Arreios dos cavalos

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A “GINETA” E OS ARREIOS TRADICIONAIS PORTUGUESES

Rui Casqueiro Haderer
Presidente da Direcção da Tertúlia “Festa Brava”®

“O tipo de sela portuguesa tradicional, parece decorrer da sela à Gineta; a sua decoração em cravos metálicos está ligada às marcas obrigatórias nos jaezes califais do Séc. X” (F. Pereira, citado por J.E. Ruiz-Doménec e R. da Costa, 2008).

Desde há muitos séculos e até ao presente, na paz e na guerra, no trabalho ou no lazer, o cavalo foi e é um inseparável companheiro do Homem e um contribuinte muito significativo na sua evolução. Assim sendo, não admira que tudo quanto rodeia esse nobre animal seja fruto de saberes antigos, sobressaindo aqueles que permitem a manufactura de selas e de demais arreios, já que são estes os artefactos que nos permitem usufruir de quanto o nobre bruto nos pode oferecer.

As técnicas da correeria têm permanecido praticamente imutáveis há muitas gerações e as ferramentas para a sua manufactura, bem como a designação das diversas peças que compõem os arreios são hoje as mesmas de há séculos atrás.

Nos “Anales de Cordoba Mussulmana” (711-1008) surge um relato de Ibn Hayan datado de 974 que conta que indo o Califa al-Hakam II com o seu séquito de Córdoba para Madinat al-Zahra reparou que um dos cavaleiros usava uma “silla” de – factura ultramarina – con los lados del asiento muy finos e los borrenes delantero e trasero muy cortos” i.e., as abas da sela eram muito finas e os arções, tanto o dianteiro como o traseiro, eram pequenos, baixos. E acrescenta Ibn Hayan, o califa não gostou e ordenou a queima da sela “todos que presenciaron la ensena se obstuvieron en lo sucesivo de emplear sillas como aquella, aunque a la mayoria de ellos les gostou sobremanera”.

A sela em causa era originária do Norte de Africa – “de factura ultramarina” – e era do tipo usado pelos guerreiros berbéres do Magreb. Muitos destes cavaleiros, após derrotados pelo Califa, foram incorporados nos exércitos califais.

Tempo passado é o mesmo Ibn Hayan que nos relata que “le parecia ahora al Califa que su empleo de atalajes especiales era mas acomodado a la factura de los mismos e mejor para los caballos”, e recorda que vendo os cavaleiros berbéres evoluir com os seus cavalos e respectivos arreios, comentou: “Com que naturalidad se tienen estas gentes a caballo. Parece que es a ellos a quienes alude el poeta cuando disse: Diriase que los caballos nacieron debajo deles, y que ellos nacieron sobre sus lomos. Qué asombrosa manera de manejarlos, como si los caballos comprendiesen sus palabras!”.

Era a entrada fulgurante da sela Gineta no al-Andalus, na Europa e na História.

Como atrás fica dito pelo cronista muçulmano, esta sela era leve, de abas mais pequenas e mais curtas, anatomicamente mais adaptada ao dorso dos equídeos, com arções mais curtos e baixos. Estas características permitiam uma maior “ligação” do cavaleiro ao cavalo já que a sua concepção possibilitava àquele “sentir” o dorso da sua montada.

Por outro lado, o formato dos arções e a sua dimensão, facilitavam os movimentos do cavaleiro e o facto de estribar com a perna flectida permitia-lhe elevar-se na sela quando necessário, para além de, ao possibilitar a condução do cavalo com as pernas, deixar as mãos livres para a utilização das armas – lança, arco e flecha e bem como do escudo defensivo – a adarga.

Contrariamente, a sela usada na monte “à brida” tinha arções muito elevados, chegando, no caso do traseiro, à zona lombar do cavaleiro. Esses arções eram curvados para dentro, i.e., como que “abraçando” o cavaleiro pela cintura pélvica, ficando o mesmo verdadeiramente “encaixado” na sela. Estribava-se baixo, com a perna estendida, na vertical. Desta forma, a mobilidade do cavaleiro era muito reduzida. Este tipo de sela aparece em documentos portugueses quinhentista designada por “sela estradiota”.

A equitação “à Gineta”, pela sua eficiência, suplanta e substitui por completo a monte “à brida” nos campos de batalha, até ao alvorecer das armas de fogo. No entanto, subsiste hoje, na equitação de Alta Escola e fundamentalmente, no toureio a cavalo.

O próprio Papa Pio V – Séc. XVI – “autorizou las corridas de toros con el objecto de que no se perdiese al arte de la jineta” (F. Maillo Salgado, 1982).

A sela “à portuguesa” é herdeira directa da sela gineta e é ela que, desde sempre e até à actualidade, os nossos cavaleiros – toureiros usam para lidar toiros.

Em muitos documentos relativos ao al-Andalus, aparecem referencias a cavalos das cavalariças do Califa, ajaezados com arreios com estilo ou marcas diferenciadoras dos comuns.

Haveria pois uma marca que teria de ser facilmente visível e identificável. Se olharmos para as selas “à portuguesa” verificamos que a maioria dos ornamentos se concentra nas faces exteriores dos arções, por serem essas as zonas mais visíveis aquando da utilização do arreio. É de supor pois que, no al-Andalus, fosse também aí que a marca califal surgisse.

Essa marca, por outro lado, teria de ser simples e eficiente, amplamente reconhecível e inequivocamente associada ao poder.

A sela “à portuguesa” é tradicionalmente ornamentada nas faces, exteriores dos arções, com cravos tronco-cónicos dispostos em triângulos escalonados, com patamares em angulo recto. Este motivo decorativo encontra-se em ruínas e artefactos dos antigos impérios Assírio e Persa e, com patamares em ângulo agudo no império Sassânida, o mesmo império que, conquistado e assimilado pelo nascente império Muçulmano, lhe levou o conhecimento do estribo.

Os mesmos triângulos escalonados, tanto em ângulos rectos como em agudos, encontram-se nas mesquitas de Córdoba e Madinat al-Zahra e em muitos outros edifícios do mundo muçulmano e ainda em diversos exemplos de arquitectura, artes decorativas e mobiliário mudéjar. Também a actual igreja de Mértola – uma antiga mesquita do Séc. XII, cristianizada, foi objecto de obras que modificaram o telhado original, no Séc. XVI, durante as quais lhe adicionaram, como ameias, triângulos escalonados. Tal facto testemunha a perenidade deste motivo tradicional, agora já a coberto da religião cristã.

O mesmo motivo aparece, por exemplo, nos mosteiros de Pombeiro (Felgueiras), S. Tiago (Vila Real), S. Paio (Barcelos) ou na igreja de Santa Marinha (Vila Real), a norte do Rio Douro, demonstrando a assimilação cristã de um motivo tradicional muçulmano (F. Pereira, 2004).

De enfatizar, por extremamente elucidativo, o facto de na fachada da Praça de Toiros do Campo Pequeno em Lisboa, o principal motivo decorativo sobre a porta principal – Porta Grande – ser um triângulo escalonado de patamares em angulo recto e de, em torno de todo o edifício, existirem, como de se de ameias se tratasse, inúmeros triângulos escalonados de patamares em ângulo agudo.

Em Portugal, os múltiplos correeiros que produzem a sela “à portuguesa”, desconhecem de todo a origem da decoração que aplicam nas suas selas. Interrogados, dizem apenas ser essa a tradição.

Posto isto, é pois de supor, com fundadas razões, que o triângulo escalonado, ou algo muito semelhante seria a marca califal que os seleiros do al-Andalus tinham de apor nas peças que fabricavam, para as reais cavalariças, o que leva a supor que este mister estava enquadrado por regulamentos oficiais como era o caso de outros, por exemplo, a produção de tecidos de luxo de designação oficial “tiraz”.

Considerando que o mister artesanal da selaria, como outros, aliás, era muito fechado sobre si próprio, permanecendo em uso por séculos e mesmo até hoje, designações de artefactos, ferramentas e métodos de fabrico, parece razoável considerar a possibilidade de advirem da ocupação muçulmana do actual território português, os “regimentos” nacionais do séc., XVI que regulavam a profissão de correeiro. São o caso de Guimarães em 1522, do Porto em 1595, de Lisboa em 1572 ou de Coimbra de 1573. Todos eles referindo, na listagem dos artefactos a produzir por estes artesãos, a sela gineta e os respectivos acessórios.

Esta sela era já, salvo eventuais pormenores, aquela que Manoel Carlos de Andrade tão bem ilustra na estampa 9, pág. 164, da sua magistral “Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria” (1790) e que é a mesma que, até hoje é usada pelos cavaleiros-toureiros de Portugal.

Em couro da melhor qualidade, sobre uma estrutura (vaso) de madeira, tem abas e coxins estofados a camurça e pespontados em “gomos” nas faces internas dos arções e em “espinha”, nas abas e no coxim. As faces externas dos arções (espelhos), têm o seu contorno definido por pregos metálicos, tronco-cónicos, com que também se desenham diversos triângulos escalonados de patamares rectangulares.



A distância entre o arção dianteiro e o traseiro – hoje objecto de uma escala numérica como, por exemplo, existe para os sapatos – era, no séc. XVIII estabelecida em função do comprimento do antebraço mais o punho cerrado, do cavaleiro a que a sela se destinava, medida sobre a linha mediana daquela.

A parte inferior da sela era também estofada, agora com pele bovina – normalmente a de mais fina espessura – e por baixo das abas (ou roupas) ficavam as pontas de couro onde se afivelava a cilha, bem como os olhais metálicos, com corrediça onde se suspendem os louros.

Na face anterior da sela, abaixo do arção dianteiro, existem argolas onde se fixa o peitoral e na face posterior, abaixo do respectivo arção, duas pontas de couro onde se liga o xairel e ainda, na linha média da sela, um olhal metálico para ligação da rabicheira.

A cilha, normalmente de cordão de cânhamo ou de algodão termina em três ou duas pontas de couro e respectivas fivelas metálicas que se afivelam nas pontas de couro, já referidas, existentes por baixo das abas da sela. Dado que os exercícios de gineta obrigam a violentas contracções e distensões dos poderosos músculos do cavalo, principalmente se toureando, existe ainda uma sobrecilha ou “cilha-mestra”. Esta cilha, constituída apenas por uma larga tira de couro com fivela metálica numa ponta e a respectiva furação na outra, passa pelo interior da sela, por baixo do coxim, atravessando o vaso e serve como garantia à eventual ruptura da cilha de cordão.

Os loros são simples correias, semelhantes aos cintos actuais. Quando passados pelos olhais respectivos existentes na sela servem para suspender os estribos e regular a sua altura em função do comprimento da perna do cavaleiro.

Ao que parece, mesmo montando “à gineta” os cavaleiros lusitanos continuaram a utilizar os mesmos estribos que usavam “à brida” limitando-se a “subir” os loros.

As representações gráficas assim o indicam. Esses estribos eram metálicos, de pegada (soleira) redonda ou oval, com uma arcada elevada, embora descrevendo um arco em semi-círculo encimado pelo olhal de ligação ao loro. Quando calçados apenas davam apoio à parte anterior do pé, deixando o calcanhar no vazio.

Pelo contrário, os muçulmanos usavam estribos, igualmente metálicos, mas de formato rectangular, abertos atrás, para introdução do pé e igualmente à frente, com as partes laterais elevadas e que permitiam o apoio da totalidade do pé, terminando no alto pelo olhal de suspensão, ou seja, muitíssimo semelhantes aqueles que na actualidade usam os cavaleiros espanhóis.

Se observarmos as gravuras da já referida obra de Manoel Carlos de Andrade verificamos que, na maioria delas, os cavaleiros representados utilizam estribos de pegada redonda.

Ora, não é este o estribo que os cavaleiros tauromáquicos usam. Utilizam sim o chamado “estribo de caixa”. São eles em madeira resistente, rectangulares, de frente fechada e abaulada, reforçada por chapa metálica, lisa ou decorada, sendo decoradas igualmente as faces laterais. No topo o indispensável olhal de suspensão.

Devem ser à medida do pé do cavaleiro, por forma a que aquele tenha a totalidade do pé apoiado, situação que lhe confere maior estabilidade e segurança na sela.

O magnífico livro de Manoel Carlos de Andrade ilustra em algumas gravuras (estampas 87 a 91) os jogos equestres da corte portuguesa do séc. XVIII. As gravuras referidas mostram os cavaleiros usando estribos de caixa. Estes jogos recriavam diversos exercícios de treino militar como por exemplo, a luta entre dois cavaleiros (escaramuça) ou o ataque a um inimigo isolado (corrida ao estafermo), isto é, mostram exercícios em que há risco físico para o cavaleiro, nomeadamente queda do cavalo ou embate com o contendor. Nestas circunstâncias era pois o estribo de caixa o eleito, em detrimento do de pegada redonda, reservado para os trabalhos de ensino dos cavalos em picadeiro. Ou seja, o estribo de caixa seria o estribo de “guerra”.

Parece pois, legítimo supor, ser esta a razão pela qual os toureiros utilizam estes estribos. Assim se protegem de ficar pendurados por um estribo em caso de queda – o estribo de caixa não permite tal – e ainda têm os pés protegidos de eventuais “boladas” do toiro.

Tais argumentos são também válidos para os campinos, que usam “caixas” em permanência, acrescendo a protecção contra os matos e arbustos, no campo.

Faz parte integrante do arreio “à portuguesa” o xairel.

Trata-se de uma peça em couro, tecido ou pele, sendo neste caso as mais tradicionais de texugo e raposa, de formato aproximadamente rectangular, com os cantos arredondados, que se afivela à parte posterior da sela, logo atrás do seu arção traseiro, ficando pois assente sobre a zona lombar do cavalo. Serve para proteger as abas da casaca do cavaleiro do suor do animal.

O peitoral consiste numa peça de couro, adornada ou não, de formato semi-elíptico que, afivelada de um lado e outro da sela, passa por diante do peito do cavalo. Alternativamente pode ser em forma de Y, igualmente afivelado a cada um dos lados da sela, passado a terceira ponta por entre as mãos do cavalo para ir ligar à cilha. Tem por função evitar a deslocação da sela para a garupa do equídeo.

A rabicheira ou rabicho é afivelada no olhal para o efeito existente na parte posterior da sela, na sua linha mediana, abaixo do arção traseiro. Trata-se de uma tira de couro que, passando pelo olhal referido vai fechar-se por fivela acerca de um terço do seu próprio comprimento, que percorre a totalidade da garupa, pela sua linha média. A outra extremidade é bifurcada e as suas duas pontas formam um olhal pelo interior do qual vai passar o côto da rabada do cavalo. A rabicheira serve para evitar que a sela se desloque para diante, para sobre o garrote do equídeo.

A cabeçada é um conjunto de correias que, envolvendo a cabeça do cavalo, tem por função manter na boca deste o freio ao qual, por sua vez, se ligam as rédeas.

Compõe-se de diversas peças que são: a cachaceira, na nuca do cavalo, à qual se ligam de um lado e outro, as faceiras nas quais se suspende o freio e a cisgola cuja função é a de, passando por baixo das ganachas do cavalo, impedir que a cabeçada saia pelas orelhas deste. De notar que no regimento dos correeiros de Coimbra, datado de 1573, se refere a manufactura de “cabeçadas de cor para gineta sem cisgola”, como ainda hoje se usa na Andaluzia, mas não em Portugal.

De um lado ao outro da cachaceira existe uma correia que passa pela fronte do cavalo. Chama-se testeira.

Por último, a focinheira que envolve o chanfro e a queixada do cavalo, assegurando a correcta posição das faceiras e consequente posição do freio.

O freio é, a par com a sela e o facto de se estribar com a perna semi-flectida um elemento preponderante da equitação à gineta.

Os freios de então, embora de maior dimensão e de acção mais significativa, seriam basicamente iguais aos que hoje se utilizam e que crismámos de “freio à portuguesa”. Trata-se de um freio de caimbas fixas (os ramos laterais do freio) e bocado (a barra que fica no interior da boca do cavalo) mais ou menos espesso, direito ou com uma elevação central (a montada), ou ainda, mais raramente, articulado. As caimbas têm na sua extremidade superior um olhal, pelo qual o freio é suspenso das faceiras da cabeçada. Na extremidade oposta existe uma argola com um destorcedor, onde se ligam as rédeas. Por fim, ao nível da ligação do bocado com a caimba existe outro olhal onde, que não a tourear, se liga um segundo par de rédeas – a chamada “rédea falsa” – que se utiliza no ensino e execução de determinados exercícios que requerem uma mais suave acção do freio.

No olhal superior de cada uma das caimbas existe ainda um gancho onde se aperta a barbela (pequeno troço de corrente de elos achatados, mais largos ou mais estreitos) de um lado ao outro do freio passado por baixo da queixada do cavalo.

Estes freios e barbelas eram feitos em ferro e a caimbas eram normalmente de desenho muito estilizado, sendo por vezes gravados com decorações a prata ou ouro.

A escolha do freio e da barbela para um determinado cavalo fazia-se, como hoje, tendo em consideração que a acção do freio é tanto maior quanto mais comprida for a caimba e menos espesso o bocado, enquanto que a acção da barbela é mais efectiva quanto mais estreita ela for.

O prestígio da cavalaria, a sua importância na guerra, o facto da posse e o uso do cavalo ser possível apenas à aristocracia primeiro e às classes mais elevadas posteriormente, fez com que os cavaleiros tendessem a ostentar a sua condição social através da posse de cavalos de pura raça, ajaezados com arreios de grande pompa e elevado custo, para uso em ocasiões especiais, já que aqueles que atrás se descrevem eram para uso quotidiano e adestramento dos cavalos.

Esta apetência pelo luxo nos cavalos e arreios bem como nos trajes vem de longe e chegou até a justificar a publicação de uma “pragmática”, em 1340, pelo Rei D Afonso IV regulamentando os trajes e acessórios nomeadamente os arreios. No entanto, em Portugal, é no período Barroco que ocorre o apogeu do luxo equestre, como aliás, em tantas mais áreas.

A observação das já referidas “estampas” publicadas na “Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria” ilustram o requinte dos arreios usados em ocasiões festivas. O couro das selas era coberto a seda ou veludo, bordadas a prata ou ouro enquanto os demais arreios, que muitas vezes não eram de couro na sua cor natural, mas sim pintados de negro, azul celeste, carmim, etc., e profusamente decorados com recortes e pespontos e ainda com aplicações de pregaria e diversos ornamentos, em alguns casos de prata ou prata dourada, o que acontecia também com todas as fivelas. As cabeçadas eram decoradas com um “penacho” de plumas colocado sobre a cachaceira.

Por baixo da sela viam-se gualdrapas – reminiscência das usadas na idade média, mas de muito menor dimensão – igualmente ricamente decoradas – enquanto o xairel de todos os dias era substituído por um teliz profusamente bordado e normalmente ornamentado com emblemas heráldicos. Destes arreios, muito sucintamente descritos, chegou até nós um que foi pertença de D. Pedro de Alcântara Menezes, IV Marquês de Marialva, que se encontra no Museu Nacional dos Coches e que serviu de modelo para seis arreios, rigorosas cópias do original, mandados executar em 1973 pelo Dr. Miguel Gentil Quina e usados na Gala Equestre com que aquele Senhor obsequiou, no Palácio do Correio-Mor, SAR o Duque de Edimburgo, aquando da sua visita a Portugal, enquanto presidente da Federação Equestre Internacional. Um desses arreios sobreviveu e é hoje propriedade da Coudelaria Xavier de Lima.

Também a Casa dos Patudos em Alpiarça conserva um arreio deste tipo que foi de Carlos de Mascarenhas Relvas de Campos e que aparece reproduzido no retrato equestre de Carlos Relvas pintado por José Malhoa existente no mesmo museu.

O Solar de Mateus em Vizeu e o Paço Ducal de Vila Viçosa, possuem no seu acervo telizes armoriados do período barroco, bem como no Museu Nacional dos Coches se encontra um que foi propriedade de SM El-Rei D. José I.

Os chamados “arreios de cortesias” que os nossos cavaleiros tauromáquicos usam na actualidade são a invocação possível desses arreios majestosos que. embora não possuindo a riqueza e a qualidade dos do passado, não deixam de ser um tributo à tradição equestre nacional e um espectáculo grandioso quando evoluem na arena, durante as “cortesias” que antecedem cada corrida de toiros, sobre magníficos exemplares de puros Sangue-Lusitanos montados por exímios “marialvas”.


Referências bibliográficas


Andrade, Manoel Carlos (1790), Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria, Lisboa, Regia Officina Typografica

Juana, Ricardo de (2012), La Gineta (disponível em http://www.soscaballolosino.com/Entrada-razasautoctonas/Entrada%20caballos/Caballos-S-XVI/La%20gineta-origen.htm)

Pacheco, Francisco Pinto (1670), Tratado da Cavalaria da Gineta, Lisboa, Officina de Joam da Costa

Pereira, Franklin (2003), “Las influencias del califato de al-Andalus em los coueros labrados de Portugal del siglo XVI”, in de la Llave, Ricardo Córdoba (coord.), Mil años de trabajo del cuero: Actas del II Simposium de Historia de las Técnicas, Córdoba, 6-8 de mayo de 1999, pp. 501-518

Ruiz-Doménec, José Enrique; Costa, Ricardo da (coords.) (2008), “La Caballería y el Arte de la Guerra en el Mundo Antiguo y Medieval”, Mirabilia, n.º 8, pp. 321-331