Diferenças entre edições de "Pega"
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| + | <div class="center" style="width: auto; margin-left: auto; margin-right: auto;">'''Tiago Prestes'''</div> | ||
| + | <div class="center" style="width: auto; margin-left: auto; margin-right: auto;">'''<small>Cabo fundador do GFA Aposento da Chamusca</small>'''</div><br> | ||
'''Enquadramento Histórico Da Pega''' | '''Enquadramento Histórico Da Pega''' | ||
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• O seu aparecimento | • O seu aparecimento | ||
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Apesar de várias teorias atribuídas à origem da pega, podemos afirmar que a mesma surge no período em que o homem define uma nova forma de preservar a sua sobrevivência através da sua sedentarização e da adaptação a uma nova base alimentar. Numa ação lógica da sua proveniência, a mesma terá resultado no enraizamento agrícola e no contacto entre o Homem e o Toiro decorrente das atividades de maneio (ferras, monteiros das chocas e apartamentos de Gado). No decurso destas atividades laborais surgem várias situações de emergência defensiva que potenciam o comportamento do Homem no desenvolvimento das bases que permitiram atingir a técnica da pega como hoje a conhecemos. Neste sentido realçamos as tralhoadas, tarefa a que era sujeito o toiro bravo consistente em trabalhos de campo na conjugação direta de esforços com o homem na produção agrícola. | Apesar de várias teorias atribuídas à origem da pega, podemos afirmar que a mesma surge no período em que o homem define uma nova forma de preservar a sua sobrevivência através da sua sedentarização e da adaptação a uma nova base alimentar. Numa ação lógica da sua proveniência, a mesma terá resultado no enraizamento agrícola e no contacto entre o Homem e o Toiro decorrente das atividades de maneio (ferras, monteiros das chocas e apartamentos de Gado). No decurso destas atividades laborais surgem várias situações de emergência defensiva que potenciam o comportamento do Homem no desenvolvimento das bases que permitiram atingir a técnica da pega como hoje a conhecemos. Neste sentido realçamos as tralhoadas, tarefa a que era sujeito o toiro bravo consistente em trabalhos de campo na conjugação direta de esforços com o homem na produção agrícola. | ||
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• A sua evolução | • A sua evolução | ||
| − | |||
A Pega ganha um estatuto formal a partir de 1836, no reinado de D.ª Maria II, quando por ordem desta foi proibida a morte dos toiros em praça, passando a pega a ser executada por um grupo de homens (moços de forcado) como remate das lides equestres. A pega substituiu assim a morte física do toiro em praça, representando do mesmo modo a sua submissão às mãos do Homem (subentendendo a sua morte). | A Pega ganha um estatuto formal a partir de 1836, no reinado de D.ª Maria II, quando por ordem desta foi proibida a morte dos toiros em praça, passando a pega a ser executada por um grupo de homens (moços de forcado) como remate das lides equestres. A pega substituiu assim a morte física do toiro em praça, representando do mesmo modo a sua submissão às mãos do Homem (subentendendo a sua morte). | ||
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• Definição Geral | • Definição Geral | ||
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A Pega é uma arte de toureio sustentada numa ação técnica que permite ao forcado (Homem) obter o domínio sobre o seu oponente toiro (Animal). | A Pega é uma arte de toureio sustentada numa ação técnica que permite ao forcado (Homem) obter o domínio sobre o seu oponente toiro (Animal). | ||
| − | + | • Formato Geral do Grupo para a Pega | |
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Quem executa a pega é o Grupo de Forcados constituído por dois elementos (no caso da Pega de Cernelha) ou oito elementos (no caso da Pega de Caras), com funções definidas nas execuções das mesmas. A Pega de Cernelha é executada por dois elementos, um cernelheiro e um rabejador. A pega de caras assumiu verdadeiramente o símbolo da Pega tradicional em Portugal, sendo o grupo que a executa constituído pelo Cara, um Primeiro Ajuda, dois Segundos Ajudas, um Rabejador e três Terceiros Ajudas. | Quem executa a pega é o Grupo de Forcados constituído por dois elementos (no caso da Pega de Cernelha) ou oito elementos (no caso da Pega de Caras), com funções definidas nas execuções das mesmas. A Pega de Cernelha é executada por dois elementos, um cernelheiro e um rabejador. A pega de caras assumiu verdadeiramente o símbolo da Pega tradicional em Portugal, sendo o grupo que a executa constituído pelo Cara, um Primeiro Ajuda, dois Segundos Ajudas, um Rabejador e três Terceiros Ajudas. | ||
| − | + | • Elementos Técnicos/Temporais da Pega | |
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| + | - Cite | ||
O Cite é a primeira relação técnico/temporal que fundamenta o início da Pega, e consiste num convite à investida do Toiro mais ou menos prolongado no tempo, permitindo ao forcado mostrar-se ao toiro. Serve como indicador do tempo e espaço para sacar a investida, devendo ser feita de uma forma enquadrada e a passo lento, num movimento retilíneo, elegante e harmonioso. O saber pisar, a voz, bater palmas, e o alegrar são itens preponderantes a um bom cite. | O Cite é a primeira relação técnico/temporal que fundamenta o início da Pega, e consiste num convite à investida do Toiro mais ou menos prolongado no tempo, permitindo ao forcado mostrar-se ao toiro. Serve como indicador do tempo e espaço para sacar a investida, devendo ser feita de uma forma enquadrada e a passo lento, num movimento retilíneo, elegante e harmonioso. O saber pisar, a voz, bater palmas, e o alegrar são itens preponderantes a um bom cite. | ||
| − | + | - Mandar | |
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O Mandar será a segunda relação técnico/temporal que se realiza na Pega, pois é o momento em que o forcado da cara, carrega a sorte tomando a decisão de provocar a investida para que o toiro acometa sobre ele. | O Mandar será a segunda relação técnico/temporal que se realiza na Pega, pois é o momento em que o forcado da cara, carrega a sorte tomando a decisão de provocar a investida para que o toiro acometa sobre ele. | ||
| − | + | - Templar | |
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O Templar será a terceira relação técnico/temporal inserida na arte de pegar, pois significa a forma como o forcado da cara comanda a investida do toiro, ajustando a sua velocidade à velocidade imprimida pelo oponente, recuando de forma centrada, de maneira a que este seja obrigado a reduzir a velocidade, permitido realizar um bom acoplamento ao forcado da cara. | O Templar será a terceira relação técnico/temporal inserida na arte de pegar, pois significa a forma como o forcado da cara comanda a investida do toiro, ajustando a sua velocidade à velocidade imprimida pelo oponente, recuando de forma centrada, de maneira a que este seja obrigado a reduzir a velocidade, permitido realizar um bom acoplamento ao forcado da cara. | ||
| − | + | - Reunir | |
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A reunião é a quarta relação técnico/temporal bem definida na Pega e de extrema importância, pois se não houver reunião com o Forcado da cara não há pega. Consiste no momento em que toiro mete a cara ao forcado (da cara) para o colher. Pretende-se que a reunião esteja dotada de uma boa técnica para que o forcado se possa acoplar ao toiro da melhor forma e agarrar-se de modo eficiente. Se a reunião for defeituosa pode causar danos físicos ao forcado, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, pode também originar espetacularidade na pega, caso (raro) o forcado consiga aguentar os derrotes do toiro apesar da reunião defeituosa. | A reunião é a quarta relação técnico/temporal bem definida na Pega e de extrema importância, pois se não houver reunião com o Forcado da cara não há pega. Consiste no momento em que toiro mete a cara ao forcado (da cara) para o colher. Pretende-se que a reunião esteja dotada de uma boa técnica para que o forcado se possa acoplar ao toiro da melhor forma e agarrar-se de modo eficiente. Se a reunião for defeituosa pode causar danos físicos ao forcado, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, pode também originar espetacularidade na pega, caso (raro) o forcado consiga aguentar os derrotes do toiro apesar da reunião defeituosa. | ||
| − | + | - Imobilizar (Parar) | |
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Imobilizar é a quinta relação técnico/temporal e o último tempo da pega, a que permite consumar a pega. Como o próprio nome indica, significa parar o toiro dominado e deixá-lo à mercê da mão do Homem. Tem uma simbologia subentendida como a morte do toiro, na consideração da pega como remate da lide a cavalo. | Imobilizar é a quinta relação técnico/temporal e o último tempo da pega, a que permite consumar a pega. Como o próprio nome indica, significa parar o toiro dominado e deixá-lo à mercê da mão do Homem. Tem uma simbologia subentendida como a morte do toiro, na consideração da pega como remate da lide a cavalo. | ||
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| − | + | A) Pega de Caras | |
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- À Barbela | - À Barbela | ||
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A pega de caras assumiu sem dúvida em Portugal e no mundo a predominância quase absoluta. É protagonizado pelos forcados, encerrando em si conceitos como a valentia, a nobreza, a humildade, e também o autodomínio e a superação do medo. Sem dúvida, um autêntico símbolo de Portugal. A pega à barbela é a mais usada, e permite ao forcado atualmente praticar uma pega de técnica evoluída. Realiza-se quando o forcado reúne e se dobra sobre a cara do toiro lançando os seus braços à barbela, abraçando o pescoço do animal e fixando-os de uma forma eficaz, ficando totalmente enganchado (ou embarbelado) no cacho do toiro. Este tipo de execução de pega permite ainda ao forcado da cara passar da barbela para a córnea, nos toiros mais violentos, concretizando assim a pega. | A pega de caras assumiu sem dúvida em Portugal e no mundo a predominância quase absoluta. É protagonizado pelos forcados, encerrando em si conceitos como a valentia, a nobreza, a humildade, e também o autodomínio e a superação do medo. Sem dúvida, um autêntico símbolo de Portugal. A pega à barbela é a mais usada, e permite ao forcado atualmente praticar uma pega de técnica evoluída. Realiza-se quando o forcado reúne e se dobra sobre a cara do toiro lançando os seus braços à barbela, abraçando o pescoço do animal e fixando-os de uma forma eficaz, ficando totalmente enganchado (ou embarbelado) no cacho do toiro. Este tipo de execução de pega permite ainda ao forcado da cara passar da barbela para a córnea, nos toiros mais violentos, concretizando assim a pega. | ||
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- À Córnea | - À Córnea | ||
| − | |||
A pega à córnea, da mesma maneira que a pega à barbela, realiza-se quando o forcado reúne com o toiro e, ao dobrar-se sobre a sua cara, leva os seus braços a engancharem-se na córnea. De realçar que é uma técnica em que os seus executantes têm um jeito natural para a realizar, permitindo até uma pega de técnica menos apurada, na medida que permite ao forcado consentir menos o toiro na sua reunião. | A pega à córnea, da mesma maneira que a pega à barbela, realiza-se quando o forcado reúne com o toiro e, ao dobrar-se sobre a sua cara, leva os seus braços a engancharem-se na córnea. De realçar que é uma técnica em que os seus executantes têm um jeito natural para a realizar, permitindo até uma pega de técnica menos apurada, na medida que permite ao forcado consentir menos o toiro na sua reunião. | ||
| − | + | - Pega a Sesgo | |
| − | |||
Técnica de pega de caras, utilizada em toiros difíceis que, por qualquer razão, têm pouca aptidão para investir e estão muito “enquerençados” em tábuas, não incrementando sequer um tempo de investida que permita efetuar ao forcado uma pega na linha de um diâmetro da arena. Assim, o forcado e o grupo aparecem ao toiro de forma secante em relação à trincheira, aproveitando a investida por recorrido das tábuas, ao mesmo tempo que se usufrui da crença do toiro ao longo das mesmas como conforto de desmoralização do mesmo, permitindo desta forma que ele se deixe pegar. | Técnica de pega de caras, utilizada em toiros difíceis que, por qualquer razão, têm pouca aptidão para investir e estão muito “enquerençados” em tábuas, não incrementando sequer um tempo de investida que permita efetuar ao forcado uma pega na linha de um diâmetro da arena. Assim, o forcado e o grupo aparecem ao toiro de forma secante em relação à trincheira, aproveitando a investida por recorrido das tábuas, ao mesmo tempo que se usufrui da crença do toiro ao longo das mesmas como conforto de desmoralização do mesmo, permitindo desta forma que ele se deixe pegar. | ||
| − | + | - Pega ao Sopé | |
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A pega ao sopé pressupõe o forcado aparecer à “pombinha do rabo”, isto é, ir muito em curto ao toiro, estando este de cara voltada para as tábuas e de costas para o forcado da cara e restante grupo. Este tipo de pega é utilizado nos toiros com muito “sentido” e que tenham poucas condições para investir, manifestando muita crença em tábuas e até dificuldade em meter a cara ao forcado, saindo por vezes com meia investida e a derrotar. Esta sorte era muito utilizada no tempo do toiro corrido, nomeadamente como recurso e objetivamente com o intuito de “agarrar a rês”. Hoje em dia é muito pouco praticada em praça. | A pega ao sopé pressupõe o forcado aparecer à “pombinha do rabo”, isto é, ir muito em curto ao toiro, estando este de cara voltada para as tábuas e de costas para o forcado da cara e restante grupo. Este tipo de pega é utilizado nos toiros com muito “sentido” e que tenham poucas condições para investir, manifestando muita crença em tábuas e até dificuldade em meter a cara ao forcado, saindo por vezes com meia investida e a derrotar. Esta sorte era muito utilizada no tempo do toiro corrido, nomeadamente como recurso e objetivamente com o intuito de “agarrar a rês”. Hoje em dia é muito pouco praticada em praça. | ||
| − | + | - Pega à Meia Volta | |
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A pega à meia volta é utilizada também com toiros que imponham dificuldades aos forcados no capítulo da investida (bastante curta) e a manifestarem pouca vontade de meter a cara, criando problemas na reunião com o forcado no momento de consumar a sorte. O toiro, normalmente fechado em tábuas (“enquerençado”), por vezes “rachado”, deve ser distraído para que o forcado em terrenos curtos possa aparecer ao toiro de uma forma rápida e surpreendente. Tipo de Pega que não permite dar vantagens aos toiros, pelas condições de lide apresentadas pelos mesmos, pode-se considerar uma pega de recurso. | A pega à meia volta é utilizada também com toiros que imponham dificuldades aos forcados no capítulo da investida (bastante curta) e a manifestarem pouca vontade de meter a cara, criando problemas na reunião com o forcado no momento de consumar a sorte. O toiro, normalmente fechado em tábuas (“enquerençado”), por vezes “rachado”, deve ser distraído para que o forcado em terrenos curtos possa aparecer ao toiro de uma forma rápida e surpreendente. Tipo de Pega que não permite dar vantagens aos toiros, pelas condições de lide apresentadas pelos mesmos, pode-se considerar uma pega de recurso. | ||
| − | + | - Pega à Ponta do Capote | |
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A pega à ponta do capote era também uma sorte que os forcados utilizavam nos toiros que apresentavam poucas condições de lide e pouca investida. Procurava-se assim que o toiro investisse primeiro no capote, aparecendo-lhe o forcado da cara pela frente, aproveitando o recorrido da investida à ponta do capote para se reunir com o animal. É uma pega considerada também “de recurso”. Era uma técnica também muito utilizada no tempo do toiro corrido, muito avisado na pega, que por vezes “ topava alto” na silhueta do forcado. | A pega à ponta do capote era também uma sorte que os forcados utilizavam nos toiros que apresentavam poucas condições de lide e pouca investida. Procurava-se assim que o toiro investisse primeiro no capote, aparecendo-lhe o forcado da cara pela frente, aproveitando o recorrido da investida à ponta do capote para se reunir com o animal. É uma pega considerada também “de recurso”. Era uma técnica também muito utilizada no tempo do toiro corrido, muito avisado na pega, que por vezes “ topava alto” na silhueta do forcado. | ||
| − | + | - Pega da Cadeira | |
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A Pega da Cadeira é executada, dentro da ação normal da pega de caras, tendo o forcado da cara, como adereço, uma cadeira, que é aproveitada enquanto cita o toiro. Senta-se batendo as palmas e, no momento que o toiro investe sobre ele, consente-o até lhe meter a cara pegando sentado. Trata-se de uma sorte diferenciada na pega de caras, pois tem a nuance da utilização de uma cadeira, proporcionando muita emoção junto do público. Pega exigente para os forcados que a executam, no sentido de terem que ter um bom par de braços, pois esta pega, como não permite recuar e templar provoca um forte impacto no forcado da cara. A cadeira, por sua vez, também causa perigo ao restante grupo. Atualmente não tem grande visibilidade nem presença na arte de pegar toiros. | A Pega da Cadeira é executada, dentro da ação normal da pega de caras, tendo o forcado da cara, como adereço, uma cadeira, que é aproveitada enquanto cita o toiro. Senta-se batendo as palmas e, no momento que o toiro investe sobre ele, consente-o até lhe meter a cara pegando sentado. Trata-se de uma sorte diferenciada na pega de caras, pois tem a nuance da utilização de uma cadeira, proporcionando muita emoção junto do público. Pega exigente para os forcados que a executam, no sentido de terem que ter um bom par de braços, pois esta pega, como não permite recuar e templar provoca um forte impacto no forcado da cara. A cadeira, por sua vez, também causa perigo ao restante grupo. Atualmente não tem grande visibilidade nem presença na arte de pegar toiros. | ||
| − | + | - Pega “Sorte de Gaiola” | |
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Esta sorte realiza-se pegando a rês à saída dos curros. O grupo e o forcado da cara formam-se em frente à porta dos Curros (Gaiola) dando uma distância que permita a rês ver o forcado ao sair. É uma sorte que não se insere no conceito atual da pega, uma vez que não tem como registo todos os tempos a ela subjacentes. É uma “Pega” utilizada algumas vezes nos treinos de forcados e em algumas demonstrações de pegas em público. Tem como propósito testar a capacidade física e moral de um grupo de forcados, propondo-lhe um elevado risco de execução num primeiro estado de investida da rês que sai do escuro de um curral e tem logo pela frente um grupo de homens para a imobilizar. Este confronto tem por inerência muita mobilidade e força da rês potenciando muito o risco para o forcado e o grupo, por se encontrar num estado chamado “bruto” ou “inteiro” do animal, assumindo uma investida num estado ”levantado“, sinónimo de pouca coerência no seu comportamento, tornando assim este frente a frente desligado da arte que a pega deve encerrar em si. | Esta sorte realiza-se pegando a rês à saída dos curros. O grupo e o forcado da cara formam-se em frente à porta dos Curros (Gaiola) dando uma distância que permita a rês ver o forcado ao sair. É uma sorte que não se insere no conceito atual da pega, uma vez que não tem como registo todos os tempos a ela subjacentes. É uma “Pega” utilizada algumas vezes nos treinos de forcados e em algumas demonstrações de pegas em público. Tem como propósito testar a capacidade física e moral de um grupo de forcados, propondo-lhe um elevado risco de execução num primeiro estado de investida da rês que sai do escuro de um curral e tem logo pela frente um grupo de homens para a imobilizar. Este confronto tem por inerência muita mobilidade e força da rês potenciando muito o risco para o forcado e o grupo, por se encontrar num estado chamado “bruto” ou “inteiro” do animal, assumindo uma investida num estado ”levantado“, sinónimo de pouca coerência no seu comportamento, tornando assim este frente a frente desligado da arte que a pega deve encerrar em si. | ||
| − | + | - Pega do Número | |
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Pega de caras em que o forcado da cara salta sozinho para a praça, ou então quando começa a preparar-se para o cite, convida o grupo a sair da arena, num gesto temerário, e cita o toiro de largo com o grupo dentro da trincheira. Quando o animal investe e acomete sobre o forcado, o restante grupo salta à praça para o ajudar a consumar a sorte. É uma pega que gera alguma polémica entre a rapaziada das ramagens, pelo facto de representar um ato que alguns consideram exibicionista, numa ação que inferioriza a importância relevante das ajudas na pega. Fazendo estas parte integrante dos tempos de entrada e imobilização do toiro, é graças a elas que o forcado pode consumar a pega. De resto, muitas vezes cria uma ilusão da valentia de um homem só, quando na verdade o grupo chega no ponto em que teria chegado se estivesse em praça desde o início. Hoje em dia também é uma sorte com pouca expressão, pouco utilizada pelos forcados nacionais, porque considera-se importante manter a máxima de que a pega de caras é executada sempre por oito elementos do grupo, e não só por um. | Pega de caras em que o forcado da cara salta sozinho para a praça, ou então quando começa a preparar-se para o cite, convida o grupo a sair da arena, num gesto temerário, e cita o toiro de largo com o grupo dentro da trincheira. Quando o animal investe e acomete sobre o forcado, o restante grupo salta à praça para o ajudar a consumar a sorte. É uma pega que gera alguma polémica entre a rapaziada das ramagens, pelo facto de representar um ato que alguns consideram exibicionista, numa ação que inferioriza a importância relevante das ajudas na pega. Fazendo estas parte integrante dos tempos de entrada e imobilização do toiro, é graças a elas que o forcado pode consumar a pega. De resto, muitas vezes cria uma ilusão da valentia de um homem só, quando na verdade o grupo chega no ponto em que teria chegado se estivesse em praça desde o início. Hoje em dia também é uma sorte com pouca expressão, pouco utilizada pelos forcados nacionais, porque considera-se importante manter a máxima de que a pega de caras é executada sempre por oito elementos do grupo, e não só por um. | ||
| − | + | B) Pega de Cernelha | |
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A pega de cernelha é sem dúvida a modalidade com mais movimento na sua execução, e talvez a mais difícil de pôr em prática, uma vez que a sua execução está dependente de vários fatores, que podem condicionar o seu êxito, nomeadamente a qualidade do jogo de cabrestos e a arte de saber encabrestar por parte dos campinos. A pega de cernelha é feita por dois forcados, o cernelheiro e o rabejador. Ao invés da pega de caras, quem toma a iniciativa de se arrancar com o toiro é a dupla de forcados. A entrada dos dois forcados deve ser feita em simultâneo, de uma forma rápida e atempada que permita a colocação do cernelheiro na “cola” (lado esquerdo) do toiro, e a colocação do rabejador na traseira, agarrando o rabo de maneira a permitir a condução da pega e subsequentemente o domínio do toiro até este ficar imobilizado. Esta pega é de extrema importância porque permite ao grupo pegar o toiro quando este não tem condições para se realizar a pega de caras, sejam elas de caracter morfológico, ou resultante de outros condicionalismos comportamentais (como rematar alto ou até não querer meter a cara). Esta pega por vezes também é utilizada como pega de recurso, sendo talvez a pega mais espetacular, quando bem executada, e de mais difícil execução técnica. Todos os posicionamentos da dupla em praça, e suas decisões, têm um efeito crucial no êxito da sua concretização. Decisões iniciadas e abortadas nesta sorte poderão despertar “sentido” no toiro, tornando mais difícil a entrada do cernelheiro e rabejador, podendo inviabilizar a execução da pega. | A pega de cernelha é sem dúvida a modalidade com mais movimento na sua execução, e talvez a mais difícil de pôr em prática, uma vez que a sua execução está dependente de vários fatores, que podem condicionar o seu êxito, nomeadamente a qualidade do jogo de cabrestos e a arte de saber encabrestar por parte dos campinos. A pega de cernelha é feita por dois forcados, o cernelheiro e o rabejador. Ao invés da pega de caras, quem toma a iniciativa de se arrancar com o toiro é a dupla de forcados. A entrada dos dois forcados deve ser feita em simultâneo, de uma forma rápida e atempada que permita a colocação do cernelheiro na “cola” (lado esquerdo) do toiro, e a colocação do rabejador na traseira, agarrando o rabo de maneira a permitir a condução da pega e subsequentemente o domínio do toiro até este ficar imobilizado. Esta pega é de extrema importância porque permite ao grupo pegar o toiro quando este não tem condições para se realizar a pega de caras, sejam elas de caracter morfológico, ou resultante de outros condicionalismos comportamentais (como rematar alto ou até não querer meter a cara). Esta pega por vezes também é utilizada como pega de recurso, sendo talvez a pega mais espetacular, quando bem executada, e de mais difícil execução técnica. Todos os posicionamentos da dupla em praça, e suas decisões, têm um efeito crucial no êxito da sua concretização. Decisões iniciadas e abortadas nesta sorte poderão despertar “sentido” no toiro, tornando mais difícil a entrada do cernelheiro e rabejador, podendo inviabilizar a execução da pega. | ||
| − | + | C) Pega de Costas | |
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A pega de costas teve em Portugal muitos bons executantes. Esta pega acentua um elevado risco na sua execução e atualmente caiu em desuso. Constitui uma variante da pega tradicional (de caras) mas realizada de costas. É executada com o toiro em tábuas, e o mesmo acontece ao forcado que vai executar a sorte posicionando-se lateralmente ao toiro a uma distância que lhe permita citar na trincheira correndo para frente da cara do toiro e na direção do grupo de forcados, colocado nos últimos tércios da praça para o ajudar. É uma pega de reunião difícil fisicamente, uma vez que o forcado recebe o toiro na sua coluna vertebral, não permitindo, desta forma, o acoplamento natural. Esta sorte é sempre executada à córnea e, geralmente, é realizada a toiros com uma investida “franca” e “fáceis”, que são conhecidos na gíria taurina como “babosas”. Sendo vistosa, acrescenta a “alegria” que o toiro não tem. | A pega de costas teve em Portugal muitos bons executantes. Esta pega acentua um elevado risco na sua execução e atualmente caiu em desuso. Constitui uma variante da pega tradicional (de caras) mas realizada de costas. É executada com o toiro em tábuas, e o mesmo acontece ao forcado que vai executar a sorte posicionando-se lateralmente ao toiro a uma distância que lhe permita citar na trincheira correndo para frente da cara do toiro e na direção do grupo de forcados, colocado nos últimos tércios da praça para o ajudar. É uma pega de reunião difícil fisicamente, uma vez que o forcado recebe o toiro na sua coluna vertebral, não permitindo, desta forma, o acoplamento natural. Esta sorte é sempre executada à córnea e, geralmente, é realizada a toiros com uma investida “franca” e “fáceis”, que são conhecidos na gíria taurina como “babosas”. Sendo vistosa, acrescenta a “alegria” que o toiro não tem. | ||
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| − | + | D) Pega de Largo | |
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A pega de largo, vulgo pega de praça a praça, foca-se num cite de largo tirando assim o forcado partido de uma investida de longe a um toiro codicioso e voluntarioso, que se arranca com alegria ao forcado a uma grande distância. Este dá-lhe todas as vantagens em praça. Esta pega de caras emociona o público de tal forma que, quando resulta, põe a praça em pé. | A pega de largo, vulgo pega de praça a praça, foca-se num cite de largo tirando assim o forcado partido de uma investida de longe a um toiro codicioso e voluntarioso, que se arranca com alegria ao forcado a uma grande distância. Este dá-lhe todas as vantagens em praça. Esta pega de caras emociona o público de tal forma que, quando resulta, põe a praça em pé. | ||
| − | + | E) Pega a Meia Praça | |
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A pega a meia praça, ou nos médios, também é revestida de uma singularidade única, formatada num cite até meia praça, fazendo com que o toiro se arranque com o forcado a uma distância considerável (meia praça), permitindo também ao forcado dar todas as vantagens ao seu oponente, tirando partido da espetacularidade da velocidade do toiro e subsequentemente realizar uma pega com técnica e arte de um verdadeiro toureio bordado a ouro. É de realçar que nesta Sorte o “templar” e a “reunião” são tempos fundamentais na execução da pega, porque todo o movimento imprimido na investida do toiro no espaço obriga a estes tempos bem delineados, para objetivamente se consumar a pega, uma vez que através do “templar” o forcado consegue comandar a investida, permitindo reduzir a velocidade e assim executar uma boa reunião com o toiro. | A pega a meia praça, ou nos médios, também é revestida de uma singularidade única, formatada num cite até meia praça, fazendo com que o toiro se arranque com o forcado a uma distância considerável (meia praça), permitindo também ao forcado dar todas as vantagens ao seu oponente, tirando partido da espetacularidade da velocidade do toiro e subsequentemente realizar uma pega com técnica e arte de um verdadeiro toureio bordado a ouro. É de realçar que nesta Sorte o “templar” e a “reunião” são tempos fundamentais na execução da pega, porque todo o movimento imprimido na investida do toiro no espaço obriga a estes tempos bem delineados, para objetivamente se consumar a pega, uma vez que através do “templar” o forcado consegue comandar a investida, permitindo reduzir a velocidade e assim executar uma boa reunião com o toiro. | ||
| − | + | F) Pega nos Tércios | |
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A pega nos tércios é talvez a mais praticada, porque dentro de todos os espaços (terrenos), é a que resulta da distância mais comum na investida do toiro para o forcado. Daí nesta execução da pega os cites serem largos e vistosos, permitindo ao forcado encontrar o espaço para que a investida se concretize, e tirar todo o partido que o toiro possa oferecer para executar a pega segundo os seus mandamentos. Também é muito natural nesta execução o forcado ter que “alegrar” o toiro, carregando a sorte para que este traga mais convicção na sua acometida | A pega nos tércios é talvez a mais praticada, porque dentro de todos os espaços (terrenos), é a que resulta da distância mais comum na investida do toiro para o forcado. Daí nesta execução da pega os cites serem largos e vistosos, permitindo ao forcado encontrar o espaço para que a investida se concretize, e tirar todo o partido que o toiro possa oferecer para executar a pega segundo os seus mandamentos. Também é muito natural nesta execução o forcado ter que “alegrar” o toiro, carregando a sorte para que este traga mais convicção na sua acometida | ||
| − | + | G) Pega em Curto | |
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A pega em curto, como o próprio nome refere, é uma modalidade da pega de caras que se efetua num espaço de alguma forma reduzido. Por si só, indica que o toiro é “reservado”, com pouco tempo de investida (curta), obrigando o forcado de caras e o grupo a subirem um pouco no terreno, perspetivando-se sempre uma grande emoção, porque não garante um comportamento franco por parte do toiro para a pega. Pressupõe um toiro a “medir” o forcado, e este mesmo forcado a ter de possuir capacidades físicas e psicológicas que lhe permitam atingir com sucesso o domínio sobre o toiro. | A pega em curto, como o próprio nome refere, é uma modalidade da pega de caras que se efetua num espaço de alguma forma reduzido. Por si só, indica que o toiro é “reservado”, com pouco tempo de investida (curta), obrigando o forcado de caras e o grupo a subirem um pouco no terreno, perspetivando-se sempre uma grande emoção, porque não garante um comportamento franco por parte do toiro para a pega. Pressupõe um toiro a “medir” o forcado, e este mesmo forcado a ter de possuir capacidades físicas e psicológicas que lhe permitam atingir com sucesso o domínio sobre o toiro. | ||
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Tudo isto origina um modelo de escola de virtudes para homens, instalado no grupo informal, definindo fortemente o seu comportamento existencial no mundo que o rodeia e onde se inter-relaciona, tornando-se numa forma diferente de sentir a vida. | Tudo isto origina um modelo de escola de virtudes para homens, instalado no grupo informal, definindo fortemente o seu comportamento existencial no mundo que o rodeia e onde se inter-relaciona, tornando-se numa forma diferente de sentir a vida. | ||
| − | + | [[Ficheiro:TP 1 (créditos Hugo Calado).jpg|miniaturadaimagem|“A Espectacularidade da Pega”. Pega de João Rui Salgueiro (GFA Aposento da Chamusca) a um toiro da ganadaria Fontembro, na Praça de Toiros da Chamusca.]] | |
'''A Pega como Sorte do Toureio na Razão Inversa do Engano''' | '''A Pega como Sorte do Toureio na Razão Inversa do Engano''' | ||
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A pega assenta, sem dúvida, no binómio toiro/forcado. Implica um frente a frente desafiante no que concerne à moral do homem em confronto com a do animal. É um confronto real, entre duas realidades físicas muito diferentes, mas no que diz respeito à moral entre animal racional (Homem) e o animal irracional (toiro) existe muita coisa em comum, e acaba por ser um desafio em que vence aquele com maior valor moral. A pega permite ao homem, através da sua técnica, testar a sua moral perante o animal. A capacidade física do forcado na pega é de extrema importância para que este se sinta confiante. É um alicerce para superar algumas contrariedades impostas pelo toiro e elevar a moral do Homem. Neste confronto o Forcado deve utilizar todas as suas aptidões físicas em pleno, que lhe permitam fazer com que o toiro desmoralize e se entregue ao domínio do forcado. O toiro só se deixa pegar quando vai desmoralizando ao sentir-se desafiado na tentativa de ser imobilizado. Uns toiros entregam-se mais facilmente que outros, dependendo muito das suas características genéticas (casta) e pelos “encastes” que tipificam os seus comportamentos durante a lide. Mas a todos os forcados emprestam, com a mesma generosidade, a coragem e o valor que permitem que todos possam ser pegados. | A pega assenta, sem dúvida, no binómio toiro/forcado. Implica um frente a frente desafiante no que concerne à moral do homem em confronto com a do animal. É um confronto real, entre duas realidades físicas muito diferentes, mas no que diz respeito à moral entre animal racional (Homem) e o animal irracional (toiro) existe muita coisa em comum, e acaba por ser um desafio em que vence aquele com maior valor moral. A pega permite ao homem, através da sua técnica, testar a sua moral perante o animal. A capacidade física do forcado na pega é de extrema importância para que este se sinta confiante. É um alicerce para superar algumas contrariedades impostas pelo toiro e elevar a moral do Homem. Neste confronto o Forcado deve utilizar todas as suas aptidões físicas em pleno, que lhe permitam fazer com que o toiro desmoralize e se entregue ao domínio do forcado. O toiro só se deixa pegar quando vai desmoralizando ao sentir-se desafiado na tentativa de ser imobilizado. Uns toiros entregam-se mais facilmente que outros, dependendo muito das suas características genéticas (casta) e pelos “encastes” que tipificam os seus comportamentos durante a lide. Mas a todos os forcados emprestam, com a mesma generosidade, a coragem e o valor que permitem que todos possam ser pegados. | ||
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Edição atual desde as 10h21min de 24 de maio de 2021
A PEGA Tiago Prestes
Cabo fundador do GFA Aposento da Chamusca Enquadramento Histórico Da Pega
Apesar de várias teorias atribuídas à origem da pega, podemos afirmar que a mesma surge no período em que o homem define uma nova forma de preservar a sua sobrevivência através da sua sedentarização e da adaptação a uma nova base alimentar. Numa ação lógica da sua proveniência, a mesma terá resultado no enraizamento agrícola e no contacto entre o Homem e o Toiro decorrente das atividades de maneio (ferras, monteiros das chocas e apartamentos de Gado). No decurso destas atividades laborais surgem várias situações de emergência defensiva que potenciam o comportamento do Homem no desenvolvimento das bases que permitiram atingir a técnica da pega como hoje a conhecemos. Neste sentido realçamos as tralhoadas, tarefa a que era sujeito o toiro bravo consistente em trabalhos de campo na conjugação direta de esforços com o homem na produção agrícola.
A Pega ganha um estatuto formal a partir de 1836, no reinado de D.ª Maria II, quando por ordem desta foi proibida a morte dos toiros em praça, passando a pega a ser executada por um grupo de homens (moços de forcado) como remate das lides equestres. A pega substituiu assim a morte física do toiro em praça, representando do mesmo modo a sua submissão às mãos do Homem (subentendendo a sua morte). Inicialmente a execução da pega era campesina e caótica, não tendo uma forma organizada. Era executada em curto por um grupo desordenado e sem rigor técnico que avançava sobre o toiro. Assim surgiu um conceito muito rústico do que viria a ser mais tarde a pega. A presença do toiro corrido nas praças obrigava que a pega fosse mais um exercício de força, já que os toiros não se deixavam pegar de outro modo. Nessa fase, os grupos apresentavam já oito elementos em praça evidenciando aquele que viria a ser o formato atual. Mais tarde, a imposição do toiro puro nas praças pelo cavaleiro Mestre João Branco Núncio aporta para a pega novos horizontes, desenvolvendo a sua génese, aproximando-se agora e, cada vez mais, do toureio, definindo os tempos da pega. É D. Fernando de Mascarenhas, forcado e antigo cabo do GFA de Santarém, quem começa a explorar esta evolução nos toiros, procurando dar-lhes distância, com um cite de largo e vistoso definindo outra postura organizacional do grupo em praça, conferindo à pega um cariz de espetacularidade que chega aos nossos dias. Podemos afirmar, ainda, que a pega deixa de ser um simples ato de agarrar o toiro e começa a converter-se cada vez mais numa forma de toureio, com regras e tempos para a sua execução, organizada e dotada de técnica. Esta forma permite ao forcado interpretá-la com a sua sensibilidade e de forma personalizada.
A Pega é uma arte de toureio sustentada numa ação técnica que permite ao forcado (Homem) obter o domínio sobre o seu oponente toiro (Animal).
Quem executa a pega é o Grupo de Forcados constituído por dois elementos (no caso da Pega de Cernelha) ou oito elementos (no caso da Pega de Caras), com funções definidas nas execuções das mesmas. A Pega de Cernelha é executada por dois elementos, um cernelheiro e um rabejador. A pega de caras assumiu verdadeiramente o símbolo da Pega tradicional em Portugal, sendo o grupo que a executa constituído pelo Cara, um Primeiro Ajuda, dois Segundos Ajudas, um Rabejador e três Terceiros Ajudas.
- Cite O Cite é a primeira relação técnico/temporal que fundamenta o início da Pega, e consiste num convite à investida do Toiro mais ou menos prolongado no tempo, permitindo ao forcado mostrar-se ao toiro. Serve como indicador do tempo e espaço para sacar a investida, devendo ser feita de uma forma enquadrada e a passo lento, num movimento retilíneo, elegante e harmonioso. O saber pisar, a voz, bater palmas, e o alegrar são itens preponderantes a um bom cite.
O Mandar será a segunda relação técnico/temporal que se realiza na Pega, pois é o momento em que o forcado da cara, carrega a sorte tomando a decisão de provocar a investida para que o toiro acometa sobre ele.
O Templar será a terceira relação técnico/temporal inserida na arte de pegar, pois significa a forma como o forcado da cara comanda a investida do toiro, ajustando a sua velocidade à velocidade imprimida pelo oponente, recuando de forma centrada, de maneira a que este seja obrigado a reduzir a velocidade, permitido realizar um bom acoplamento ao forcado da cara.
A reunião é a quarta relação técnico/temporal bem definida na Pega e de extrema importância, pois se não houver reunião com o Forcado da cara não há pega. Consiste no momento em que toiro mete a cara ao forcado (da cara) para o colher. Pretende-se que a reunião esteja dotada de uma boa técnica para que o forcado se possa acoplar ao toiro da melhor forma e agarrar-se de modo eficiente. Se a reunião for defeituosa pode causar danos físicos ao forcado, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, pode também originar espetacularidade na pega, caso (raro) o forcado consiga aguentar os derrotes do toiro apesar da reunião defeituosa.
Imobilizar é a quinta relação técnico/temporal e o último tempo da pega, a que permite consumar a pega. Como o próprio nome indica, significa parar o toiro dominado e deixá-lo à mercê da mão do Homem. Tem uma simbologia subentendida como a morte do toiro, na consideração da pega como remate da lide a cavalo.
- À Barbela A pega de caras assumiu sem dúvida em Portugal e no mundo a predominância quase absoluta. É protagonizado pelos forcados, encerrando em si conceitos como a valentia, a nobreza, a humildade, e também o autodomínio e a superação do medo. Sem dúvida, um autêntico símbolo de Portugal. A pega à barbela é a mais usada, e permite ao forcado atualmente praticar uma pega de técnica evoluída. Realiza-se quando o forcado reúne e se dobra sobre a cara do toiro lançando os seus braços à barbela, abraçando o pescoço do animal e fixando-os de uma forma eficaz, ficando totalmente enganchado (ou embarbelado) no cacho do toiro. Este tipo de execução de pega permite ainda ao forcado da cara passar da barbela para a córnea, nos toiros mais violentos, concretizando assim a pega.
A pega à córnea, da mesma maneira que a pega à barbela, realiza-se quando o forcado reúne com o toiro e, ao dobrar-se sobre a sua cara, leva os seus braços a engancharem-se na córnea. De realçar que é uma técnica em que os seus executantes têm um jeito natural para a realizar, permitindo até uma pega de técnica menos apurada, na medida que permite ao forcado consentir menos o toiro na sua reunião.
Técnica de pega de caras, utilizada em toiros difíceis que, por qualquer razão, têm pouca aptidão para investir e estão muito “enquerençados” em tábuas, não incrementando sequer um tempo de investida que permita efetuar ao forcado uma pega na linha de um diâmetro da arena. Assim, o forcado e o grupo aparecem ao toiro de forma secante em relação à trincheira, aproveitando a investida por recorrido das tábuas, ao mesmo tempo que se usufrui da crença do toiro ao longo das mesmas como conforto de desmoralização do mesmo, permitindo desta forma que ele se deixe pegar.
A pega ao sopé pressupõe o forcado aparecer à “pombinha do rabo”, isto é, ir muito em curto ao toiro, estando este de cara voltada para as tábuas e de costas para o forcado da cara e restante grupo. Este tipo de pega é utilizado nos toiros com muito “sentido” e que tenham poucas condições para investir, manifestando muita crença em tábuas e até dificuldade em meter a cara ao forcado, saindo por vezes com meia investida e a derrotar. Esta sorte era muito utilizada no tempo do toiro corrido, nomeadamente como recurso e objetivamente com o intuito de “agarrar a rês”. Hoje em dia é muito pouco praticada em praça.
A pega à meia volta é utilizada também com toiros que imponham dificuldades aos forcados no capítulo da investida (bastante curta) e a manifestarem pouca vontade de meter a cara, criando problemas na reunião com o forcado no momento de consumar a sorte. O toiro, normalmente fechado em tábuas (“enquerençado”), por vezes “rachado”, deve ser distraído para que o forcado em terrenos curtos possa aparecer ao toiro de uma forma rápida e surpreendente. Tipo de Pega que não permite dar vantagens aos toiros, pelas condições de lide apresentadas pelos mesmos, pode-se considerar uma pega de recurso.
A pega à ponta do capote era também uma sorte que os forcados utilizavam nos toiros que apresentavam poucas condições de lide e pouca investida. Procurava-se assim que o toiro investisse primeiro no capote, aparecendo-lhe o forcado da cara pela frente, aproveitando o recorrido da investida à ponta do capote para se reunir com o animal. É uma pega considerada também “de recurso”. Era uma técnica também muito utilizada no tempo do toiro corrido, muito avisado na pega, que por vezes “ topava alto” na silhueta do forcado.
A Pega da Cadeira é executada, dentro da ação normal da pega de caras, tendo o forcado da cara, como adereço, uma cadeira, que é aproveitada enquanto cita o toiro. Senta-se batendo as palmas e, no momento que o toiro investe sobre ele, consente-o até lhe meter a cara pegando sentado. Trata-se de uma sorte diferenciada na pega de caras, pois tem a nuance da utilização de uma cadeira, proporcionando muita emoção junto do público. Pega exigente para os forcados que a executam, no sentido de terem que ter um bom par de braços, pois esta pega, como não permite recuar e templar provoca um forte impacto no forcado da cara. A cadeira, por sua vez, também causa perigo ao restante grupo. Atualmente não tem grande visibilidade nem presença na arte de pegar toiros.
Esta sorte realiza-se pegando a rês à saída dos curros. O grupo e o forcado da cara formam-se em frente à porta dos Curros (Gaiola) dando uma distância que permita a rês ver o forcado ao sair. É uma sorte que não se insere no conceito atual da pega, uma vez que não tem como registo todos os tempos a ela subjacentes. É uma “Pega” utilizada algumas vezes nos treinos de forcados e em algumas demonstrações de pegas em público. Tem como propósito testar a capacidade física e moral de um grupo de forcados, propondo-lhe um elevado risco de execução num primeiro estado de investida da rês que sai do escuro de um curral e tem logo pela frente um grupo de homens para a imobilizar. Este confronto tem por inerência muita mobilidade e força da rês potenciando muito o risco para o forcado e o grupo, por se encontrar num estado chamado “bruto” ou “inteiro” do animal, assumindo uma investida num estado ”levantado“, sinónimo de pouca coerência no seu comportamento, tornando assim este frente a frente desligado da arte que a pega deve encerrar em si.
Pega de caras em que o forcado da cara salta sozinho para a praça, ou então quando começa a preparar-se para o cite, convida o grupo a sair da arena, num gesto temerário, e cita o toiro de largo com o grupo dentro da trincheira. Quando o animal investe e acomete sobre o forcado, o restante grupo salta à praça para o ajudar a consumar a sorte. É uma pega que gera alguma polémica entre a rapaziada das ramagens, pelo facto de representar um ato que alguns consideram exibicionista, numa ação que inferioriza a importância relevante das ajudas na pega. Fazendo estas parte integrante dos tempos de entrada e imobilização do toiro, é graças a elas que o forcado pode consumar a pega. De resto, muitas vezes cria uma ilusão da valentia de um homem só, quando na verdade o grupo chega no ponto em que teria chegado se estivesse em praça desde o início. Hoje em dia também é uma sorte com pouca expressão, pouco utilizada pelos forcados nacionais, porque considera-se importante manter a máxima de que a pega de caras é executada sempre por oito elementos do grupo, e não só por um.
A pega de cernelha é sem dúvida a modalidade com mais movimento na sua execução, e talvez a mais difícil de pôr em prática, uma vez que a sua execução está dependente de vários fatores, que podem condicionar o seu êxito, nomeadamente a qualidade do jogo de cabrestos e a arte de saber encabrestar por parte dos campinos. A pega de cernelha é feita por dois forcados, o cernelheiro e o rabejador. Ao invés da pega de caras, quem toma a iniciativa de se arrancar com o toiro é a dupla de forcados. A entrada dos dois forcados deve ser feita em simultâneo, de uma forma rápida e atempada que permita a colocação do cernelheiro na “cola” (lado esquerdo) do toiro, e a colocação do rabejador na traseira, agarrando o rabo de maneira a permitir a condução da pega e subsequentemente o domínio do toiro até este ficar imobilizado. Esta pega é de extrema importância porque permite ao grupo pegar o toiro quando este não tem condições para se realizar a pega de caras, sejam elas de caracter morfológico, ou resultante de outros condicionalismos comportamentais (como rematar alto ou até não querer meter a cara). Esta pega por vezes também é utilizada como pega de recurso, sendo talvez a pega mais espetacular, quando bem executada, e de mais difícil execução técnica. Todos os posicionamentos da dupla em praça, e suas decisões, têm um efeito crucial no êxito da sua concretização. Decisões iniciadas e abortadas nesta sorte poderão despertar “sentido” no toiro, tornando mais difícil a entrada do cernelheiro e rabejador, podendo inviabilizar a execução da pega.
A pega de costas teve em Portugal muitos bons executantes. Esta pega acentua um elevado risco na sua execução e atualmente caiu em desuso. Constitui uma variante da pega tradicional (de caras) mas realizada de costas. É executada com o toiro em tábuas, e o mesmo acontece ao forcado que vai executar a sorte posicionando-se lateralmente ao toiro a uma distância que lhe permita citar na trincheira correndo para frente da cara do toiro e na direção do grupo de forcados, colocado nos últimos tércios da praça para o ajudar. É uma pega de reunião difícil fisicamente, uma vez que o forcado recebe o toiro na sua coluna vertebral, não permitindo, desta forma, o acoplamento natural. Esta sorte é sempre executada à córnea e, geralmente, é realizada a toiros com uma investida “franca” e “fáceis”, que são conhecidos na gíria taurina como “babosas”. Sendo vistosa, acrescenta a “alegria” que o toiro não tem.
A pega de largo, vulgo pega de praça a praça, foca-se num cite de largo tirando assim o forcado partido de uma investida de longe a um toiro codicioso e voluntarioso, que se arranca com alegria ao forcado a uma grande distância. Este dá-lhe todas as vantagens em praça. Esta pega de caras emociona o público de tal forma que, quando resulta, põe a praça em pé.
A pega a meia praça, ou nos médios, também é revestida de uma singularidade única, formatada num cite até meia praça, fazendo com que o toiro se arranque com o forcado a uma distância considerável (meia praça), permitindo também ao forcado dar todas as vantagens ao seu oponente, tirando partido da espetacularidade da velocidade do toiro e subsequentemente realizar uma pega com técnica e arte de um verdadeiro toureio bordado a ouro. É de realçar que nesta Sorte o “templar” e a “reunião” são tempos fundamentais na execução da pega, porque todo o movimento imprimido na investida do toiro no espaço obriga a estes tempos bem delineados, para objetivamente se consumar a pega, uma vez que através do “templar” o forcado consegue comandar a investida, permitindo reduzir a velocidade e assim executar uma boa reunião com o toiro.
A pega nos tércios é talvez a mais praticada, porque dentro de todos os espaços (terrenos), é a que resulta da distância mais comum na investida do toiro para o forcado. Daí nesta execução da pega os cites serem largos e vistosos, permitindo ao forcado encontrar o espaço para que a investida se concretize, e tirar todo o partido que o toiro possa oferecer para executar a pega segundo os seus mandamentos. Também é muito natural nesta execução o forcado ter que “alegrar” o toiro, carregando a sorte para que este traga mais convicção na sua acometida
A pega em curto, como o próprio nome refere, é uma modalidade da pega de caras que se efetua num espaço de alguma forma reduzido. Por si só, indica que o toiro é “reservado”, com pouco tempo de investida (curta), obrigando o forcado de caras e o grupo a subirem um pouco no terreno, perspetivando-se sempre uma grande emoção, porque não garante um comportamento franco por parte do toiro para a pega. Pressupõe um toiro a “medir” o forcado, e este mesmo forcado a ter de possuir capacidades físicas e psicológicas que lhe permitam atingir com sucesso o domínio sobre o toiro.
A Pega como Sorte do Toureio na Razão Inversa do Engano
De uma forma natural, existe arte na execução da pega e nela estão implementados todos os tempos do Toureio. A pega a pega é assim uma forma de “tourear” a corpo limpo. Tem, no entanto, uma nuance avançada relativamente ao conceito tradicional de toureio, pois na pega o forcado deixa-se “colher” com arte e técnica de uma forma frontal para domínio do seu oponente. Se no toureio as regras básicas de “parar, mandar e templar” visam dominar o toiro evitando a colhida, na pega essas mesmas regras são utilizadas para provocar um encontro de que o homem tende a sair vitorioso, por força da moral, da técnica e da inteligência. Na realidade, a pega é um hino Patriótico à nossa “gente” e à nossa Nação.
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