientando a base para o toiro, de tal modo que este não consiga contornar essa base e colher quem pega no aparelho. À galha, isto é, na zona que fica mais próxima do toiro, devem pegar os mordomos da festa.

O forcão é pousado quando o toiro, depois de várias investidas, abandona a luta e desiste de investir. A atuação dos moços é avaliada em função do modo como responderam às investidas e as aguentaram, sendo naturalmente mais valorizadas as atuações perante toiros mais bravos e combativos.

Pousado o forcão os moços procuram “agarrar” o toiro, “recortando-o” (passando-lhe pela frente e escapando à investida) de forma coordenada, até que algum o alcance de modo a que os outros possam acudir a imobilizar o toiro. Esta componente do ritual não é indispensável, embora seja valorizada.

Capeia

A parte principal da capeia dá-se à tarde. Nessa altura são lidados quatro toiros, de modo semelhante ao descrito. Antes, porém, há um ritual a cumprir. Os moços e moças que irão protagonizar a lide juntam-se à porta de casa de um dos mordomos, de onde seguem para a do outro, até formarem um cortejo comandado pelos mordomos a cavalo, seguidos por duas fileiras de jovens que percorrem as ruas da aldeia em marcha de tipo militar, acompanhadas pelo som de um tambor que toca ao ritmo da “ordem unida”, empunhando alabastros e lanças simuladas e enfeitadas, como num desfile militar. Chegados à “praça” dão uma volta ao recinto e no fim os mordomos pedem autorização a uma pessoa de elevado prestígio social ou militar presente na assistência para dar início à capeia.

Quando esta termina os toiros são soltos do curral e devolvidos aos campos de onde vieram, no chamado “desencierro”. E todos se preparam para o arraial que durará a noite toda, oferecendo ocasião para se comentar entre vizinhos as peripécias e a qualidade da capeia, comparando-a com a de outros anos e com as de aldeias vizinhas.

Existe nesta “tauromaquia” raiana um princípio de competição entre aldeias, cuja explicação se encontra enraizada na história comum de aldeias de fronteira.




REGISTOS GRÁFICOS


Calendários das Capeias (2010-2019)


2019 2018 2017 2016 2015
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2014 2013 2012 2011 2010

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Cartazes de Capeias


Aldeia da Ponte Aldeia do Bispo Aldeia Velha Alfaiates

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2019
2019

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2019

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2019
Outros Anos
Outros Anos
Outros Anos
Outros Anos
Fóios Forcalhos Lageosa da Raia Nave
2019
2019
2019
2019
Outros Anos
Outros Anos
Outros Anos
Outros Anos
Quadrazais/Ozendo Rebolosa Soito Vale de Espinho
2019
2019
2019
2019
Outros Anos (Quadrazais)
Outros Anos (Ozendo)
Outros Anos
Outros Anos
Outros Anos



Festival Ó Forcão Rapazes! (2010-2019)


2019 2018 2017 2016
2015 2014 2013 2010



Capeias - Casa do Concelho do Sabugal




Outras Tradições


Corte e Construção do Forcão


Capeias/Pegas ao Forcão no Ano Novo


Capeias/Pegas ao Forcão no Carnaval


Capeias/Pegas ao Forcão na Páscoa


Outras Capeias/Pegas ao Forcão



REGISTOS FOTOGRÁFICOS E VIDEOGRÁFICOS


Forcão e "Praça" da Capeia
Pedido da Praça
Capeia Arraiana


Capeias Arraianas (geral)

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Aldeia da Ponte


Aldeia do Bispo


Aldeia Velha


Alfaiates


Fóios


Forcalhos


Lageosa da Raia
  • Capeia - Reportagem Localvisão TV (2018)


Nave


Ozendo (Quadrazais)


Quadrazais


Rebolosa


Soito


Vale de Espinho


Outras Capeias



REGISTOS BIBLIOGRÁFICOS SOBRE A(S) CAPEIA(S) ARRAIANA(S)


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  • CABANAS, António; TOMÉ, Joaquim (2011) - Forcão. Capeia arraiana. Edição dos autores.
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  • JORGE, Maria da Conceição Ramajal (1998) - A Capeia. Edição da autora.
  • MANSO, Francisco (2010) - Uma Capeia, roubada, nos Fóios, Cinco Quinas, 113, agosto, p. 18-19.
  • MANSO, Francisco (2012) - Capeia raiana: origens, Cinco Quinas, Sabugal, 138, setembro, p. 3.
  • MANSO, Francisco (2014) - Heróis da Capeia, Cinco Quinas, Sabugal, 162, setembro, p. 3; 163, outubro, p. 3.
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  • NABAIS, José Maria (2005) - Capeias Raianas. In Aldeia do Bispo. As pedras e as gentes. Aldeia do Bispo: Mordomos da Capeia, p. 47-52.
  • NUNES, Manuel Luís F. (1998) - A capeia arRaiana, Sabugal, Lisboa, 104, junho, p. 5.
  • PATANA, Zé Manel (2013) - Lageosa da Raia e as suas capeias: muitos anos de histórias e emoções. Castelo Branco: RVJ - Editores.
  • PERES, João (2004) - Capeia arraiana – o forcão, Boletim da Associação Amigos da Aldeia da Ponte, Aldeia da Ponte, 58, dezembro, p. 5.
  • PISSARRA, António de Andrade; HERNÁNDEZ GÓMEZ, Angel (2003) - Terras do forcão. Edição dos autores.
  • PRATA, José (1988) - A capeia arraiana, Boletim da Associação Amigos de Aldeia da Ponte, Aldeia da Ponte, 18, abril a setembro, p. 1 e 2.
  • PUCARIÇO, Filipa Matos Novo (2015) - Estudo do impacto socioeconómico da capeia arraiana. Lisboa: Universidade de Lisboa / Faculdade de Medicina Veterinária [dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária].
  • Ramos, Elsa Ventura; Umbelino, Jorge; Mendes-Jorge, Luísa (2020), "Tauromaquias populares, realidade e identidade", in "Turismo. História, Património e Ideologia - Dialógos e Memórias", Lisboa, Instituto de História Contemporânea, pp. 319-337
  • RITO, Felismina (2010) - Ditos populares (em redor da capeia), Sem Fronteiras, Rebolosa, 65, outubro, p. 3.
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BIBLIOGRAFIA CITADA

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