Diferenças entre edições de "Campino"

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=== O CAMPINO E A SUA IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO DA TAUROMAQUIA ===
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'''Introdução'''
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Não seria lógico abordar esta figura ribatejana – O Campino – sem primeiro fazer uma breve e resumida caracterização da região de Portugal que ainda hoje é o seu “solar”. É por aqui que vou seguir.
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A região ribatejana corresponde, em geral, à província do Ribatejo, instituída pela reforma administrativa de 1936 e extinta com a entrada em vigor da nova Constituição de 1976. A criação desta nova província, banhada pelo rio que lhe dá nome – o Tejo – teve por base três distintas zonas que a diferenciavam geologicamente das existentes – o “bairro” ocupando quase a totalidade da margem direita, limitado a Noroeste pelas Beiras e Norte da Estremadura; a “charneca” ocupando a região oposta, limitada a Sudeste pela província do Alto Alentejo e o Sul da Estremadura; a “lezíria” estendendo-se ao longo das suas margens, ou ribas.
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Era, num passado longínquo, constituída por zonas húmidas das suas margens e, em grande parte, pelos seus próprios estuários e dos seus afluentes, principalmente o rio Sorraia, constituindo as “lezírias”, e por zonas de composição arenosa que constituem as “charnecas” originando, pelas suas características de planura e condições edáficas, grandes latifúndios.
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O “bairro”, composto por formações geológicas mais antigas, deu origem a terrenos argilosos ou argilo/calcários, mais acidentados topograficamente e com vocação mais agrícola (olival, vinha e cereais) e a propriedades de menor dimensão.
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É sobre as duas primeiras que nos vamos debruçar (lezíria principalmente, mas também sobre a charneca) por ser nelas que se desenvolveu a criação de gado bravo.
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O território ribatejano resulta, em larga medida, na sua parte mais emblemática, da conquista de terrenos aluviais, aos estuários dos rios e zonas limítrofes. No extremo sudoeste, abrangendo principalmente os concelhos de Vila Franca de Xira e de Benavente, mas também o de Azambuja, temos os solos “salgados” designados assim pela sua proximidade do mar. A nordeste, solos de grande fertilidade, constituídos pelos resíduos trazidos pelas cheias.
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Deste conjunto resultou a “lezíria” vulgarmente designada por “campo”, palavra que sublinho por ser esta a origem do nome do protagonista deste texto, o “Campino”.
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Nesta região ribatejana, com base na fertilidade dos seus solos, na iniciativa de grandes “lavradores” proprietários de vastas herdades, e nas migrações de mão-de-obra vindas, principalmente, das Beiras e Alentejo, surge uma grande expansão da lavoura: uma forte e diversificada atividade agrícola, e também uma pastorícia e silvo-pastorícia aproveitada pelas diversas espécies pecuárias – equinos, ovinos, caprinos, bovinos de trabalho e bovinos bravos de lide, estes últimos destinados às atividades tauromáquicas.
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Neste quadro, a criação de gado bravo adquire um particular interesse, apaixonando todos os que o criam, ganhando relevo em grande parte das explorações pecuárias do Ribatejo, pelo simbolismo resultante das suas características únicas – o mistério da bravura. Mistério que se associa a uma relação tão enraizada entre as gentes ribatejanas e a Festa com reses bravas.
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A criação e seleção de bovinos bravos, tratando-se de animais com um comportamento bravio quando em manada e muito agressivo quando isolados, exige um maneio difícil, rigoroso, com especificidades muito próprias (matéria tratada mais adiante) condições que propiciaram o aparecimento deste icónico e popular personagem ribatejano – o Campino – quase sempre montado a cavalo, seu amigo e companheiro.
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Nos dias de hoje, o Campino também aparece em algumas explorações no Alentejo, para onde os criadores transferiram algumas ganaderias e onde surgiram outras, de casta brava obviamente.
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Revisão das 09h25min de 11 de setembro de 2020

O CAMPINO E A SUA IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO DA TAUROMAQUIA

Rodrigo Rodrigues Pereira

Introdução

Não seria lógico abordar esta figura ribatejana – O Campino – sem primeiro fazer uma breve e resumida caracterização da região de Portugal que ainda hoje é o seu “solar”. É por aqui que vou seguir.

A região ribatejana corresponde, em geral, à província do Ribatejo, instituída pela reforma administrativa de 1936 e extinta com a entrada em vigor da nova Constituição de 1976. A criação desta nova província, banhada pelo rio que lhe dá nome – o Tejo – teve por base três distintas zonas que a diferenciavam geologicamente das existentes – o “bairro” ocupando quase a totalidade da margem direita, limitado a Noroeste pelas Beiras e Norte da Estremadura; a “charneca” ocupando a região oposta, limitada a Sudeste pela província do Alto Alentejo e o Sul da Estremadura; a “lezíria” estendendo-se ao longo das suas margens, ou ribas.

Era, num passado longínquo, constituída por zonas húmidas das suas margens e, em grande parte, pelos seus próprios estuários e dos seus afluentes, principalmente o rio Sorraia, constituindo as “lezírias”, e por zonas de composição arenosa que constituem as “charnecas” originando, pelas suas características de planura e condições edáficas, grandes latifúndios.

O “bairro”, composto por formações geológicas mais antigas, deu origem a terrenos argilosos ou argilo/calcários, mais acidentados topograficamente e com vocação mais agrícola (olival, vinha e cereais) e a propriedades de menor dimensão.

É sobre as duas primeiras que nos vamos debruçar (lezíria principalmente, mas também sobre a charneca) por ser nelas que se desenvolveu a criação de gado bravo.

O território ribatejano resulta, em larga medida, na sua parte mais emblemática, da conquista de terrenos aluviais, aos estuários dos rios e zonas limítrofes. No extremo sudoeste, abrangendo principalmente os concelhos de Vila Franca de Xira e de Benavente, mas também o de Azambuja, temos os solos “salgados” designados assim pela sua proximidade do mar. A nordeste, solos de grande fertilidade, constituídos pelos resíduos trazidos pelas cheias.

Deste conjunto resultou a “lezíria” vulgarmente designada por “campo”, palavra que sublinho por ser esta a origem do nome do protagonista deste texto, o “Campino”.

Nesta região ribatejana, com base na fertilidade dos seus solos, na iniciativa de grandes “lavradores” proprietários de vastas herdades, e nas migrações de mão-de-obra vindas, principalmente, das Beiras e Alentejo, surge uma grande expansão da lavoura: uma forte e diversificada atividade agrícola, e também uma pastorícia e silvo-pastorícia aproveitada pelas diversas espécies pecuárias – equinos, ovinos, caprinos, bovinos de trabalho e bovinos bravos de lide, estes últimos destinados às atividades tauromáquicas.

Neste quadro, a criação de gado bravo adquire um particular interesse, apaixonando todos os que o criam, ganhando relevo em grande parte das explorações pecuárias do Ribatejo, pelo simbolismo resultante das suas características únicas – o mistério da bravura. Mistério que se associa a uma relação tão enraizada entre as gentes ribatejanas e a Festa com reses bravas.

A criação e seleção de bovinos bravos, tratando-se de animais com um comportamento bravio quando em manada e muito agressivo quando isolados, exige um maneio difícil, rigoroso, com especificidades muito próprias (matéria tratada mais adiante) condições que propiciaram o aparecimento deste icónico e popular personagem ribatejano – o Campino – quase sempre montado a cavalo, seu amigo e companheiro.

Nos dias de hoje, o Campino também aparece em algumas explorações no Alentejo, para onde os criadores transferiram algumas ganaderias e onde surgiram outras, de casta brava obviamente.




Foto de João Nelson
Não seria lógico abordar esta figura ribatejana – O Campino – sem primeiro fazer uma breve e resumida caracterização da região de Portugal que ainda hoje é o seu “solar”. É por aqui que vou seguir.

A região ribatejana corresponde, em geral, à província do Ribatejo, instituída pela reforma administrativa de 1936 e extinta com a entrada em vigor da nova Constituição de 1976. A criação desta nova província, banhada pelo rio que lhe dá nome – o Tejo – teve por base três distintas zonas que a diferenciavam geologicamente das existentes – o “bairro” ocupando quase a totalidade da margem direita, limitado a Noroeste pelas Beiras e Norte da Estremadura; a “charneca” ocupando a região oposta, limitada a Sudeste pela província do Alto Alentejo e o Sul da Estremadura; a “lezíria” estendendo-se ao longo das suas margens, ou ribas.

Exemplo Exemplo


REGISTOS BIBLIOGRÁFICOS


Perez, Rogério (1945), "O Campino", in Panorama: revista portuguesa de arte e turismo, Lisboa, Secretariado de Propaganda Nacional, n.ª 25-26 (disponível em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/Panorama/N25-26/N25-26_master/Panorama_N25-26_1945.PDF)

Sena, Pedro S. (2018), "Campinos, touros e cheias na lezíria: produção social das representações hegemónicas do Ribatejo", Working Papers CRIA, n.º 16, pp. 1-41


REGISTOS VIDEOGRÁFICOS


https://arquivos.rtp.pt/conteudos/campinos-do-ribatejo/

https://archive.org/details/vila-franca-de-xira/Vila+Franca/Colete+Encarnado+Prom.mp4

https://archive.org/details/papafina/Documentario+Moura+Jr/Programa+Sol+e+Toiros+n%C2%BA+44+++Vila+franca+de+Xira.mp4

https://archive.org/details/papafina/OS+CAMPINOS+ESTUDOS+DE+COSTUMES+PORTUGUEZES.mp4

https://bit.ly/3f3FFo4

https://bit.ly/336w4dG

https://bit.ly/2P9NP3u

https://bit.ly/3gwLvzU

https://bit.ly/3knBuHl

https://bit.ly/30yFNrG