Campino
O CAMPINO E A SUA IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO DA TAUROMAQUIA
Rodrigo Rodrigues Pereira
Introdução
Não seria lógico abordar esta figura ribatejana – O Campino – sem primeiro fazer uma breve e resumida caracterização da região de Portugal que ainda hoje é o seu “solar”. É por aqui que vou seguir.
A região ribatejana corresponde, em geral, à província do Ribatejo, instituída pela reforma administrativa de 1936 e extinta com a entrada em vigor da nova Constituição de 1976. A criação desta nova província, banhada pelo rio que lhe dá nome – o Tejo – teve por base três distintas zonas que a diferenciavam geologicamente das existentes – o “bairro” ocupando quase a totalidade da margem direita, limitado a Noroeste pelas Beiras e Norte da Estremadura; a “charneca” ocupando a região oposta, limitada a Sudeste pela província do Alto Alentejo e o Sul da Estremadura; a “lezíria” estendendo-se ao longo das suas margens, ou ribas.
Era, num passado longínquo, constituída por zonas húmidas das suas margens e, em grande parte, pelos seus próprios estuários e dos seus afluentes, principalmente o rio Sorraia, constituindo as “lezírias”, e por zonas de composição arenosa que constituem as “charnecas” originando, pelas suas características de planura e condições edáficas, grandes latifúndios.
O “bairro”, composto por formações geológicas mais antigas, deu origem a terrenos argilosos ou argilo/calcários, mais acidentados topograficamente e com vocação mais agrícola (olival, vinha e cereais) e a propriedades de menor dimensão.
É sobre as duas primeiras que nos vamos debruçar (lezíria principalmente, mas também sobre a charneca) por ser nelas que se desenvolveu a criação de gado bravo.
O território ribatejano resulta, em larga medida, na sua parte mais emblemática, da conquista de terrenos aluviais, aos estuários dos rios e zonas limítrofes. No extremo sudoeste, abrangendo principalmente os concelhos de Vila Franca de Xira e de Benavente, mas também o de Azambuja, temos os solos “salgados” designados assim pela sua proximidade do mar. A nordeste, solos de grande fertilidade, constituídos pelos resíduos trazidos pelas cheias.
Deste conjunto resultou a “lezíria” vulgarmente designada por “campo”, palavra que sublinho por ser esta a origem do nome do protagonista deste texto, o “Campino”.
Nesta região ribatejana, com base na fertilidade dos seus solos, na iniciativa de grandes “lavradores” proprietários de vastas herdades, e nas migrações de mão-de-obra vindas, principalmente, das Beiras e Alentejo, surge uma grande expansão da lavoura: uma forte e diversificada atividade agrícola, e também uma pastorícia e silvo-pastorícia aproveitada pelas diversas espécies pecuárias – equinos, ovinos, caprinos, bovinos de trabalho e bovinos bravos de lide, estes últimos destinados às atividades tauromáquicas.
Neste quadro, a criação de gado bravo adquire um particular interesse, apaixonando todos os que o criam, ganhando relevo em grande parte das explorações pecuárias do Ribatejo, pelo simbolismo resultante das suas características únicas – o mistério da bravura. Mistério que se associa a uma relação tão enraizada entre as gentes ribatejanas e a Festa com reses bravas.
A criação e seleção de bovinos bravos, tratando-se de animais com um comportamento bravio quando em manada e muito agressivo quando isolados, exige um maneio difícil, rigoroso, com especificidades muito próprias (matéria tratada mais adiante) condições que propiciaram o aparecimento deste icónico e popular personagem ribatejano – o Campino – quase sempre montado a cavalo, seu amigo e companheiro.
Nos dias de hoje, o Campino também aparece em algumas explorações no Alentejo, para onde os criadores transferiram algumas ganaderias e onde surgiram outras, de casta brava obviamente.
Atividades, meios de trabalho e traje
Antes de entrar na descrição das principais atividades do Campino, tarefas laborais e não só, começo por fazer uma descrição e caracterização resumida das suas ferramentas de trabalho mais relevantes, para permitir uma melhor compreensão mais adiante.
Meios de trabalho
• O cavalo
O cavalo é, sem sombra de dúvida, o mais importante auxiliar do Campino nas suas tarefas de campo, tendo contribuído grandemente para a existência dessa singular figura.
Praticamente, todas as casas agrícolas das antigas províncias do Ribatejo, Alentejo e parte da Estremadura (margem sul do Tejo) que tinham atividade pecuária criavam também cavalos, normalmente de raça “Peninsular”, base do “Puro-Sangue Lusitano” de hoje. Era destas coudelarias que saíam os cavalos e éguas para o trabalho de campo (os machos castravam-se para suavizar o seu comportamento tornando-os mais sociáveis com pessoas e animais). Ainda hoje assim é. Estes animais deviam ser resistentes e bem submetidos ao seu cavaleiro, para fazer face à dureza e destreza exigidas pelas lides diárias.
• Os arreios
O arreio hoje utilizado é uma sela cujo modelo se diz ter origem na época da 1.ª guerra mundial, na qual terá sido usada pelos militares alemães, e depois modificada e adaptada. As principais caraterísticas são as seguintes:
Coxim de couro forte, com encurvamento algo profundo, limitado à frente e atrás com arções não muito altos e abas também em couro, mais maleável, tudo para permitir ao cavaleiro um bom acoplamento e liberdade de movimentos. É usada também uma pele de borrego que cobre todo o arreio superiormente para maior conforto. Sob a sela é usada uma manta de lã, que assenta sobre o dorso do animal e desta forma o protege de atritos que lhe possam infligir ferimentos vulgarmente chamados de “assentaduras”. Os estribos são em forma de caixa, de madeira resistente que encaixa numa estrutura metálica. São fechados à frente para melhor adaptação às agrestes invernias.
Estes arreios, à frente sobre as espáduas e atrás junto à garupa, são munidos de argolas e aselhas que permitem segurar acessórios de utilidade variada – alicates, uma porção de arame enrolado (reparação de vedações) alforge para comida, brincos de identificação animal, sebenta e lápis para apontamentos e ainda agasalhos – mantas, casaco e capa para a chuva.
• O jogo de cabrestos
O jogo de cabrestos, normalmente, é constituído por sete bovinos machos (mansos e castrados) quase sempre de raça mertolenga, originária da região alentejana de Mértola, como o próprio nome indica.
Entre as diversas raças autóctones, a mertolenga é a que, ao longo dos tempos, demonstrou maior aptidão como importante auxiliar dos campinos que, quando os animais são jovens, os treinam para o trabalho com rigor. Usam um chocalho de latão pendurado ao pescoço por uma coleira de cabedal, emitindo um som característico, denunciador eficaz da sua localização ou aproximação. Nas extremidades dos cornos é encaixada uma bola (peça metálica de latão de forma esférica) protegendo assim os animais (cavalos e reses bravas) e também as pessoas, de possíveis acidentes durante o trabalho.
A principal utilização destes animais consiste em colaborar na condução do gado bravo, guiando-o nas mais variadas ações de maneio, tendo que para isso estar bem submetidos. São também utilizados na recolha aos currais das reses lidadas durante as corridas de toiros. Participam ainda em cortejos e em provas de perícia de condução de “jogos de cabrestos” conduzidos por cinco campinos a cavalo, nas tradicionais festas das vilas ribatejanas, muito apreciadas entre as suas gentes e por muitos forasteiros.
• A vara ou pampilho e o cajado
A vara (termo mais usado) ou pampilho é um jovem rebento de eucalipto, cuja seleção dever ser cuidada para que seja suficientemente forte e não quebre à mínima resistência, sem, contudo, ser demasiado pesada para facilitar o seu manuseamento. O seu comprimento varia entre 250/270 cm de comprimento (braçada e meia, na gíria da campinagem) devendo ser o mais retilínea possível, e com entrenós o mais curtos possível para maior solidez. Na extremidade superior, menos espessa, encaixa uma ponteira metálica (15/20 cm de comprimento) bem areada e brilhante nos dias de festa, onde enrosca um curto “bico” bem afiado, com a finalidade de acossar e picar, caso necessário, nas provas de perícia (picarias à vara larga) e outras ações de maneio. Na extremidade anterior, naturalmente mais espessa, pode encaixar um pequeno copo de idêntico metal para proteção no contacto com o chão e embelezamento.
O cajado, pequena vara de marmeleiro (resistente e maleável com 160/170 cm de comprimento) agora de uso menor, mas muito usado pelos Campinos mais antigos. Sendo de manejamento mais fácil (mais curto e de menor peso) substituía a vara, com vantagem, em algumas tarefas de maneio.
O Traje de Campino
Alegre e vistoso, usado apenas em dias de festa, romarias, dias de corrida de toiros e em outras ocasiões de maior cerimónia, é composto por:
- Camisa branca com colarinho ostentando um par de abotoaduras;
- Colete encarnado;
- Jaqueta azul escuro com gola de banda;
- Cinta de lã, vermelha, enrolada à cintura;
- Calção da cor da jaqueta;
- Meias brancas bordadas até por cima do joelho, a cobrir a extremidade inferior dos calções;
- Sapatos pretos, bem engraxados, de salto baixo com prateleira para suporte das esporas;
- Na cabeça, um barrete verde tendo na base uma orla/barra estreita e de cor vermelha. Na extremidade oposta, adorna-o uma pequena borla (adorno pendente feito de fios de lã) da mesma cor do barrete.
- Todos os botões visíveis são de superfície lisa, de um metal cromado refletindo bem a luz. Na jaqueta são colocados à frente, de ambos os lados, e nas mangas lateralmente, junto ao pulso. Nos calções, na lateral exterior um pouco acima do joelho. O emblemático colete encarnado abotoa na frente com botões idênticos e do lado esquerdo, à altura do peito, exibe ainda o desenho do ferro da ganaderia, bordado a preto ou num crachá em metal brilhante.
Nas suas fainas diárias de campo, o campino é mais informal e traja a seu gosto. Um simples boné é hábito de quase todos. Os mais antigos usavam calças e casaco curto, ambos de ganga azul ou cotim militar de tons acinzentados, camisa de cor clara abotoada no colarinho e com mangas compridas, também sempre abotoadas, botas de atanado ensebadas e barrete preto, de modelo idêntico ao verde, ou uma simples mitra do mesmo tecido.
| Não seria lógico abordar esta figura ribatejana – O Campino – sem primeiro fazer uma breve e resumida caracterização da região de Portugal que ainda hoje é o seu “solar”. É por aqui que vou seguir.
A região ribatejana corresponde, em geral, à província do Ribatejo, instituída pela reforma administrativa de 1936 e extinta com a entrada em vigor da nova Constituição de 1976. A criação desta nova província, banhada pelo rio que lhe dá nome – o Tejo – teve por base três distintas zonas que a diferenciavam geologicamente das existentes – o “bairro” ocupando quase a totalidade da margem direita, limitado a Noroeste pelas Beiras e Norte da Estremadura; a “charneca” ocupando a região oposta, limitada a Sudeste pela província do Alto Alentejo e o Sul da Estremadura; a “lezíria” estendendo-se ao longo das suas margens, ou ribas. | |
| Exemplo | Exemplo |
REGISTOS BIBLIOGRÁFICOS
Perez, Rogério (1945), "O Campino", in Panorama: revista portuguesa de arte e turismo, Lisboa, Secretariado de Propaganda Nacional, n.ª 25-26 (disponível em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/Panorama/N25-26/N25-26_master/Panorama_N25-26_1945.PDF)
REGISTOS VIDEOGRÁFICOS
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/campinos-do-ribatejo/
https://archive.org/details/vila-franca-de-xira/Vila+Franca/Colete+Encarnado+Prom.mp4
https://archive.org/details/papafina/OS+CAMPINOS+ESTUDOS+DE+COSTUMES+PORTUGUEZES.mp4