Diferenças entre edições de "Público"

 
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=== O AFICIONADO ===
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<div class="center" style="width: auto; margin-left: auto; margin-right: auto;">'''O PÚBLICO NOS TOIROS E AS SUAS ESTRUTURAS REPRESENTATIVAS'''</div><br>
  
==== Jorge Carvalho ====
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<div class="center" style="width: auto; margin-left: auto; margin-right: auto;">'''José Nuno Caninhas'''</div>
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<div class="center" style="width: auto; margin-left: auto; margin-right: auto;">'''<small>Presidente da Direção do Clube Taurino de Alcochete</small>'''</div><br>
  
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'''Introdução'''
  
O conceito de aficionado não se restringe à tauromaquia, remetendo-nos para um significado mais amplo de entusiasmo por uma atividade, sobretudo cultural ou desportiva. Mas o dicionário online da Porto Editora – ''Infopédia'' – já nos dá, como primeira entrada, o aficionado como “pessoa que aprecia certos espetáculos, nomeadamente corridas de touros”. A simplicidade desta definição, porém, não é precisa ou rigorosa.
 
  
Enquanto em Espanha se mantém a abrangência do conceito de aficionado gerando-se por vezes equívocos, em Portugal o aficionado está, de facto, exclusivamente associado à tauromaquia. Porém, apesar dessa generalização, o aficionado não está na mesma categoria do público, não é um mero apreciador. Ele é, mais do que um público especializado, o pensamento e a fruição crítica na tauromaquia.
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O público na festa dos toiros é uma das pedras basilares da tauromaquia mundial. O termo que é adoptado globalmente para este público específico, é afición. Este estrangeirismo que deriva da palavra espanhola ''aficcion'', significa um conjunto de pessoas que são fortes entusiastas de touradas. Como qualquer pedra basilar, tem em si a grande responsabilidade da manutenção desse entusiasmo, que faz perdurar ao longo dos tempos a actividade a que se dedica. Os aficionados não são meros espectadores como noutros espectáculos, são parte activa desse espectáculo, e deles depende o triunfo ou o fracasso de uma tarde de toiros.
  
Com a escassez de interesse científico da academia, ao longo dos séculos, pela tauromaquia, o aficionado assumiu sempre o papel de mediador de todo o conhecimento da atividade tauromáquica e da crítica necessária para a formalização solene dos rituais taurinos, da sua interpretação e da sua fruição. Se o público em geral pode ser um mero espectador, que se entretém com o momento, o aficionado não se limita ao entretenimento, sendo parte integrante de um processo ritual.
 
  
Detenhamo-nos na história por breves momentos. Para se compreender o conceito de aficionado é necessário compreender a diversidade da tauromaquia no tempo e no espaço. O aficionado é o resultado de séculos de transformação e evolução dentro da própria tauromaquia, desde a natureza de cada atividade (formal ou informal, popular ou institucional), passando pelos vários subtipos de tauromaquia: corridas de toiros clássicas (com picadores e a sorte suprema - a morte do toiro), corrida de toiros à portuguesa (com cavaleiros e forcados), tauromaquia popular e a institucionalização mais recente da tauromaquia popular - os recortadores. Há, ainda, uma diferença clássica estabelecida entre o aficionado toirista (aquele que dedica a sua atenção principal ao toiro) e o aficionado toureirista (aquele que dedica a sua atenção principal ao toureio). Dentro desta diversidade, o aficionado pode ser mais ou menos conservador, mais ou menos tolerante às transformações, mais ou menos permeável a incluir outras tauromaquias no seu discurso crítico.
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'''O barómetro da festa'''
  
O aficionado toirista encontra no toiro o único elemento relevante para analisar e avaliar a qualidade da corrida. A sua crítica centra-se nas características do toiro (trapio, bravura), no ''encaste'', no tipo da ganadaria (o padrão) e só depois, em última análise, na capacidade de resposta do Matador de Toiros ou do Cavaleiro. Esta relação entre o aficionado e o toiro, entendida como purista, acaba por ter mais impacto na diferença entre as praças e coloca o toureiro numa posição secundária, obrigando-o à superação extraordinária do seu desempenho. O toirista é, por conseguinte, um aficionado de uma exigência mais intransigente e transversal a todas as formas de tauromaquia. É ele que representa a ética da criação do toiro de lide em praça de toiros.
 
  
O toureirista, por seu lado, tem uma ''afición'' mais dirigida para as ferramentas da lide, da relação entre o toureiro, enquanto figura, e o toiro, enquanto adversidade para o triunfo. O toureirista analisa e avalia os argumentos do toureiro, a fluência do toureio, observando cada momento e cada gesto do toureiro como um ''frame'' de filme. O toureirismo vai, também, criar uma nova clivagem, uma maior (mas não tão profunda) divisão entre entusiastas de diferentes toureiros. Esta clivagem acentua-se sempre que, numa determinada época, há vários tipos de tauromaquia dentro de um subtipo. Por exemplo, se no subtipo “toureio a pé” temos um protagonista que dá mais relevo à plasticidade do seu toureio e um outro que dá mais valor ao ''tremendismo'' (a colocação consciente da vida num risco desnecessário ou evitável), a rivalidade cresce por disputas no território conceptual: a verdade do toureio. Porém, o aficionado (sentido amplo) com mais conhecimento e consciência histórica, não se demora nestas pequenas disputas. Ele sabe que a diversidade é a garantia da sobrevivência.
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A maior diferença do aficionado para o mero espectador de qualquer evento cultural, é a sensibilidade. Não podemos esquecer que a corrida de toiros é um espectáculo com um perigo iminente e real, e por isso só se permite ser assistido por pessoas dotadas de grande sensibilidade. Para além disso, é de uma enorme incerteza no que diz respeito ao seu desfecho. Podem os artistas estar cheios de ganas de triunfar, os ganadeiros terem escolhido o melhor lote de sempre na sua opinião, podemos ter no conjunto o melhor cartel da temporada, e ainda assim permanece uma enorme e total carta em branco. E é esta incerteza que alimenta os sonhos de qualquer aficionado, e o faz comprar o bilhete, e andar de corrida em corrida buscando o sabor de uma grande tarde de toiros. Este sentimento é exclusivamente taurino, e não se pode equiparar a nenhum outro.
  
Temos, assim, uma pluralidade de aficionados dentro de uma pluralidade de tauromaquias (ou de subtipos de tauromaquia), onde o aficionado preserva o traço comum do desenvolvimento de um conhecimento especializado. A sua concentração no momento cerimonial, o seu silêncio, não são um mero ato de respeito, mas a necessidade de observar, analisar e refletir, sem a reação espontânea de um olho menos treinado e sem o enquadramento histórico. O aficionado transporta consigo a responsabilidade da crítica, que contribui para a evolução e para consolidação cultural da identidade. E é a isso que se deve a sua intransigência.
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Um toureiro, na generalidade, quando actua numa arena diz que o faz em primeiro lugar para si, porque só dessa forma consegue expressar e sentir a sua arte. Não deixa de ser verdade até que isto aconteça dentro de uma praça de toiros, e o público se mostre responsivo. A partir daí tudo muda, para melhor ou para pior. Se pensarmos numa faena, ela normalmente começa serena, compenetrada e silenciosa, até que algo que durante minutos ou segundos era passivo, se torna activo e a condiciona até ao final. É aí que a sensibilidade do aficcionado, aliado ao seu conhecimento taurino, se torna fundamental. O sucesso de uma corrida de toiros, depende directamente desta sensibilidade e deste conhecimento. Se o aficionado não for sensível e conhecedor, não pode compreender os intervenientes no espectáculo. Desta forma, pode tender ao facilitismo, e conduzi-los a um sucesso insípido. Isso traduz-se inevitavelmente nos comportamentos dos intervenientes, que percebendo isso viram o jogo a seu favor. Porém, quando estamos perante um público taurino dotado destas duas qualidades, assistiremos certamente a lides e a pegas mais correctas. Este é o tipo de público exigente, que faz crescer os artistas, que instrui os novos aficionados, e que é indiscutivelmente o garante de uma tauromaquia séria, justa, de qualidade e em plena ascensão.
  
Porém, esta diversidade não assume as mesmas características no espaço. Seja de país para país, de cidade para cidade ou de praça de toiros para praça de toiros, a ''afición'' assume formas com características peculiares, resultado de séculos de acontecimentos que foram moldando as circunstâncias de cada lugar. Se olharmos para o comportamento em praça dos aficionados, verificaremos que a sua disponibilidade para certas tauromaquias varia. As praças de toiros são, aliás, conhecidas pelo seu “tipo de público”, que está diretamente relacionado com o tipo de tauromaquia. Esse tipo de tauromaquia cria uma dinâmica própria que se reflete até na estética dos festejos e na programação paralela às grandes feiras e corridas.
 
  
Ressaltam três exemplos inequívocos, em três países diferentes. Em Espanha, a praça de toiros de Las Ventas tem um público exigente, que antes de os cartéis serem ''montados'', já condicionou a escolha das próprias ganadarias no programa, as quais, por norma, correspondem àquilo que conhecemos vulgarmente por “ganadarias duras”. O grau de intransigência é tal que em Las Ventas é conhecido um setor de aficionados mais ortodoxos – o setor 7 – pouco permissivo a certos maneirismos dos toureiros e à “falta de poder” revelado pelos toiros. Em Sevilha, na Real Maestranza, o público é conhecido por apreciar toureiros de recorte fino, toiros mais pequenos e de ''encaste'' mais “toureável” (um conceito subjetivo); privilegia-se o silêncio sobre a indignação constante. O aficionado que frequenta ambas as praças, facilmente se deixará seduzir pela identidade de cada uma, compreendendo que ali não conta a sua própria tauromaquia, mas a tauromaquia coletiva.
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'''Heterogeneidade do público taurino'''
  
Num outro exemplo, em Portugal, há diferenças significativas entre o aficionado alentejano e o aficionado ribatejano. A condição e a geografia dessa ''afición'' são flagrantes na determinação das suas preferências e até na dimensão das suas corridas. Fatores como o tipo de propriedade onde se cria o gado bravo, o ecossistema envolvente, a comunidade, o tipo de relação social entre ganadeiros, aficionados, campinos e toureiros, as atividades paralelas e subsidiárias, as distâncias entre os vários lugares da sociedade, determinam uma ''afición'' mais ou menos reservada.
 
  
Já em França, apesar de a tauromaquia se realizar em menos recintos do que nos dois exemplos anteriores, a ''afición'' é mais toirista do que em Espanha ou Portugal e, mesmo assim, o seu nível de exigência não atinge a intransigência de Las Ventas. O facto de França não ter, historicamente, profissionais a impor-se a si e ao seu estilo poderá, também, ter impacto na preferência dos aficionados pelo comportamento do toiro em praça.
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É impossível catalogar o público que assiste aos vários tipos de manifestações tauromáquicas. Dizer, nos tempos que correm, que é estritamente um público rural ou circunscrito a determinadas regiões de Portugal, é redondamente errado e redutor. O aficionado pode congregar as duas últimas premissas, ou não apresentar nenhuma delas. Na actualidade, o aficionado é, em primeiro lugar, uma pessoa esclarecida. Como falámos nos parágrafos acima, dificilmente seremos aficionados sem sensibilidade e sem sabedoria, e, desta forma, não funcionam quaisquer requisitos em forma de regiões, credos ou grupos sociais. É transversal a tudo isto.
  
As geografias também condicionam grandes diferenças de classe entre aficionados. Se no caso do Alentejo e do Ribatejo se torna mais evidente uma diferença regional, o tipo da tauromaquia popular é também um sinal das grandes diferenças entre aficionados. Poderíamos voltar a Madrid ou Sevilha e demonstrar que a expressão da tauromaquia das ruas é inexpressiva, enquanto em Pamplona ou Ciudad Rodrigo, os aficionados “mandam”, manifestando-se até dentro da praça de toiros. O mesmo contraste existe entre a Palha Blanco de Vila Franca de Xira e o Campo Pequeno, em Lisboa. A relação entre os aficionados e o campo tem, aqui, um papel central. Poderíamos dizer que a primeira é uma praça de aficionados, enquanto a segunda é uma praça com um público mais generalizado.
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Se no aficionado ''enraizado'' (aquele que nasce em pleno contexto taurino) podemos aceitar como base de sustentação dessa afición a componente familiar, o contexto local e histórico-cultural onde habita, o grupo de amigos, etc, ao ''externo'' (aquele que não tem qualquer ligação ao mundo taurino), sem quaisquer influências directas, a afición é gerada pela beleza inigualável do espectáculo. E é aqui que entra o requisito de ser uma pessoa esclarecida. Esta afición, que não traz coadjuvantes que sustentem este gosto, move-se inicialmente pela singularidade da tauromaquia, e sedimenta-se pelo conhecimento crescente. Por norma, este último é o aficionado mais activo e militante.
  
Esta diversidade, que revela grandes pormenores históricos, culturais e sociais, provoca um conjunto de conflitos e contradições dentro do próprio aficionado, que só o estabelecimento de regras e alguma dogmática ajudam a ultrapassar.  
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No meio destes dois tipos de aficionados, ainda existem divisões. Falamos, por exemplo de touristas e toureiristas. Os primeiros cultivam primordialmente a figura do toiro, a sua apresentação, o seu peso e “trapio”; os segundos dão maior importância ao artista em detrimento de qualquer encaste ou ganadaria. Não há certos nem errados, porém, é no equilíbrio das duas coisas que a afición se torna mais completa.
  
Como em toda a tauromaquia, o aficionado constrói-se no dilema entre a ética e a estética. Resistindo à facilidade da prevalência estética, à aparência da tauromaquia, ele discute e critica para manter o equilíbrio num universo onde o público geral tem um peso quantitativo muito maior do que aquele que poderemos considerar ''aficionado''. O mero entretenimento, que também traz alegria e euforia à Festa dos Toiros, foi sempre a imagem que tornou possível a ampliação do fenómeno tauromáquico. Mas quando a estética se sobrepõe à ética, a passagem do conhecimento e da evolução histórica das práticas e rituais dilui-se. O papel do aficionado é, no mínimo, atrasar este processo de expansionismo e de mercadorização. Deste modo, podemos assumir que o aficionado é sempre conservador, mesmo que seja mais tolerante entre os seus pares.
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Para além destes, ainda temos os fãs de determinados artistas. Estes aficionados movem-se por um cavaleiro, toureiro ou grupo de forcados. Não deixa de ser aficionado, ainda que centre e condicione a sua afición a um só ponto fundamental.
  
A disputa de território com o público geral, para o aficionado, faz-se dentro da Praça de Toiros, quando impõe o silêncio, contra aplausos folclóricos e os pedidos incessantes de música, ou quando é elogioso com detalhes quase invisíveis. Mas a massificação da tauromaquia implicará (como já acontece) uma relação de oferta e procura, não entre as empresas promotoras de corridas de toiros e os aficionados, mas entre as empresas e o público geral. Essa perda de relevância do aficionado, a médio prazo, pode resultar no declínio de certas práticas nas corridas de toiros, como já aconteceu antes.  
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No fim, temos os aficionados específicos. Estes dirigem a sua afición a determinadas manifestações taurinas, onde estão também incluídas as populares, como as entradas e largadas de toiros, as picarias, os espectáculos de recorte, a tourada à corda e as capeias raianas.
  
Até agora, concentrámo-nos na relação histórica da ''afición'' com as práticas, rituais e circunstâncias taurinas. Existem, porém, mais dois lugares onde o aficionado se manifesta: o campo e a tertúlia (a variante portuguesa da ''peña taurina''). Estes são os lugares de sociedade do aficionado.  
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Por fim, temos aquele que agrega em si o gosto por todas as manifestações taurinas, podendo designar-se por aficionado global ou pleno.
  
Se começarmos pela génese da tauromaquia – o campo – encontraremos o aficionado na sua posição de convidado. As ganadarias são lugares reservados, propriedade de particulares, onde há uma seleção rigorosa dos convidados. Porém, a presença do aficionado é uma garantia de fidelização, de criação de embaixadores da própria ganadaria e da sua defesa, seja na praça pública, seja na praça de toiros. A relação dos aficionados com o campo tem-se estreitado, depois de algumas décadas de afastamento, talvez em consequência da desvalorização económica do setor primário. Hoje, com o crescimento das oportunidades de negócio promovidas pelo setor do Turismo, as ganadarias abriram as suas portas, proporcionando uma mudança nas possibilidades de acesso ao campo bravo. Porém, a relação com as tentas, com os campinos, com os próprios ganadeiros e com outros sujeitos da elite tauromáquica continua reservada a alguns, poucos, aficionados.
 
  
Essa reserva de propriedade do ganadeiro terá o seu reflexo nos lugares mais urbanizados, onde os aficionados se reúnem em grupos de poucas dimensões, também eles reservados. A essas reuniões, ainda no séc. XIX, chamaram-se “Tertúlias Tauromáquicas” e já no séc. XX ganharam notoriedade. Em Lisboa, por exemplo, o Real Clube Tauromáquico e o Sector 1 foram, durante algumas décadas, dos grupos mais críticos da sociedade tauromáquica. Também em Vila Franca de Xira, ainda na primeira metade do séc. XX, nascem algumas tertúlias. Mas é no final dos anos 1960, do mesmo século, que se vão popularizar e alargar o seu conceito. Apesar de a atividade tertuliana merecer um capítulo diferente, não podemos deixar de notar, aqui, a sua evolução ao longo de todo o séc. XX, de espaços mais elitistas para lugares mais abertos e festivos. Este modelo popular das tertúlias foi replicado por outras cidades ribatejanas e não só.
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'''As tertúlias taurinas'''
Em Vila Franca de Xira, este movimento já havia resultado, no início dos anos 1980, na criação do Clube Taurino Vilafranquense, fundado por 15 aficionados e 15 bandarilheiros. Exatamente 30 anos depois, as tertúlias associaram-se numa nova organização coletiva – a atual Associação de Tertúlias Tauromáquicas do Concelho de Vila Franca de Xira - que as representasse junto de outras entidades, privadas e públicas, assumindo o seu papel participativo na vida da comunidade, nas suas opções e na salvaguarda do seu património cultural. Este movimento associativo, que em locais diferentes e de formas diversas foi sendo replicado, cresceu e deu origem a uma associação nacional, com tertúlias e grupos de aficionados espalhados por Portugal continental e Açores.
 
  
A diversidade no entendimento do conceito de tertúlia demonstra não só a democratização da ''afición'', como também as várias relações que o público tem com a festa. Por isso, é tão fundamental estabelecer a diferença entre público e aficionados, como temos vindo a fazer. Necessitamos, porém, de um último tipo de aficionados para completar um pouco mais esta definição – os aficionados práticos.  
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[[Ficheiro:JC 1.jpg|miniaturadaimagem|Associações que compõem a Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal (2020).]]
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As organizações de aficionados contam com mais de um século de existência no nosso país. Situam-se geograficamente de norte a sul, com maior incidência na zona sul, sendo uma boa parte delas constituídas legalmente. São os verdadeiros epicentros de discussão taurina, onde de forma informal, ou formalmente através de debates ou colóquios, se discutem as várias temáticas taurinas.
  
Insatisfeito com a sua ''afición'' passiva, o aficionado prático é aquele que se arrisca diante das reses bravas. Seja por impulso (resultado do seu processo de cultivação), seja por mimetismo, o aficionado prático – um aficionado de campo – experimenta fisicamente a sua tauromaquia, explorando e ''tentando'' bezerras, vacas bravas, novilhos e até mesmo toiros em espaços mais reservados, como as ganadarias ou pequenos tentadeiros mais privados. Essa experiência possibilita ao aficionado uma leitura mais esclarecida do comportamento do animal e do seu próprio comportamento, das limitações do seu corpo, da sua mente e, claro, da sua criatividade.  
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Na sua maioria congregam em sim grupos de famílias, ou de amigos, que sob o tema taurino criam estes momentos, com ou sem sedes físicas. Porém, existem também casos de grandes tertúlias que agregam milhares de sócios, sendo referências regionais de associativismo, pela responsabilidade das actividades que promovem.
  
Não havendo uma hierarquia formal na ''afición'', há uma seleção social onde se manifesta um comportamento de nicho cultural. Mas apesar desta manifestação de elitismo, os aficionados não deixam de ir libertando informação sensível que não estava no conhecimento público. São eles os mensageiros dessa informação. A esse meio (social) chama-se ''mentidero''. Apesar da sua conotação negativa, o ''mentidero'' representa um dos instrumentos fundamentais para a manutenção do status do aficionado. Só essa manutenção de status permite que a credibilidade da crítica tenha impacto na forma como se desenvolve toda a atividade tauromáquica. “O que se diz nos ''mentideros''” é, por isso, uma forma eficaz de auscultar o acolhimento de certas opções pelos aficionados.  
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Estas associações de aficionados são um dos mais importantes pilares de defesa da festa de toiros. Fazem um trabalho contínuo durante todo o ano, o que faz com que durante a altura do defeso a festa não adormeça. É nesta altura que são promovidos colóquios e debates, que se avalia a temporada transacta e se prepara a próxima. Para além disso, promovem-se estímulos aos intervenientes, através de entregas de prémios, fazendo com que a competição permaneça, criando aliciantes para a época seguinte. Para além disso, são verdadeiras associações culturais, promovendo o encontro da tauromaquia com os mais variados tipos de arte, como a música ou as expressões plásticas. São também o garante das tradições locais não taurinas, fazendo por manter todas as manifestações culturais de cariz identitário, preservando-as e promovendo-as nas suas actividades. Também contam com uma importante preocupação social na organização de actividades de apoio a causas nobres.
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Dão ainda um enorme contributo na passagem de testemunho. São nestes espaços que se transmitem conhecimentos às gerações seguintes. Nestas tertúlias sentam-se à mesa várias faixas etárias, e destas reuniões resultam passagens de conhecimento, na primeira pessoa, que fazem com que a génese da tauromaquia não se perca. São, portanto, verdadeiras escolas de tauromaquia. Mas não só. Aqui também se transmitem valores humanos, de cidadania e de Portugalidade.
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As tertúlias taurinas são fundamentais para a manutenção de uma tauromaquia consciente, actual e perene. Nelas trabalha-se de forma voluntária, não remunerada, por verdadeiro amor à festa. Nelas vive-se, com vigor e efusivamente, a verdadeira festa.
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Se existe algum sujeito na Festa Brava que mereça o epíteto de “último romântico da Festa”, como foi atribuído a tantos protagonistas tauromáquicos, esse sujeito é o aficionado. É nele que está depositada a herança maior da tauromaquia, o seu maior património, que são a memória e a tradição oral. É dentro destes dois elementos que se parte para novas formas de observar e identificar aquilo que faz evoluir a tauromaquia, dentro de um quadro teórico informal e de regras que sustentam uma certa uniformidade na identidade cultural.
 
 
  
 
'''REGISTOS VIDEOGRÁFICOS'''
 
'''REGISTOS VIDEOGRÁFICOS'''
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https://archive.org/details/papafina/Gentes+Da+Festa+Da+Temporada+2012.mp4
 
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Edição atual desde as 12h06min de 24 de maio de 2021


O PÚBLICO NOS TOIROS E AS SUAS ESTRUTURAS REPRESENTATIVAS

José Nuno Caninhas
Presidente da Direção do Clube Taurino de Alcochete

Introdução


O público na festa dos toiros é uma das pedras basilares da tauromaquia mundial. O termo que é adoptado globalmente para este público específico, é afición. Este estrangeirismo que deriva da palavra espanhola aficcion, significa um conjunto de pessoas que são fortes entusiastas de touradas. Como qualquer pedra basilar, tem em si a grande responsabilidade da manutenção desse entusiasmo, que faz perdurar ao longo dos tempos a actividade a que se dedica. Os aficionados não são meros espectadores como noutros espectáculos, são parte activa desse espectáculo, e deles depende o triunfo ou o fracasso de uma tarde de toiros.


O barómetro da festa


A maior diferença do aficionado para o mero espectador de qualquer evento cultural, é a sensibilidade. Não podemos esquecer que a corrida de toiros é um espectáculo com um perigo iminente e real, e por isso só se permite ser assistido por pessoas dotadas de grande sensibilidade. Para além disso, é de uma enorme incerteza no que diz respeito ao seu desfecho. Podem os artistas estar cheios de ganas de triunfar, os ganadeiros terem escolhido o melhor lote de sempre na sua opinião, podemos ter no conjunto o melhor cartel da temporada, e ainda assim permanece uma enorme e total carta em branco. E é esta incerteza que alimenta os sonhos de qualquer aficionado, e o faz comprar o bilhete, e andar de corrida em corrida buscando o sabor de uma grande tarde de toiros. Este sentimento é exclusivamente taurino, e não se pode equiparar a nenhum outro.

Um toureiro, na generalidade, quando actua numa arena diz que o faz em primeiro lugar para si, porque só dessa forma consegue expressar e sentir a sua arte. Não deixa de ser verdade até que isto aconteça dentro de uma praça de toiros, e o público se mostre responsivo. A partir daí tudo muda, para melhor ou para pior. Se pensarmos numa faena, ela normalmente começa serena, compenetrada e silenciosa, até que algo que durante minutos ou segundos era passivo, se torna activo e a condiciona até ao final. É aí que a sensibilidade do aficcionado, aliado ao seu conhecimento taurino, se torna fundamental. O sucesso de uma corrida de toiros, depende directamente desta sensibilidade e deste conhecimento. Se o aficionado não for sensível e conhecedor, não pode compreender os intervenientes no espectáculo. Desta forma, pode tender ao facilitismo, e conduzi-los a um sucesso insípido. Isso traduz-se inevitavelmente nos comportamentos dos intervenientes, que percebendo isso viram o jogo a seu favor. Porém, quando estamos perante um público taurino dotado destas duas qualidades, assistiremos certamente a lides e a pegas mais correctas. Este é o tipo de público exigente, que faz crescer os artistas, que instrui os novos aficionados, e que é indiscutivelmente o garante de uma tauromaquia séria, justa, de qualidade e em plena ascensão.


Heterogeneidade do público taurino


É impossível catalogar o público que assiste aos vários tipos de manifestações tauromáquicas. Dizer, nos tempos que correm, que é estritamente um público rural ou circunscrito a determinadas regiões de Portugal, é redondamente errado e redutor. O aficionado pode congregar as duas últimas premissas, ou não apresentar nenhuma delas. Na actualidade, o aficionado é, em primeiro lugar, uma pessoa esclarecida. Como falámos nos parágrafos acima, dificilmente seremos aficionados sem sensibilidade e sem sabedoria, e, desta forma, não funcionam quaisquer requisitos em forma de regiões, credos ou grupos sociais. É transversal a tudo isto.

Se no aficionado enraizado (aquele que nasce em pleno contexto taurino) podemos aceitar como base de sustentação dessa afición a componente familiar, o contexto local e histórico-cultural onde habita, o grupo de amigos, etc, ao externo (aquele que não tem qualquer ligação ao mundo taurino), sem quaisquer influências directas, a afición é gerada pela beleza inigualável do espectáculo. E é aqui que entra o requisito de ser uma pessoa esclarecida. Esta afición, que não traz coadjuvantes que sustentem este gosto, move-se inicialmente pela singularidade da tauromaquia, e sedimenta-se pelo conhecimento crescente. Por norma, este último é o aficionado mais activo e militante.

No meio destes dois tipos de aficionados, ainda existem divisões. Falamos, por exemplo de touristas e toureiristas. Os primeiros cultivam primordialmente a figura do toiro, a sua apresentação, o seu peso e “trapio”; os segundos dão maior importância ao artista em detrimento de qualquer encaste ou ganadaria. Não há certos nem errados, porém, é no equilíbrio das duas coisas que a afición se torna mais completa.

Para além destes, ainda temos os fãs de determinados artistas. Estes aficionados movem-se por um cavaleiro, toureiro ou grupo de forcados. Não deixa de ser aficionado, ainda que centre e condicione a sua afición a um só ponto fundamental.

No fim, temos os aficionados específicos. Estes dirigem a sua afición a determinadas manifestações taurinas, onde estão também incluídas as populares, como as entradas e largadas de toiros, as picarias, os espectáculos de recorte, a tourada à corda e as capeias raianas.

Por fim, temos aquele que agrega em si o gosto por todas as manifestações taurinas, podendo designar-se por aficionado global ou pleno.


As tertúlias taurinas

Associações que compõem a Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal (2020).

As organizações de aficionados contam com mais de um século de existência no nosso país. Situam-se geograficamente de norte a sul, com maior incidência na zona sul, sendo uma boa parte delas constituídas legalmente. São os verdadeiros epicentros de discussão taurina, onde de forma informal, ou formalmente através de debates ou colóquios, se discutem as várias temáticas taurinas.

Na sua maioria congregam em sim grupos de famílias, ou de amigos, que sob o tema taurino criam estes momentos, com ou sem sedes físicas. Porém, existem também casos de grandes tertúlias que agregam milhares de sócios, sendo referências regionais de associativismo, pela responsabilidade das actividades que promovem.

Estas associações de aficionados são um dos mais importantes pilares de defesa da festa de toiros. Fazem um trabalho contínuo durante todo o ano, o que faz com que durante a altura do defeso a festa não adormeça. É nesta altura que são promovidos colóquios e debates, que se avalia a temporada transacta e se prepara a próxima. Para além disso, promovem-se estímulos aos intervenientes, através de entregas de prémios, fazendo com que a competição permaneça, criando aliciantes para a época seguinte. Para além disso, são verdadeiras associações culturais, promovendo o encontro da tauromaquia com os mais variados tipos de arte, como a música ou as expressões plásticas. São também o garante das tradições locais não taurinas, fazendo por manter todas as manifestações culturais de cariz identitário, preservando-as e promovendo-as nas suas actividades. Também contam com uma importante preocupação social na organização de actividades de apoio a causas nobres.

Dão ainda um enorme contributo na passagem de testemunho. São nestes espaços que se transmitem conhecimentos às gerações seguintes. Nestas tertúlias sentam-se à mesa várias faixas etárias, e destas reuniões resultam passagens de conhecimento, na primeira pessoa, que fazem com que a génese da tauromaquia não se perca. São, portanto, verdadeiras escolas de tauromaquia. Mas não só. Aqui também se transmitem valores humanos, de cidadania e de Portugalidade.

As tertúlias taurinas são fundamentais para a manutenção de uma tauromaquia consciente, actual e perene. Nelas trabalha-se de forma voluntária, não remunerada, por verdadeiro amor à festa. Nelas vive-se, com vigor e efusivamente, a verdadeira festa.



REGISTOS VIDEOGRÁFICOS


https://archive.org/details/papafina/Gentes+Da+Festa+Da+Temporada+2012.mp4

https://bit.ly/3fg2ipp

https://bit.ly/3kgWsrp

https://bit.ly/31nvrKs

https://bit.ly/3gy1eOW

https://bit.ly/33yaVJS

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