Esperas e Largadas de Toiros

Revisão em 10h50min de 22 de junho de 2020 por Jcamacho (Discussão | contribs)
Espera de Toiros

Numa descrição formal, uma espera de toiros é um ritual em que as pessoas de uma localidade esperam para ver passar nas ruas uma manada de toiros e cabrestos, conduzidos por campinos e lavradores a cavalo, até uma praça de toiros ou outro local onde são encerrados. A multidão que espera, uns protegidos por tranqueiras que os separam dos animais, outros aproximando-se deles tanto quanto possível de modo a sentir-lhes a proximidade, participa com incitamentos entusiásticos. Depois da espera, em muitos dos locais referidos, realiza-se a “largada de toiros”, que faz parte do conjunto ritual. Os toiros são largados, um a um, para zonas previamente definidas nas ruas vedadas com tranqueiras.

Na verdade numa espera seguida de largada de toiros não se pode ficar só a assistir. A alegria é contagiante e o espírito festivo inebriante, tanto mais quanto mais se beberrica vinho ou cerveja com os amigos que, de todas as partes do mundo, regressam religiosamente todos os anos às origens para fazer renascer o sentido da comunidade que une os que ficaram aos que partiram. E onde se ousa pisar terrenos de risco controlado pela prudente distância em relação ao animal que toma conta do espaço que antes era a rua da vila ou cidade. Provando o sabor do medo, que anda junto com o riso e a alegria.

São dezenas de milhares, em cada local, as pessoas que se colocam nas tranqueiras, em segurança, enquanto centenas que estão dentro fogem em direção às mesma ou a um outro refúgio quando o toiro investe na sua direção. Mas alguns dos presentes são figuras populares das largadas, “brincam” com os toiros recortando-os ou lanceando panos ou pedaços de cartão que servem de improvisadas muletas ou capotes (Capucha, 1990).

Largada de Toiros

Ao fim de um determinado tempo na rua, os campinos recolhem os toiros auxiliados pelos seus jogos de cabrestos, voltando as pessoas a vibrar com a manada em tropel.

Como se percebe, trata-se de um fenómeno urbano, que acontece quando o campo, representado pelos toiros, pelos cabrestos, pelos campinos e pelos cavalos, invade a cidade, suspendendo e invertendo as suas regras e estruturas regulares, recreando uma espécie de caos festivo, à semelhança do que acontece com o carnaval. O espaço público urbano é tomado pela imprevisibilidade das investidas dos toiros e pela multidão comportando-se como uma turba humana em estado de euforia. Como todas as situações de desordem social – neste caso codificada pela ética da festa - não deixam as esperas de ter alguma ordem, nomeadamente quando se trata da entreajuda solidária entre as pessoas face ao perigo que o toiro representa e à ação dos mais destacados aficionados, os jovens peritos em recortar e “brincar” com os toiros.

O tempo das esperas e das largadas é, então, o tempo de transgressão e de suspensão das regras do dia-a-dia. Os sinais de trânsito que normalmente dão ordens, são apontados ao toiro como alvo a abater. As ruas onde cada carro circula ordenadamente pela sua mão, tornam-se local de presença desordenada, cada qual em tropelia procurando o caminho da sua proteção. Em vez do “bom dia”, “com licença” nos passeios, soa o grito “eles aí vêm!” quando estralam os foguetes. No espaço normalmente ordenado e racional, embora mais ou menos buliçoso, da rua, instaura-se o espaço mais ou menos caótico da desordem festiva e das suas regras emotivas. Se no quotidiano cada um que ali passa, passa transportando um estatuto social e económico próprio, prosseguindo os seus interesses pessoais, quem lá está nas esperas, está em comunhão e solidariedade com os seus pares, todos iguais. É assim que o toiro a todos arruma na mesma condição de humanos iguais na sua condição natural, trazendo a comunidade de volta à “origem” mítica da igualdade genesíaca e natural, que o dia-a-dia da sociedade desmente ao instituir sistemas de papéis diversificados e desigualdades sociais de vários tipos.


REGISTOS GRÁFICOS



Bibliografia

  • Capucha, Luís (1990). O caos na ordem urbana: cultura popular e vivências coletivas em Vila Franca de Xira. Colóquio Viver (n)a Cidade – Comunicações. Lisboa: LNEC/CET, pp. 59-64.
  • Capucha, Luís e Marco Gomes (2016). "Tauromaquia, Cultura com Sabor de Festa". In LMEC - CRIA (Ed.), Congresso Ibero Americano Património, suas Matérias e Imatérias, Lisboa.