Vara de campinar

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A VARA DE CAMPINAR


António Veiga Teixeira


Ganadeiro



Vara de campinar F4.jpg

A vara de campinar, ou simplesmente “a vara”, também denominada “pampilho”, é utilizada em actividades de maneio de gado bravo.

Consiste numa vara de madeira, de diferentes origens, sendo as mais pesadas de eucalipto, e as mais leves e flexíveis de bambu, com cerca de 2,5m a 3m, com uma ponteira em metal dourado ou prateado e um couto do mesmo metal na extremidade oposta. Nas varas mais pesadas leva um contrapeso em chumbo que serve para equilibrar a vara e exigir menos esforço ao cavaleiro no seu uso, embora torne o conjunto mais pesado, conforme se vê em ferragem de varas antigas.

Na ponteira existe uma rosca fêmea onde se podem enroscar bicos de diferentes dimensões, consoante o trabalho a efectuar seja com bezerros, vacas ou toiros.

As varas de bambu são mais utilizadas pelos cavaleiros amadores, e olhadas com algum desprezo pelos profissionais. As varas portuguesas são bastante mais curtas que as espanholas, utilizadas no “acoso y derribo”, e mais finas que as varas dos picadores em praça.

São utilizadas tanto a cavalo como a pé, seja no campo ou nas praças de toiros. Nalguns casos, servem também de suporte para laçar os animais, prática comum em todo o mundo, com excepção do continente americano, onde se utilizam mais os laços, que estamos habituados a ver nos filmes de Hollywood.

Os campinos mais habilidosos e mais valentes, são elogiados simplesmente com a frase “é uma boa vara”, conforme são vistas e apreciadas as suas façanhas a cavalo com os toiros em liberdade!

Existem múltiplas expressões relativas ao modo de segurar a vara. Por exemplo, muitos novatos agarram-na sempre com as duas mãos, trabalhando apeados, simulando o gesto das mulheres a caiar com o pincel atado à ponta de uma cana, pelo que são apelidados de “caiadores”. Aos que a cavalo agarram a vara pelo meio, logo lhe é atirada com sarcasmo a frase “não te chega um pau à frente, também levas outro atrás”, o que faz com que o infeliz logo se corrija agarrando a vara pela parte de baixo, como mandam as regras de bem campinar.

Ao contrário da lide a cavalo, em que se privilegia o citar do toiro oferecendo a direita do cavalo para colocar a bandarilha, no campo tanto se pode dar uma boa varada pela direita como pela esquerda, sendo esta última até considerada mais vistosa e difícil, uma vez que o braço com a vara inicia o movimento entre o tronco do cavaleiro e o pescoço do cavalo do lado esquerdo, e se eleva passando por cima da cabeça do cavaleiro até terminar, sem perder o contacto com o toiro atrás do cavalo, se possível do lado contrário.

As varas mais curtas são consideradas como sendo para homens valentes, e as muito compridas para os medrosos, embora na realidade o exagerado peso destas faça muitas vezes escolher o tamanho de vara mais curto.

A vara era utilizada em todas as funções, desde as tralhoadas dos bois de trabalho que lavravam a terra, até à condução dos carros de bois, passando pelo trabalho nos currais.

O modo tradicional de se obter uma boa vara, consiste em escolher um tronco direito, sem muitos ramos, e cortá-lo nos meses de Dezembro ou Janeiro, para posteriormente o enterrar na areia de uma ribeira durante pelo menos 1 mês, após o que se retira a casca, sendo untada com óleo queimado. Seguidamente é acabada colocando ponteira e couto e polida, podendo até, no caso de se destinar somente a ser usada em praça ou em desfiles de festas, ser envernizada.

As varas são guardadas penduradas numa trave, ou deitadas num pavimento nivelado para que não fiquem empenadas, e antes de actuações carinhosamente limpas e cuidadas, ficando com os metais a brilhar!

Cada campino tem normalmente pelo menos 2 ou 3 varas, que usa conforme as circunstâncias, sendo hoje em dia vulgar a sua compra, embora antigamente cada um fizesse as suas próprias varas.

Ao contrário de Espanha, aonde a garrocha utilizada nos trabalhos de campo evoluiu para a vara de “detener” dos picadores na praça, mais curta e mais robusta, e para a garrocha de “acoso y derribo” mais comprida e mais forte, que nalguns casos é feita já de fibra de vidro, por ser mais leve e resistente, a vara de campinar não teve numa especialização de formato de acordo com a tarefa a executar, sendo de utilização universal.

Em Portugal, ao não existir a tradição do “acoso y derribo”, nunca foi necessário haver varas mais fortes e resistentes, visto que somente se praticava a picaria denominada “à vara larga”, denominação que erradamente é actualmente usada nas largadas de toiros para populares em recinto fechado. São realizadas picarias por ocasião de festas no Ribatejo e também nos encerros na raia beirã. A verdadeira picaria à vara larga é feita em terreno totalmente aberto, sem vedações, por vezes em restolho de searas onde, além dos cavaleiros, o deambular dos toiros é seguido por uma multidão nos mais diversos veículos, que se mantêm a uma prudente distância, aplaudindo as melhores varadas.



REGISTOS FOTOGRÁFICOS



(Pé de vara, em prata, de inícios do séc. XX decorado com as iniciais do ganadeiro Antonio F. Branco Teixeira)

Fonte: Fotografias enviadas pelo ganadeiro António Veiga Teixeira.