Cornetim


CORNETIM - A VOZ DO DIRETOR DE CORRIDA

Gonçalo Lúcio
Advogado estagiário / Cornetim Tauromáquico

O papel do Cornetim Tauromáquico

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Uma condição “sine qua non” para se dar uma corrida de toiros é a existência de Cornetim. O Cornetim é a voz do Diretor de Corrida. Todas as ordens que o delegado técnico da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC) queira dar durante uma corrida de toiros passam pelo Cornetim através de toque adequado para ir de encontro ao desejado pelo Diretor.

O Cornetim fica sempre posicionado à esquerda do Diretor de Corrida no espaço que lhes é destinado na praça de toiros. Deve estar sempre com a máxima atenção, quer ao espetáculo, quer à direção da corrida com a qual deverá manter uma relação de cordialidade e respeito.

Os toques do Cornetim numa Corrida de Toiros à Portuguesa diferem dos toques de uma Corrida de Toiros Mista ou de outra apenas com toureiro a pé.

Numa Corrida de Toiros à Portuguesa, a sequência de toques segue a seguinte ordem:

• O toque de Aviso tem como objetivo avisar os artistas de que o espetáculo vai começar e serve também para dar a ordem para a Banda tocar o “Hino da Maria da Fonte”;

• O Toque de Quadrilhas é o toque que dá a indicação para se iniciar as cortesias;

• Após as cortesias, repete-se o toque de quadrilhas dando a indicação ao cavaleiro para iniciar a sua atuação;

• O toque para a saída do toiro é dado após sinal do cavaleiro ao Diretor de Corrida, porém, só pode ser dado com a permissão deste, e serve para dar indicação para a saída do toiro;

Durante a lide os toques a dar são chamados de “avisos” que podem ser de vários tipos, a saber:

- A qualquer altura para chamar o cavaleiro para entrar em contacto com o Diretor de Corrida, por exemplo, quando o toiro não reúne condições físicas para a lide continuar.

- Existem três toques de aviso que servem para avisar o toureiro sobre o tempo decorrido da sua lide. Os toques são dados aos 10, 12 e 13 minutos, sendo este o toque tradicional para o fim de lide.

• Terminada a lide é hora do toque para a pega. Este toque requer especial atenção à localização do toiro (o toque deverá ser efetuado quando estiverem reunidas as condições para os forcados saltarem à arena);

• Caso seja uma pega de cernelha, o Cornetim deve dar o toque para saída dos cabrestos (vulgo toque de recolha) e uma vez mais deverá ser realizado o toque da pega (apenas quando estiverem reunidas condições para os forcados saltarem à arena);

• Durante a pega, podem também surgir os toques de aviso, que são dados aos 5, 8 e 10 minutos;

• Por fim, o toque de recolha, para sair os cabrestos e o toiro ser recolhido.

Para uma lide a pé, o esquema de toques é o seguinte:

• Ao contrário de uma lide a cavalo, aqui não há toque de quadrilhas com o intuito do toureiro sair à arena;

• O primeiro toque a ser dado é o toque para saída do toiro. Contudo, este toque é diferente do toque dado para a saída do toiro para toureiro a cavalo. Neste toque o Cornetim pode ser acompanhado por outro músico a tocar Tímpanos;

• Terminada o tércio de capote é a vez do toque para a mudança de tércio. Este toque por norma é dado após a solicitação do toureiro, solicitação essa que deve ser confirmada pelo Diretor de Corrida;

• Após o tércio de bandarilhas é dado, uma vez mais, o toque para mudança de tércio. Este toque é dado, igualmente, após solicitação do toureiro, e mais uma vez deverá ser confirmada pelo Diretor de Corrida;

• Durante a faena de muleta poderão surgir os tradicionais avisos, sendo os avisos dados na mesma contagem do toureiro a cavalo, isto é, aos 10, 12 e 13 minutos para o fim de lide. Adicionalmente, poderão surgir outros toques durante a lide, desde que solicitados pelo Diretor de Corrida (estes avisos são iguais aos avisos no toureiro a cavalo);

• Por fim, o tradicional toque de recolha, que é igual, seja toureiro a pé ou toureiro a cavalo.

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O Cornetim não tem nenhuma farda específica para tocar numa corrida de toiros. No entanto, dada a importância do cargo, o Cornetim deverá apresentar-se sempre de forma aprumada em qualquer tipo de praça, de forma a defender esta classe amadora. Todavia, não existe qualquer tipo de obrigação no Regulamento de Espetáculo Tauromáquico (RET) ou por parte de quem o contrata.

No meu caso pessoal, apresento-me numa corrida de toiros sempre de fato, com gravata e com as tradicionais luvas brancas, símbolo característico e usual de praticamente todos os Cornetins.

A contratação do Cornetim é realizada através do empresário responsável pela corrida.


A relação do cornetim a uma banda

O cornetim é um instrumento da família dos metais, sendo uma derivação do trompete. É um pouco mais pequeno do que o trompete, sendo este o “rei” da família.

Numa corrida de toiros é sempre usado um instrumento em “Sib” (tonalidade do instrumento), todavia em alguns casos também é usado o trompete.

No RET não existe qualquer obrigatoriedade para o uso do cornetim. O cornetim é o instrumento mais regularmente utilizado, apenas por um costume incutido nos Cornetins Tauromáquicos.

A nível de ligação, o Cornetim não tem de estar ligado a uma banda, pode realizar esta atividade a título pessoal. No meu caso, sou músico da Banda do Samouco, porém, realizo esta atividade de forma singular e pessoal.


O percurso de um Cornetim Tauromáquico

Qualquer Cornetim antes de o ser terá necessariamente de ter aprendizagem como músico. A aprendizagem do Cornetim começa normalmente pelo trompete, ambas têm formas de tocar muito idênticas, sendo mínimas as diferenças.

No meu caso, iniciei o estudo de trompete na Banda do Samouco, começando pela teoria musical (solfejo), tendo ingressado mais tarde no Conservatório de Música do Montijo, com o intuito de aperfeiçoar o meu estudo de trompete. Após ingressar na Banda do Samouco comecei a tocar em corridas de toiros de norte a sul do país, maioritariamente no Campo Pequeno. Esta experiência fez com que começasse a querer ser Cornetim numa corrida de toiros. Não existe uma formação específica para ser Cornetim tauromáquico. Basta para isso conhecer cada toque e a sua função, para além, claro, de dominar o instrumento.

Aficionado, desde sempre, vi no cornetim uma oportunidade para estar presente em mais corridas de toiros, e, principalmente, fazer parte do espetáculo que tanto gosto – foi assim que acabei por me estrear numa corrida em Alpalhão (Nisa) em 2012.

A minha maior motivação para realizar esta atividade é, sem dúvida, o amor que nutro pela festa dos toiros. O melhor reconhecimento que posso receber são as palmas do público e o agradecimento dos toureiros, que me leva a querer continuar a ser a voz do Diretor de Corrida…



Neste momento (2020) estão no ativo os seguintes cornetins tauromáquicos: